Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

domingo, 13 de julho de 2008

INTIMIDADE ATRÁS DOS NOMES - Yiuki


Ontem fazendo a caminho de Itupava para o Pico do Marumbi ouvi o comentário da Camila, namorada de um amigo meu, dizendo que em Italiano existem várias formas de chamar o vento. Senti um estranhamento, pois nunca reparei-os para atribuir nomes distintos, nem necessitei disto. Mas refletindo calmamente comecei a ver os vários ventos que existem pelo mundo: os que trazem o recado da estação, os que avisam que o mar está para os Deuses, aqueles que encaminham os velejadores a sua casa, os que anunciam a chuva e assim sucessivamente.

Neste momento de devaneio percebi que para atribuir nome a algo precisamos ter intimidade com aquilo que conquistou o nosso olhar. Ao longo da história as pessoas vêm relacionando com o mundo atribuindo os nomes seja por uma paixão ou uma simples necessidade. Mas independente de tudo, entendi que o vocabulário de um povo são as intimidades dele com o mundo; e isso foi maravilhoso, pois comecei a entender coisas que antes passavam despercebidas por mim.

Já na volta do Pico do Marumbi, dentro do trem, conversando com a irmã da Camila, ela disse que gostava de estudar de tudo, menos química. Eu achei isto curioso, pois para mim sempre foi fascinante estudar a química e a física. Então compreendi que não adianta apresentar nomes sem criar uma intimidade da pessoa para com o objeto. Talvez, ela não tivesse a oportunidade de encontrar um professor que envolvesse essa matéria no quotidiano dela. Por ventura a necessidade de passar no vestibular não fosse suficiente para ela criar uma intimidade com a química. Quiçá a química não tivesse um semblante apaixonante, uma incompatibilidade de atração e somente isto, a vida é assim mesmo.

Sentado na poltrona confortável depois de uma caminhada longa e com cansaço ainda fiquei curtindo essa descoberta. Percebi que as pessoas atribuem nomes carinhosos quando possui intimidade especial com os objetos. Por exemplo, os barcos deixam de ser um barco ganhando esses nomes afetivos gravados nas laterais demonstrando o relacionamento particular do dono. Geralmente são nomes de mulheres. Até por um momento cogitei em ser apenas homenagens a essas mulheres, nada mais do que isto. Mas logo em seguida, percebi que antes desses nomes terem sentidos, as intimidades que os donos possuíam com o barco já existiam. Então eu compreendi que o relacionamento vem antes do batismo dos barcos.

Comecei então entender que o nome muda conforme o relacionamento modifica. Lembrei dos nomes dos meus amigos que não conseguia usar mais. Algo dentro de mim tinha modificado, algo entre nós tinha mudado e não conseguia mais pronunciar Patrícia, Luciano, Viviane e Edson como foram me apresentados no primeiro dia de encontro. Sei que cada nome é especial e pessoal, mas depois de um tempo de convivência com eles, somente o pronunciar de Paty, Batata, Vivi e Walker é que me fazem estar junto a eles.

Ontem aprendi que atrás do nome existe toda história de um relacionamento. Seja de paixão, des-paixão ou de necessidade de (sobre)vivência. Entender isto me fez querer descobrir mais coisas a serem nomeadas por mim; não porque existem dicionários a serem descobertos pelo mundo, mas simplesmente por ansiar mais intimidade com tudo que me rodeia. Mas o que mais me encantou antes de dormir é compreender que é necessário respeitar a procura das intimidades das pessoas. Para isso precisamos pressentir a possibilidade de um relacionamento entre elas, caso contrário serão somente letras e sílabas desconexas que desaparecem no ar - o que não haveria problema também, pois acredito que as pessoas são livres para desvendar o que quiser nesse mundo magnífico e misterioso. Yiuki Doi

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