Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

ESCUTATÓRIA - Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a

dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou.

Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda:

“Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto.

Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram.

Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro.

Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (O amor que acende a lua, pág. 65.)

sábado, 26 de setembro de 2009

FAMILIA - 家族

Familia (家族) =  KA-ZOKU = Família em japonês são aqueles que mora no mesmo teto com mesmos ideais.
KA (家)= IE = Casa = Referencia de local sagrado onde se colocava porco como oferenda aos Deuses.
Zoku (族) = Referencia daqueles que ficam sobre mesma bandeira no batalhão de guerra.

Yiuki Doi

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

CONQUISTAS

Existem coisas que não podem ser repassados, pois são conquistas. Elegância, sabedoria e cortesia são uma delas. Yiuki

sábado, 12 de setembro de 2009

気 - Ki - Energia Vital

A energia vital que toda a matéria e os seres vivos possuem em japonês se chama Ki (気), um kanji que possui origem do ideograma chinês. Ele é usado em varias locuções linguísticas no quotidiano japonês, muitas vezes absorvemos essas expressões sem refletir o por quê de se usar esse ideograma nelas. Compartilho abaixo um pouco da cultura japonesa com vocês. Abraços. Yiuki Doi

  1. Sentindo-me (feeling) = kimoti (気持ち) = ki (energia) + moti (segurar) = Sentir é como asseguramos as energias.
  2. Favorito = kiniiri (気に入り)= ki (energia) + ni (preposição de destino) + iri (entrar) = Refere-se àquilo que favorecemos a entrada dentro do nosso ki.
  3. Não ligar = kinishinai (気にしない) = ki (energia) + shinai (não fazer) = Não ligar, não se preocupar ou não se importar em japonês significa não transformar em energia. O contrario disso seria Kinisuru (気にする) que significa se importar-se, preocupar-se e ligar-se.
  4. Avoado = nonki (呑気) = non (repuxado, retido, engolido) + ki (energia) = Uma pessoa avoada é aquela que repuxa o seu ki desconectando-se do seu entorno. É dita como sossegada e tranqüila, mas como é desligada da realidade geralmente não é bem vista dentro da sociedade.
  5. Ter atenção = kiwotsukeru (気を付ける)= ki (energia) + wo (preposição) + tsukeru (conectar) = Ter atenção é conectar a nossa energia para as coisas que nos rodeiam. Muitas vezes também se usa a expressão Kigakiku (気が利く) no japonês. O Kiku significa eficiente e por isso Kigakiku se refere as pessoas que possui a capacidade de entender o contexto e ser eficiente nela. É apreciada essa virtude para um japonês, pois entender e fazer parte do lugar ou da situação são essenciais numa convivência nipônica. No português tem uma palavra que lembra o Kigakiku, seria o prestimoso.
  6. Espairecer = kibarashi (気晴らし) = ki (energia) + barashi (fazer um céu azul) = Dissipar as nuvens internas para que nosso ki se clareie que nem um céu azul.
  7. Mesurar-se = kigane (気兼ね) = ki (energia) + gane (combinar) = Para combinar a energia com os outros precisamos restringir uma parte nossa, nesse contexto usamos a palavra kigane em japonês. Kigane é cansativo, pois existe uma restrição e privação de energia. Algumas pessoas causam isso e outras vezes algumas situações ocasionam isso. Kigane é necessário num contexto social japonês, faz parte da educação nipônica. No Japão não se aprecia pessoas efusivas e expansivas demais, as energias pessoais devem estar de acordo com o ambiente.
  8. Estado físico = kibun (気分) = ki (energia) + bun (parte): kibun não está bem, kibun está mal (estou passando bem, estou passando mal). Estado físico é uma parte do Ki de uma pessoa. Assim pela etimologia podemos concluir que somos um ki maior do que somente a matéria.
  9. Ater-se = kininaru (気になる) = kininaru = ki (energia) + ni (preposição de destino) + naru (transforma-se) = Usa-se esse termo kininaru para algo que se torna energia dentro de ti. Pode ser preocupação, curiosidade, afeição, etc. Algo externo chama a sua atenção, pois ele se torna energia.

P.S. Pesquisei a etimologia dos ideogramas e interpretei com a minha vivência como nissei.

P.S. Certa vez aprendi na “Nova Acrópole - Curso de Filosofia à maneira Clássica” que a tradição pode ser entendida como aquilo que se repete independente do tempo, espaço e cultura. Desta maneira, em muita ocasiões não sinto a diferença no uso da palavra Chí (China), Ki (Japão), Axê (África) e Prana (Índia).

P.S. Outra curiosidade, Aikidô em japonês escreve 合気道.
• Ai (合) = unificação, integração ou sintonia;
• Ki (気) = energia vital, a força vital que, num sentido restrito, anima o ser humano e, num sentido amplo, é o campo de energia que permeia todo o universo;
• dô (道) = caminho, senda.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

BELEZA

• Beleza no Físico é a Estética;
• Beleza no Prana é a Cortesia;
• Beleza no Astral é a Bondade e
• Beleza na Mente é a Sabedoria.

Anotação da aula na Nova Acrópole ministrada pelo Talal.

Yiuki

AUTOCONTROLE

• Domínio do Físico: Controle da rigidez
• Domínio do Prana: Controle da agitação
• Domínio do Astral: Controle da ansiedade
• Dominio do Kama-manas: Controle dos desejos

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O VAZIO SAGRADO

Lavoisier disse que na natureza nada se cria, nada se perde tudo se transforma. Aos vinte e pouco anos eu achava que tinha percebido na prática a lei da transformação. Eu observava a natureza e com ela entendia sobre a vida, morte, sexo, respeito, casamento, velhice, monogamia, poligamia, tirania, etc. e assim aprendi transformar e recriar os sonhos e desejos adaptando-os a nova realidade. Nesse entendimento eu achava que as pessoas bastavam saber as leis mundanas para mudar tudo que transpassasse por ela (materia, conhecimento, emoção, energia). Mas hoje aos 32 anos estou vislumbrando uma consciência nova em relação a causa e nascimento. Eu duvidava da existência divina, pois era inconcebível ao meu ver algo surgir do vazio. Mas a verdade era pura e simples. A vida é maravilhosa e o fato de estarmos aqui é a prova de que algo surgiu do vazio, simplesmente pela vontade divina. Deus criou o mundo pela vontade, logo a criação vem do Vazio movida pela Vontade. Eu uso o termo Vazio ao que uns chamam de Ser - aquilo que existiu antes da matéria e do tempo, muitos também o chamam de Espaço. Porém se pensarmos com calma o Vazio se encontra no meio daquilo que Existe e por isso Ele sempre está dentro da gente aguardando a centelha da manifestação. Essa centelha se chama Vontade. A Vontade é algo acima do material, pois o nascimento dela não depende da disponibilidade do ambiente. Eu sempre busquei a verdade na adaptação e na transformação baseando-o no entendimento cartesiano e mundano. Mas hoje percebo que a ela é regida pela Lei Espiritual e por isso nasce do Vazio Sagrado Intrapessoal. Hoje sinto que Deus deixou a chave da clarividência da Vontade neste lugar silencioso de escuta da Vida; por isso apesar dela sempre estar dentro de nós para acessá-lo precisamos ser tocado pelo poder do Vazio. O Todo é o Vazio, o Vazio é o Todo e sentindo isso agora consigo encontrar melhor o meu caminho. Yiuki

PS: Parece-me que o conceito do vazio, todo, tempo, felicidade e espaço precisa ser sempre atualizada de acordo com a idade e fase.

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