Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Difícil Facilitário do Verbo Ouvir - Artur da Távola

Um dos maiores problemas de comunicação, tanto a de massas como a interpessoal, é o de como o receptor, ou seja, o outro, ouve o que o emissor, ou seja, a pessoa, falou.
Numa mesma cena de telenovela, notícia de telejornal ou num simples papo ou discussão, observo que a mesma frase permite diferentes níveis de entendimento.
Na conversação dá-se o mesmo. Raras, raríssimas, são as pessoas que procuram ouvir exatamente o que a outra está dizendo.

Diante desse quadro venho desenvolvendo uma série de observações e como ando bastante entusiasmado com a formulação delas, divido-as com o competente leitorado que, por certo, me ajudará passando-me as pesquisas que tenha a respeito.

Observe que:

  1. Em geral o receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que o outro não está dizendo.
  2. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que quer ouvir.
  3. O receptor não ouve o que o outro fala. Ele ouve o que já escutara antes e coloca o que o outro está falando naquilo que se acostumou a ouvir.
  4. O receptor não ouve o que o outro fala. Ele ouve o que imagina que o outro ia falar.
  5. Numa discussão, em geral, os discutidores não ouvem o que o outro está falando. Eles ouvem quase que só o que estão pensando para dizer em seguida.
  6. O receptor não ouve o que o outro fala, Ele ouve o que gostaria ou de ouvir ou que o outro dissesse.
  7. A pessoa não ouve o que a outra fala. Ela ouve o que está sentindo.
  8. A pessoa não ouve o que a outra fala. Ela ouve o que já pensava a respeito daquilo que a outra está falando.
  9. A pessoa não ouve o que a outra está falando. Ela retira da fala da outra apenas as partes que tenham a ver com ela e a emocionem, agradem ou molestem.
  10. A pessoa não ouve o que a outra está falando. Ouve o que confirme ou rejeite o seu próprio pensamento. Vale dizer, ela transforma o que a outra está falando em objeto de concordância ou descordância.
  11. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que possa se adaptar ao impulso de amor, raiva ou ódio que já sentia pela outra.
  12. A pessoa não ouve o que a outra fala. Ouve da fala dela apenas aqueles pontos que possam fazer sentido para as idéias e pontos de vista que no momento a estejam influenciando ou tocando mais diretamente.

Esses doze pontos mostram como é raro e difícil conversar. Como é raro e difícil se comunicar! O que há, em geral, são monólogos simultâneos trocados à guisa de conversa, ou são monólogos paralelos, à guisa de diálogo. O próprio diálogo pode haver sem que, necessariamente, haja comunicação. Pode haver até um conhecimento a dois sem que necessariamente haja comunicação. Esta só se dá quando ambos os pólos ouvem-se, não, é claro, no sentido material de "escutar", mas no sentido de procurar compreender em sua extensão e profundidade o que o outro está dizendo.

Ouvir, portanto, é muito raro. É necessário limpar a mente de todos os ruídos e interferências do próprio pensamento durante a fala alheia.

Ouvir implica uma entrega ao outro, uma diluição nele. Daí a dificuldade de as pessoas inteligentes efetivamente ouvirem. A sua inteligência em funcionamento permanente, o seu hábito de pensar, avaliar, julgar e analisar tudo interferem como um ruído na plena recepção daquilo que o outro está falando.

Não é só a inteligência a atrapalhar a plena audiência. Outros elementos perturbam o ato de ouvir. Um deles é o mecanismo de defesa. Há pessoas que se defendem de ouvir o que as outras estão dizendo, por verdadeiro pavor inconsciente de se perderem a si mesmas. Elas precisam "não ouvir" porque "não ouvindo" livram-se da retificação dos próprios pontos de vista, da aceitação de realidades diferentes das próprias, de verdades idem, e assim por diante. Livram-se do novo, que é saúde, mas as apavora. Não é, pois, um sólido mecanismo de defesa.

Ouvir é um grande desafio. Desafia de abertura interior; de impulso na direção do próximo, de comunhão com ele, de aceitação dele como é e como pensa. Ouvir é proeza, ouvir é raridade. Ouvir é ato de sabedoria.
Depois que a pessoa aprende a ouvir ela passa a fazer descobertas incríveis escondidas ou patentes em tudo aquilo que os outros estão dizendo a propósito de falar.

Artur da Távola

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Criação x Providência do Cosmo (Goethe)

Em relação a todos os atos de iniciativa e de criação, existe uma verdade fundamental cujo desconhecimento mata inúmeras idéias e planos esplêndidos: a de que no momento em que nos comprometemos definitivamente, a Providência move-se também. Uma corrente de acontecimentos brota da decisão, fazendo surgir a nosso favor toda sorte de incidentes e encontros e assistência material que nenhum homem sonharia que viesse em sua direção.
O que quer que você possa fazer ou sonhe que possa, faça.
Coragem contém genialidade, poder e magia. Comece agora. (Goethe)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Diga que raça de cachorro criou e compreenderei melhor a sua cultura.

Hoje, vi um site com a descrição da raça TOSA KEN do Japão. Fiquei encantado de conhecer um pouco mais da cultura japonesa. Abaixo deixo parte da descrição que encontrei no site que é genial (Indico para todos o site ;) 

tosa_inu (1)

“No Japão, os cães são cuidadosamente criados e treinados e o jogo é conduzido sob regras rígidas e acompanhado por rituais sagrados e procissões. As lutas de cães entre Tosa nunca deve ser cruel ou com sangue e nunca termina com a morte de um dos participantes. Pelo contrário, as lutas são projetados para durar muito tempo e, ao contrário do pi lutas de cães, um cão que vai para a vitória fácil e rápido, não é considerado um bom espécime. Semelhante a luta de sumo, os cães tenta trazer e manter o adversário no chão. Se ele domina por mais de 3 min. (ou 5 minutos, se a luta durou mais de 15 min.) É declarado vencedor. Um cão choramingar ou rosnar é declarado perdedor. O mesmo vale para um cão que vira a sua pata traseira para o adversário ou se mover atrás três passos quando atacado. A luta termina em qualquer caso, após 30 minutos, num empate, se nenhum dos caos demonstrou superior ao outro. Ao contrário das demais raças de combate, o Tosa original está consciente do valor simbólico da luta e respeita as regras do jogo e seus oponentes. Assim como lutadores de sumo, os cães são classificados em uma hierarquia e acordo com os pontos que ele ganhou recentemente. Os maiores Tosa “lutadores” recebem o título de Yokozuna como no sumô.

tosa_inu (2)A aparência geral do Tosa dever ser a de um atleta enorme, dinâmico e flexível. Possui uma cabeça grande e largo, focinho quadradão e barbela claramente observável. Ao contrário do Kennel Japão (JKC) e da Federação Cinológica Internacional (FCI), que exigem o vermelho como a cor preferida, na cidade de Kochi, onde a raça nasceu, aceita uma variedade de cores como sólido, tigrado, preto com manchas, ou pied.

É muito difícil encontrar boa qualidade de Tosa fora do Japão. O Típico cachorro procurado pelos criadores japoneses é calmo e tranquilo, mas atento e consciente de sua própria força e com senso inato de prudência, que vai reagir somente em caso de emergência, em seguida, demonstrando grande coragem e força inigualáveis.

Mesmo no Japão as coisas estão mudando. Muitas pessoas influentes não deseja promover o lado positivo, humilde da Tosa, pois eles temem que se a raça é percebida como diferente de uma raça de combate, ele vai ser mais facilmente substituída por uma outra raça nos shows.

Alguns criadores conscientes na Holanda, Alemanha e Estados Unidos estão levando o legado verdadeiro Tosa Inu. Potenciais compradores devem ser particularmente cuidadosos na escolha de um criador responsável e respeitável que gera o caráter genuíno da Tosa Inu.”

Texto acima retirado do site: http://www.bulldoginformation.com/Tosa-inu.html

P.S. Para quem quer ter um cachorro de raça japonesa de pequeno porte, encontrei esse daqui na internet: Shiba Inu. É muito lindo, parece um Akita em miniatura ;) Site de criador dessa raça que encontrei  na internet: http://www.leonorakita.com.br/

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Curitiba, 13 de Dezembro 2012.

Conversando com a minha sócia encontrei um gato nipônico interessante também.

 

BOBTAIL JAPONÊS - Japanese Bobtail

Texto abaixo retirado do site www.ajudavirtual.com.

bobtail-japones

Origem: Japão
Tipo de Pêlo: Curto
Tamanho: Médio
Peso Mínimo: 05 Kg – Peso Máximo: 06 Kg
Temperamento: Dependente, apegado.
Idade: média de 08 anos

 

 

 

 

História:
Conhecido atualmente pelo nome inglês, o Bobtail Japonês é na verdade uma raça japonesa muito antiga, a qual estima-se existir há cerca de 2.000 anos. Existem desenhos dele em ruínas e documentos antigos ao lado de gueixas. No tempo de Gotokuju, as paredes foram decoradas com pinturas de um exemplar desses gatos, chamado Maneki-Neko, que significa – “gato das boas-vindas”. Diz uma lenda japonesa, que este gato traz boa sorte. O Bobtail Japonês chegou nos EUA em 1969, trazido por criadores e teve seu reconhecimento pela CFA em 1978. Em 1989, pela FIFE. Já no Brasil, este gato ainda é considerado de criação rara.

Características:
A cauda é a característica mais marcante do Bobtail Japonês, que tem esse nome devido a expressão “bobbed tail”, que significa cauda cortada. Sua cauda mede no máximo 10 cm de comprimento, mas como é mantida em posição curva, fica escondida e parece não existir, assim como ocorre com os coelhos. Esses gatos têm como cores mais apreciadas o preto, o branco e o vermelho, seja na forma sólida ou em combinações bicolores ou tricolores. Os gatos desta raça de outras cores também são aceitos, desde que o desenho (degradé de tons) da pelagem não seja como o do Siamês ou do Abissínio.

Com o corpo esguio, porém dotado de boa musculatura, ele é considerado um gato elegante, com pernas compridas e fortes. Seu focinho é arredondado, sendo que sua cor deve condizer com a do resto do corpo. Suas orelhas são largas e eretas e os olhos são ovalados, brilhantes e em harmonia com a tonalidade de sua pelagem. Seus pêlos são de comprimento médio, macios e muito resistentes.

O Bobtail Japonês é um gato amigável e de temperamento forte. Companheiro e inteligente, ele é considerado no Japão como um símbolo de amizade. A raça não tem dificuldade de ambientação, se adaptando tanto a apartamentos quanto ao ar livre.

Cuidados:
Manter o Bobtail Japonês saudável não costuma ser difícil, exigindo apenas cuidados básicos com a alimentação e a higiene. A pelagem curta não embaraça e esta raça quase não perde pêlos, exigindo apenas escovações ocasionais. Além disso, esses gatos devem ser alimentados com rações balanceadas, pois no caso de gatos de uma forma geral, o dono deve estar atento para o uso de boas rações, no intuito de se evitar o aparecimento de cálculos urinários, promovidos por alimentos de baixa qualidade. A alimentação adequada fará com que o gato cresça saudável e com a pelagem lisa e brilhante. Além disso, realize consultas regulares ao médico veterinário.

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Faça. Continue fazendo.

‎"Faça. Continue fazendo. Mesmo que não percebam a evolução. Continue fazendo. Mesmo que não deem valor as transformações. Faça e faça bem feito, mesmo que por estar tão próximo não sejam capazes de notar.
Tente, se errar, tente novamente. Se pensar em desistir, desista de pensar em desistir e continue acreditando. Quando estiver cansado, respire, se imagine onde deseja estar. Confie. É preciso que alguém mantenha essa confiança e a disciplina te leva a esse estágio. Você precisa confiar em si mesmo, ainda que todos duvidem, ainda que todos desdenhem, ainda que até a pessoa que você mais ama não seja capaz de confiar.
Não espere nada de ninguém. Toda esperança é frustrada SEMPRE.

Faça sem desejar nada em troca. Faça porque te faz bem. Faça porque ao estar colocando em prática te sentes vivo.
Ouse, arrisque, viva. Não deixe que ninguém conquiste o impossível por você. Não tema o desconhecido. Enfrente se preciso for.
Tenha fé, não precisa colocar seus anseios nas mãos de nenhuma divindade, mas mantenha a fé, ela é o canal por onde toda sua força de vontade e todo o seu pensamento positivo circulará.
Seja tolerante com quem é incapaz de lhe entender. Seja rigoroso com seus compromissos. Ao se comprometer, assuma todas as consequências. Lute. Lutar enobrece a alma, fortalece o ser.
Enquanto eles dormem, nós trabalhamos. Enquanto eles se divertem, nós vamos abrindo os caminhos.
Divirta-se, esbalde-se, exercite seu limite. Se preciso for, exagere para descobrir até onde é capaz de chegar, mas faça com consciência. A consciência é a medida que determina o veneno da cura.
Quando tudo isso acabar, pois nada é eterno de fato, perceba, você proveu forças de transformação, não passou em vão por esta existência, registrou algo nesse plano.
Faça seus planos consciente de que a diferença entre o sucesso e o Fracasso é o tempo que o fracassado levou para desistir.
Não desista."
Tico Sta Cruz

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A WOMAN WAITS FOR ME | Walt Whitman (Tradução por Gilberto Cardim)

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA – UESBDEPARTAMENTO DE ESTUDOS LINGÜÍSTICOS E LITERÁRIOS – DELLDisciplina: Literatura Norte Americana | Prof.: Márcio Roberto S Dias | Graduando: Gilberto Cardim | Letras Modernas

Uma mulher espera por mim, ela tem tudo, nada a falta,
Entretanto, tudo estaria faltando se faltasse o sexo, ou se o calor do homem certoestivesse faltando.
O sexo contem tudo, corpos, almas,Significados, provas, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,Músicas, comandos, saúde, orgulho, mistério maternal, o líquido seminal,Todas as esperanças, obras, doações, todas as paixões, amores,belezas, deleites da Terra,todos os governos, juízes, deuses, os seguidores da Terra,Tudo isso está contido no sexo como partes dele mesmo e de suas justificações.Sem pudor, o homem que eu gosto sabe e reconhece as deliciais do seu sexo,Sem pudor, a mulher que eu gosto sabe e reconhece às delas..Agora eu libertarei a mim mesmo de mulheres impassíveis,eu ficarei com ela, que espera por mim e com àquelas mulheres que tem o sanguequente e são suficientes para mim.Eu vejo que elas me entendem e não me renegam,Eu vejo que elas valem a pena para mim, eu serei o marido robusto dessasmulheres.Elas não são nem um pouco inferiores a mim,Elas são bronzeadas em suas faces pelo brilho do sol e do soprar dos ventos,Suas carnes tem a velha flexibilidade divina e força,Elas sabem nadar, costurar, cavalgar, lutar, atirar, correr,Atacar, retratar, avançar, resistir e defender-se,Elas são donas de si em seus próprios direitos – elas são calmas, claras,Bem seguras de si mesmas.Eu puxo você para perto de mim, você mulheres,Eu não posso deixá-las partir, eu as farei bemEu sou por vocês e vocês são por mim, para nosso próprio bem,Mas para o bem dos outros.Cercada de você, dorme grandes heróis e poetas.Eles se recusam em acordá-la ao toque de qualquer outro homem que não seja eu.Sou eu, você mulher, eu traço meu caminho,Eu sou severo, bruto, amplo, indissolúvel, mas eu amo vocês.Eu não a machuco mais do que seja necessário para você,Eu derramo meu sêmen para procriar filhos e filhas que sejam saudáveis para esteEstado,Eu pressiono com músculos lentos e rudes.Eu abraço a mim mesmo, eu ouço suplicas,Eu desafio não tirar ate que eu tenha depositado tudo aquilo que eu tenhoacumulado em mim.Através de você, eu dreno tudo aquilo confinado em mim. Em você, em coloco milhares de anos além,Em você, eu produzo os frutos daquilo que mais amo de mim e da America,As gotas que eu destilo em você farão crescer garotas agressivas e atléticas,Novos artistas, músicos e cantores,Os bebês que eu gero irão gerar seus próprios bebês,Eu demando homens e mulheres perfeitas do meu amor Eu espero que eles interpenetrem com outros, assim como você e euInterpenetramos agora,Eu vou contar os frutos que brotaram deles, comoEu conto os frutos que brotam e os dou,Eu devo procurar por plantações de nascimentos, vida, morte,Imortalidade, eu planto de forma amorosa agora.

Texto acima retirado desse link. Depois formatarei ele.

Premissas Culturais da Criação na Pós Modernidade | de Michel Maffesoli* – traduçao de Rosza Vel Zoladz**

Texto abaixo retirado do site UFRJ.

O atual só faz sentido, pelo cotidiano, enquanto provisório. É essa impermanência que faz que não se apreenda o que acontece senão tomado a partir do que lhe é fundador. Eis porque todo pensamento autêntico retoma uma especificidade da existência humana: a gente semeia o que vai ser colhido somente mais tarde.

É assim que, no fim dos anos 70, eu anunciava o retorno de Dionísio, deus da orgia, sublinhando com isso o papel, cada vez mais importante, que a paixão (orgé) iria desempenhar nas nossas sociedades.

Do mesmo modo, em referência a um outro sentido da palavra (orgos: iniciado), eu indicava o lugar primordial que a iniciação iria tomar no neotribalismo contemporâneo. O que isso queria dizer, senão que ao encontro do que era convencionado e permanentemente dito, se situava aí a energia na vida social? Mas é preciso reconhecer, mesmo se isso não deixe de irritar numerosos observadores, que esta energia se exprime ao mesmo tempo pela proximidade, no cotidiano de uma busca de um hedonismo bem convincente. Em todo caso, fora das instituições racionais, terreno predileto da sociologia moderna.

Frequentemente se ouve também falar do consumo exacerbado. Ainda um destes exageros que se empregam para mascarar, na verdade, o fato de que nós passamos para uma outra coisa.

Por menos que se esteja cego pelo conformismo do ambiente, é evidente que a avidez dos objetos, a obsolescência rápida dos amores, o frenesi das novidades, tudo isso nos deveria incitar a dar outros nomes para o vertiginoso acúmulo de incertezas característico das maneiras de ser pós-modernos. Georges Bataille, com a sua noção de gasto, profeticamente esboçou seus contornos. De nossos dias, o consumo, o fato de fazer arder a vida em todos os propósitos, tornou-se uma realidade cotidiana que se configura como antípoda da mitologia do progresso peculiar à modernidade.
Isto é bem constatado pela invenção de um mito, o do Progresso, com que Auguste Comte, bem como Saint-Simon queriam lutar contra o obscurantismo peculiar, segundo eles, aos diversos politeísmos e depois aos monoteísmos semânticos.

O que faz lembrar em Saint-Simon o que ele nomeia de “religião industrial”. Esta aí – se é bastante consciente (?) devia comportar o todo de um produtivismo moderno, sua grande ideologia do crescimento. E a sociedade da produção tal qual ela se pôs em toda a extensão do século XIX e no começo do século XX, não podia senão acabar nessa sociedade de consumo. Esse tema, tão bem analisado por Jean Baudrillard, via precisamente nele, em um de seus livros, menos conhecidos, mas particularmente explorado, O espelho da produção.

Toda mitologia precisa de termos que sejam verdadeiros oscilógrafos, que lhe servem de sinalizadores de trajeto. Esses termos constituem uma espécie de caixa de ressonância, na qual cada um pode, facilmente, se reconhecer. Isso se dá até mesmo inconscientemente. A trilogia Progresso, Produção, Consumo tem exatamente esta função. São palavras-chave que repercutem as preocupações populares e fundamentos da mitologia moderna. Mas elas se tornaram simples feitiços. A saber, os termos que se continuam repetindo continuadamente, mesmo a partir de diversos discursos oficiais. Que repetem religiosamente essa cantilena em todas as ocasiões, chegam a fazer parte da opinião comum, da retórica rotineira. Mas às quais, embora por essa mesma razão, não se dá a elas mais grande atenção. Sabe-se, desde tempos longevos: litania, liturgia, letargia.

Numerosos, com efeito, são os índices oficiais, a contrapelo dos discursos ou análises legitimados, que lhes servem de racionalizações.

É frequente que um valor que se acaba conheça in fine um retorno fulgurante. E não é preciso lembrar o legendário canto do cisne pelo qual esse último, morrendo, transforma seu grito rouco e lânguido, mas bem inútil, em melodia. É bem assim que se pode compreender as diversas pequenas canções sobre o valor trabalho e outros cantos sobre a taxa de crescimento ou do famoso poder de compra! Elas são tão mais insistentes quanto, mais e mais, ignoradas. Como se, na França, em profundidade, a vida se resumisse aos aborrecimentos de obter um Plano de economias para a compra da moradia! De fato, a alardeada Crise Econômica (PEC) não tem outras fontes. Ela é, antes de tudo, civilizacional (culturas que se chocam). Ela é o mais próximo de sua etimologia (krisis) um julgamento de algo que se está acabando. Julgamento que os valores dionisíacos fulminam contra a prevalência prometeica do todo econômico!

Há aí como que um odor de incêndio no ar do tempo. E, de diversas maneiras, trata-se de queimar sua vida, por todos os objetivos ou, o que retorna ao mesmo sentido, de não perder a própria vida que se tem a ganhar. Eis o que uma mitificação do consumo tende ao uso opaco, do binômio produção-consumo.

O paroxismo se mostra nessas dezenas de milhares de carros que ardem em chamas, cada ano, no circuito das grandes cidades francesas. É preciso ousar dizer que se trata de um símbolo elucidativo? Em todo caso, instrutivo, quando se sabe como o carro era o signo absoluto do que se considerava como sociedade de consumo. Objeto caro a adquirir. Ele é a resultante de toda vida de trabalho, e o que permite, igualmente, se dirigir a esse trabalho. Ele é, ao mesmo tempo, aquilo com o que se pode escapar realmente ou fantasiosamente, da coerção do labor. Ele significa a possibilidade do lazer e do tempo não coercitivo. Enfim, este “objeto-signo” é a soma de um investimento libidinal sobre o qual os psicanalistas, longamente, teceram comentários.

E é esse objeto que arde em chamas!

Notemos, no entanto, que não é o carro da pessoa de posses – esse está protegido na sua garagem – que se incendeia. Não é esse que se encontra na rua. Ao pé do imóvel da cidade, ao qual as mídias denominam “os quarteirões”. Ele pode pertencer a um conhecido ou a um parente.

O fato de consumir um tal objeto não é um ato político, como é frequente o analisar. Trata-se mais de uma postura lúdica. Uma estrutura antropológica ocupando a destruição pelo coração mesmo da construção. Assim, o adágio romano pars destruem, pars construens, ou seja, a construção pela destruição, de alguma forma. E não é proibido pensar que há nesses incêndios curiosas reminiscências das festividades estudantis: Berkeley nos Estados Unidos, em 1964, ou rue Gay-Lussac, em Paris, no ao de 1968! Daí essa opinião admitida onde um pitainismo inconsciente se alia a uma estupidez bem pensada para clamar que é preciso tudo ao mesmo tempo: “trabalhar mais e esquecer 68”. Os múltiplos cânticos em torno de trabalho, família, pátria sendo agora moeda corrente na intelligentsia francesa.

No Le combat avec le démon, Stefan Zweig fala, a propósito de Nietszche, ou de Hölderlin, de um demonismo, animando suas obras e suas vidas. Seria um tanto abusivo dizer que, em certas épocas, um tal demonismo está atuante na sociedade em seu conjunto? Que a sombra de Dionísio se estende sobre as megalópoles pós-modernas?

O que se faz presente em paroxismo na criação literária se exprime em menor intensidade pelo conjunto dos objetos de consumo na vida quotidiana. Com efeito, eles não são mais nem menos construídos, nem mesmo encarados para conservá-la. Eles se inscrevem em tudo o que é concebido sob a égide da precariedade. Objetos, situações, relações marcadas pela fonte de obsolescência programada.

Isso se vive, igualmente, no domínio dos afetos. Amor não rima mais com duração eterna. Usura, fadiga, hábitos, tudo isso faz que, em geral, as relações amicais ou amorosas não se inscrevam mais na longa duração. E se sabe o que é da instituição conjugal que procura empalidecer sua fragilidade propondo o casamento entre homossexuais e outras orientações sexuais existentes. Num sentido figurado, é preciso dar trabalho aos diversos párocos e outros beneficiários de todo tipo.

As teorias também não são mais o que elas eram. Eis que os conceitos fazem água por todos os lados. Os dogmas não constituem mais receitas. O universalismo não convence mais do que alguns fanáticos da Razão, da Ciência, do Progresso, ou outras “capelas” do mesmo gabarito.

O ar do tempo é constituído de verdades parciais, momentâneas ou mesmo aproximativas. Mas é um tal relativismo, enfatizando o acento sobre o instante, que favorece a criação. Certo é que a energia individual ou coletiva não é mais mobilizada sobre a longa duração. Focalizada no instante, ela é vivida com muito mais intensidade.

É isso que exprime a sociedade de consumo, i.e., uma outra metodologia não repousando mais sobre a “Religião Industrial” de uma economia de si e do mundo, mas sobre o gasto, a perda. Uma inconsciente inconsciência que sabe, desde o tempo da sabedoria imemorial, que, por vezes, quem perde ganha. Após tudo, por que não fazer a aposta que possa aí haver, no Consumo, esse luxo noturno da imaginação, as premissas de uma intensa e fecunda criação? Pois de uma verdade advinda da observação da vida social Goethe nos lembrava: “Somente o que é fecundo é verdadeiro”.

Fazer da sua vida uma obra de arte! Colocar todas as coisas e todos os seres humanos na praça pública se inscreve bem nessa estetização da existência, onde o que importa, antes de tudo, é provar paixões e emoções comuns. Desse ponto de vista, a estética serve de cimento ético. Então, o que ela foi nas sociedades tradicionais, um elemento da vida de todos os dias, a arte, progressivamente, foi mumificada, posta para fora, separada do cotidiano. A criação, a criatividade, o jogo, a imaginação contaminam novamente a existência do homem sem qualidade. Nietzsche morreu louco de ter tido essa intuição, num momento em que isso não se colocava. E eis que do intelectual esteta ao esportivo atento ao seu corpo, do nômade “rurbano” ao ecologista zeloso de seus legumes sem agrotóxicos, se faz atenção à criatividade vivida no dia-a-dia. A arte se capilariza em tudo que era, até aqui, considerado como anódino.

Cada época tem suas imagens e seus próprios mitos. Mas eles não fazem nada além de retomar e atualizar as potencialidades arcaicas que se acreditava ultrapassadas e que, de repente, reencontram uma juventude vigorosa.

Mas isso é bem difícil de admitir, tanto que é enraizada a ideia de um Progresso da humanidade, de um desenvolvimento por um tipo de História, tendo como objetivo longínquo a assegurar.

A ideologia semita, por meio de seus matizes judaicos, cristãos, muçulmanos, perdeu o seu acento sobre o desenvolvimento histórico, cujo linearismo é a marca essencial.

Todo outro é o pensamento grego ou aquele das diversas sabedorias orientais repousando sobre o retorno cíclico das coisas. A partir daí o acento era colocado sobre as eras míticas, privilegiando a experiência vivida.

Desse ponto de vista, se pode lembrar de uma passagem muito instrutiva da “Cité de Dieu” (XII, 14,1), na qual Santo Agostinho se mostra injuriado com firmeza diante dos “sábios desse mundo que acreditavam ter que introduzir uma marcha circular do tempo para renovar a natureza”. O mito, com efeito, remete ao renascimento periódico de todas as coisas. Círculo ou espiral, pois as coisas não retornam exatamente ao mesmo nível. É assim que a sociedade do trabalho está em vias de ser substituída pela sociedade da criação.

Que nós vivemos uma era de transtornos é, agora, coisa admitida. Seja de um modo larvado, seja explosivo, o afrontamento dos grandes valores que presidiram a solidez da vida social é fácil de averiguar. Mas é com muitas reticências que vão ver aceitar as suas consequências psicológicas e sociais. Tanto é verdadeiro que a (re)novação de certos mitos dá calafrios aos clérigos (aos políticos, sábios, jornalistas), tendo por função gerir os mitos dos quais eles não querem, em hipótese alguma, ver a saturação.

Nos períodos diluvianos, nada nem ninguém escapa ao choque das diversas vagas da maré cuja atualidade não é marcada pela avareza. Assim, isso faz que apareça o pedestal fundador da modernidade: o trabalho.

Para retomar uma expressão conhecida do filósofo Emannuel Kant, eis bem o imperativo categórico maior. Este presidindo a realização de si e a do mundo. Por aí mesmo se elabora a mitologia do labor, inaugurando a prevalência do trabalho, do produtivismo e da economia que lhe é a consequência. Mas o fato mesmo que esse valor seja recente não incita a pensar que ela seja eterna. De fato, numerosos são os índices que, empiricamente, sublinham sua saturação. Isso obriga a observar que podem existir outras maneiras de agir sobre o ambiente social e natural.

Mas, como eu já indiquei, cada coisa se acabando lança seu canto do cisne: o último antes de morrer. E isso não é colocado entre parênteses, é divertido enfatizar como a expressão Valor trabalho constitui o pedestal incontestável das diversas coisas sociopolíticas sempre repetidas. Valor trabalho, do que nos lembramos, era justamente o elemento chave da suma teológica de Karl Marx: O Capital!

Revanche do marxismo? Em todo caso segundo uma intelligentsia, não se deva mais menosprezar, é pela revalorização do trabalho que se vai revolucionar, conservar, mudar, reformar a sociedade. E se o problema não estava mais aí? Se essa encantação não era, no fim das contas, um verão indiano de uma modernidade em declínio?

Com efeito, de diversas maneiras, em particular para essas gerações de jovens que já são a sociedade de amanhã, se sente bem que o essencial da existência não consiste em perder sua vida para ganhá-la. O imperativo tu deves deixa progressivamente o lugar ao optativo é bem preciso. Certo, é preciso trabalhar bem. Mas esse não é apenas um elemento entre outros. Um simples aspecto, forçosamente sem ser o mais importante, dos investimentos pessoais.

A mitologia do bem-estar, essa do hedonismo latente, faz que em tudo, ao mesmo tempo, se pode ser um bom administrador e ter múltiplos centros de interesse, tendo cada um uma importância própria. Hobbies diversos, práticas amadorísticas de diferentes artes, trabalho temporário, turn over de uma repartição, atenção dedicada à estética dos escritórios, heliotropismo revalorizando a importância das regiões do Sul da França, chamando atenção para seus valores, tudo é bom para relativizar o aspecto coercitivo do trabalho.

A partir daí, as condições de vida, no tempo coercitivo do trabalho, não são mais negligenciadas. Em resumo, o qualitativo está na ordem do dia. Todas essas práticas cotidianas, pouco teorizadas, mas intensamente vividas, nos lembram que são das civilizações e não das menos importantes onde é a criação que tende a prevalecer.

Prometeu cede o lugar a Dionísio.

Nessa perspectiva, o que é a criação senão a capacidade de mobilizar todos esses parâmetros humanos que são o lúdico, o onírico, o imaginário coletivo? A Renascença foi um desses momentos onde banqueiros, empreendedores, artistas e aventureiros de todas as ordens pensavam a vida social como um todo. E agindo com essas perspectivas. É qualquer coisa desta ordem que se exprime nos mitos “holísticos” da pós-modernidade nascente.

Metrossexuais e todo o camafeu das classes médias, a emergência de novas formas de vidas, adeptos do crescimento e do pacto ecológico, se empenham, de diversas maneiras, a colocar em segundo plano a prevalência do trabalho. Globalização colaborando, o peculiar da mitologia pós-moderna é colocar o acento sobre a sinergia existente entre o prazer arcaico do bem-estar e o desenvolvimento tecnológico. E quando se sabe que mais da metade do trânsito nas redes da Internet é dada aos encontros de amigos, eróticos, filosóficos ou religiosos, se vê bem em que consiste essa relativização do valor trabalho. É essa relativização que sublinha o retorno à criatividade na vida social.

O campo aberto por uma tal transmutação dos valores é imenso. E falta explorá-lo. Em uma palavra, é isso que vai ser encontrado em todos os mitos, enfatizando o vivido, a experiência, o desabafo etc. Isto porque não há real competência senão quando se apresenta um vasto apetite. Em resumo, não se mobiliza a energia individual e coletiva, fora do caso de estar sintonizada com o inconsciente da época. De acordo com um futuro próximo, aqueles que sabem se por em dia com os valores presentes no imaginário do momento, por um racionalismo estreito são relegados à pré-história. O ego cogito, fundamento da modernidade, está progressivamente deixando lugar a um est ego affectus. Afetados pelos outros, pelo sagrado, pela natureza, pelos humores (pessoais, coletivos). É isso que convém pensar: a mutação de uma existência dominada pelo materialismo moderno, quer dizer, um pouco dotado, para uma outra maneira de estar junto, onde o imaterial reencontra força e vigor.
São esses valores imateriais que estão em pleno reviver na vida política, social e econômica. E não são carregadas de neutralidade que as gerações jovens serão as protagonistas desse olhar novo sobre a natureza e a sociedade. É por isso mesmo que, na sua atitude um pouco desenvolta, os “criativos” multiformes são homens de seu tempo, reafirmando a eterna juventude do mundo. É isso mesmo que se cristaliza na figura emblemática de Dionísio, essa de Puer aeternus!

* Membro do Institut Universitaire de France. mm@ceaq-sorbonne.org

** Professora colaboradora do PPGAV da EBA/UFRJ (Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro). Pesquisadora convidada do PACC-FCC UFRJ (Programa Avançado de Cultura Contemporânea do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Flor sagrada

Cortar uma flor e presentear é um ato de sacrifício. Logo, ela é uma flor sagrada.

domingo, 14 de outubro de 2012

A arte não ama os covardes – Vinícios de Moreas

“Arte é afirmação de vida, em que pese isto aos mórbidos. Afirmação de vida nesse sentido que a vida é a soma de todas as suas grandezas e podridões: um profundo silo onde se misturam alimentos e excrementos, e do qual o artista extrai a sua ração diária de energias, sonhos e perplexidades: a sua vitalidade inconsciente. Tome-se Villa-Lobos, por exemplo. Villa-Lobos é um caudal que se precipita arrastando tudo o que encontra em seu caminho, troncos floridos e paus pobres, ninféias e cadáveres; e, uma vez represado, harmoniza os elementos antagônicos dessa rica contextura em música, seja da maior tranqüilidade, seja do maior tormento - pois tudo faz parte da vida. Como admirar, assim, o artista que se recusa a comer dessa mistura, que desinfeta as mãos para tocá-la, que vive a tomar leite para não se envenenar com suas tintas?” (Vinícios de Moraes, prosa Arte e Síntese)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

“A maior riqueza do homem é a sua incompletude” Manoel de Barros

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros

domingo, 12 de agosto de 2012

descompasso

Esmagado no cisalhamento das placas tectônicas dos mundos que não se dialogam. Se há reencarnação e a alma não possui sexo, imagino que em outro tempo poderiamos ser, pelo menos, amigos. Apego-me a essa imagem para seguir adiante a carne que assegura a alma, mas que precisa de um calor. Yiuki Doi

desCompasso 120813Y

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Teto branco

Deitei na cama e vi o teto branco.
Levei um susto. Como tinha esquecido dele?
Off no computador, desligo a luz, entro na cama.
O despertador toca, pego a toalha, um banho.
Penso, preciso trabalhar...
Deitei na cama e reparei no teto branco.
Há quanto tempo não vejo ele?

domingo, 5 de agosto de 2012

Compartilhar pão e maças ;)

"Leva contigo o pão de carrapicho que fizestes na bacia das almas
mas deixa numa encruzilhada a maçã mordida de teus mais doces desejos
entrega de coração aberto o teu canto às estrelas do Destino e espera, o dia amanhecer". Gilberto Manea

Gilberto Manea: quase 1 leminskata com Dedé Luis Patricio": > pão dividido com Yiuki

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Decisão

“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.” Cora Coralina

terça-feira, 10 de julho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Justiça x a ira – Apóstolo Paulo

  • "Irai-vos, e não pequeis. Não se ponha o sol sobre vossa ira..." Ef.4:26 | Apóstolo Paulo)

  • “não colocar sol sobre a ira.” Paulo Roberto

  • "Julgai todas as coisas, retende o que é bom" (1 Ts 5:21 | Apóstolo Paulo)

  • “Mostre os fatos, mas não coloque sol sobre a ira.” Yiuki

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Teoria dos HUBs para poder usar nas políticas culturais.

 

HUB - (traduzido do Inglês, "pivô") ou concentrador é o processo pelo qual se transmite ou difunde determinada informação, tendo, como principal característica, que a mesma informação está sendo enviada para muitos receptores ao mesmo tempo (broadcast). Este termo é utilizado em rádio, telecomunicações e em informática. (Wikipédia 21/02/2014).

O Concentrador possui algumas características, uma delas é a tendência de se tornar mais forte, por vários fatores associativos. Por exemplo: Um orientador requisitado do curso da faculdade. Muitos podem não ter tanta afinidade, mas o fato dele ser popular aumenta a possibilidade do seus amigos irem atrás dele, logo como você busca estar perto dos seus amigos, você também terá tendência de aproximação ao orientador popular.  Esse estudo pode ser associado inclusive a característica das grandes corporações comprarem as empresas menos fortes: cada vez mais é raro ver empresas familiares de médio porte, estes não sobrevivem no mercado. Nas guerras, a capacidade de identificar HUB de transporte, alimento, comunicação, etc. são cruciais. Na saúde se você pretende focar na campanha de DSTs, melhor focar nos HUBs, pode ser mais eficiente do que uma campanha aberta ao público em geral. Existem trabalhos de mestrados/doutorados que estudam os comportamento dos HUBs.

Num mundo complexo globalizado e capitalista onde o inimigo não possui um endereço fixo, precisamos criar um SISTEMA DE DEFESA complexo em REDE também. Nesse aspecto, compreender um pouco sobre a natureza da REDE DE CONEXÃO é primordial para a nossa sobrevivência.

Compartilho um vídeo onde aprendi muito sobre esse assunto.

SINCRONIZAÇÃO: A natureza deseja ordem (Prof. Tiago Pereira).http://video.if.usp.br/video/sincroniza%C3%A7%C3%A3o-natureza-deseja-ordem

Yiuki Doi, membro do Conselho Municipal de Cultura de Curitiba e do Fórum de dança de Curitiba.

P.S. Agradecimento ao físico Rodrigo Pereira Rocha que me apresentou esse vídeo.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cantores

Cantores

Não há escuridão que ofusque vocês.
Contagia 34 metros em 0,1 segundo.
Sabem alquimiar aquilo que todos respiram.
Como veio ao mundo, é o que precisa,
Sem instrumentos, suportes e paletas,
Na pureza e na simplicidade.

Dom invisível, que ecoa no tempo e espaço.
Benção de uma arte divinizada.
Seres que desceram do céu,
Somente para encantar a nossa vida.

Yiuki Doi

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Adolescência – por Mario Sergio Cortella

SEXTA, 08/06/2012

Adolescente está grávido de si mesmo

Ele dará à luz ele mesmo em outro momento. Alterações hormonais, dificuldades de humor, impasses no corpo e na mente e impaciência são algumas das características dessa fase. 

 

OUVIR O COMENTÁRIO TODO: http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/mario-sergio-cortella/2012/06/08/ADOLESCENTE-ESTA-GRAVIDO-DE-SI-MESMO.htm

sábado, 26 de maio de 2012

Platonismo da vontade – Gaston Bachelard

“Como explimir melhor, no sentimento mesmo de um amor platônico, esse platonismo da vontade que dá ao ser àquilo que o ser quer, àquilo que é o futuro ser, depois de ter suprimido todos os seres do passado, todos o seres da reminiscência, todos os desejos sensuais em que se alimentava uma vontade schopenhaueriana, uma vontade animal!"

Gaston Bachelard (O ar e os sonhos, Editora Martins Fontes, 1ª Ed., p.146)

Árvore Nitzschiana – por Gaston Bachelard.

A árvore nitzschiana […] é um vinculo todo-poderoso do mal e do bem, da terra e do céu. “Quanto mais quer elevar-se rumo às alturas e à claridade, mais profundamente suas raízes se afundam na terra, nas trevas e no abismo – no mal.” (Zaratrustra, Da árvore sobre a montanha, 1ª ed., p.57). Não há bem evasivo, desabrochado, não há flor sem um trabalho da imundície da terra. O bem brota do mal.

Gaston Bachelard (O ar e os sonhos, Editora Martins Fontes, 1ª Ed., p.150)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Imaginação x Moral – Gaston Bachelard.

Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: Os trabalhos de Robert Sesoille | Editora Martins Fontes | 1ª Ed. | P.112

“Os moralistas gostam de falar-nos da invenção em moral, como se a vida moral fosse obra da inteligência! Que nos falem antes do poder primitivo: a imaginação moral. É a imaginação que deve fornecer a linda das belas imagens ao longo da qual há de correr o esquema dinâmico que é o heroísmo. O exemplo constitui a própria causalidade moral. Porém, mais profundo ainda que os exemplos oferecidos pelos homens, é o exemplo fornecido pela natureza. A causa exemplar pode converter-se em causa substancial quando o ser humano se imagina de acordo com as forças do mundo. Quem tentar igualar sua vida à sua imaginação sentirá crescer em sí nobreza ao sonhar a substância que sobe, ao viver o elemento aéreo em sua ascensão.
(Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: Os trabalhos de Robert Sesoille | Editora Martins Fontes | 1ª Ed. | P.112)

“O ser imaginante e o ser moral são muito mais solidários do que pensa a psicologia intelectualista, sempre pronta a considerar as imagens como alegorias. A imaginação, mais que a razão, é a força da unidade da alma humana. (Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: Nietzsche e o psiquismo ascensional | Editora Martins Fontes | 1ª Ed. | P.153)

Profundidade está em cima–Nota sobre Novalis por Gaston Bachelard.

Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: A queda Imaginária | Página 108

“Se o universo é de certa forma o precipitado da natureza humana, o mundo dos deuses é a sua sublimação.” E Novalis acrescenta este profundo pensamento: “Os dois se fazem uno actu.” A sublimação e a cristalização se faz num único ato. Não há sublimação sem depósito, mas também pouco existe cristalização sem um vapor ligeiro que deixe a matéria, sem um espírito que corre acima da terra.

Gaston Bachelard

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Imagine – Gaston Bachelard

“Imaginar-se um mundo é tornar-se responsável, moralmente responsável, por esse mundo” (Gaston Bachelard – Livro: O ar e os sonhos, capítulo: A queda imaginária, página 93)

“A imaginação, princípio primeiro de uma filosofia idealista, implica que se introduza o sujeito, todo o sujeito, em cada uma de suas imagens. Imaginar-se um mundo é tornar-se responsável, moralmente responsável, por esse mundo. Toda doutrina da causalidade imaginária é uma doutrina da responsabilidade.” Gaston Bachelard.

domingo, 20 de maio de 2012

Inspiração – Carlos Fuentes

"Não creio na inspiração, é um palavra que detesto. Só existe nas cartas de amor, aos quinze anos. Creio na disciplina, às oito da manhã, com minha caneta, até a uma da tarde e depois, até a noite, trabalhando.” (Carlos Fuentes)

Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/1983

Outros textos sobre INSPIRAÇÃO

sexta-feira, 18 de maio de 2012

sábado, 3 de março de 2012

Tributo à Autonomia

TEXTO ORIGINAL RETIRADO DO BLOG: http://www.odoze.blogspot.com/search?q=tributo&x=11&y=11


Há exatamente um ano atrás, os 'doze' se juntaram para escrever as primeiras palavras de um lugar que queríamos construir, mas que ainda nem tinha nome. Era uma segunda-feira, e em meio a muitos papéis, risadas, incertezas e várias espiadas no dicionário, as idéias foram surgindo. Foi o dia de quase decidirmos o nome do Coletivo (ainda nem haviamos pensado nos anagramas...), de pararmos milhões de vezes o que estávamos fazendo para relembrarmos tantas histórias, e foi um dia de muita união. De olharmos uns para os outros e percebermos que poderiam ser reais todos os nossos sonhos e planos, os lugares que estávamos escolhendo, as pessoas com as quais queríamos caminhar dali pra frente.
No dia 04 de fevereiro de 2008 o Coletivo o12 estava reunido com suas doze pessoas (a “formação original”) para escrever o nosso Tributo à Autonomia. Distribuído no dia em que realizamos o nosso “Manifesto” em praça pública e através de um flyer amplamente divulgado via Internet, foi o documento que serviu de norte e como impulso para ações que realizamos até hoje.
Que bom que estamos juntos, cada vez mais fortes e felizes.
E não se esqueçam: dia 15 é nosso aniversário de um ano!!


TRIBUTO À AUTONOMIA
O desenvolvimento dos sistemas vivos implica em que deles, a certa altura, se desprendam as partes que amadureceram na conquista da sua autonomia.
É a situação em que nos encontramos, nós 12, que assinamos este manifesto, nesse momento. Justamente por isso, precisamos tornar essa situação pública. Porque desejamos começar já compartilhando com todos – os dos passado, os do presente, os do futuro.
Nós estamos engajados em construir um espaço para nossa autonomia.
E desejamos que esse espaço seja aquele onde:

  • A manipulação da autonomia alheia vá pra “Tonga da Mironga do Kabuletê”.
  • Cada qual enxergue o horizonte que conseguir.
  • Cada qual faça o que pode, pois nos parece que cada um só faz no mundo o que pode fazer.
  • Se pense “em agrupamentos de homens e de idéias como compartilhamentos norteados pela singularidade” (frase de Christine Greiner no prefácio do livro Teoria do Conhecimento e Arte, de Jorge A.Vieira).
  • Cada um saiba que tem o seu Umwelt (termo alemão cuja tradução aproximada é “o mundo à sua volta dentro de você”) e não aceite que lhe digam o contrário.
  • Cada qual escolha o que vai vestir.
  • Cada um abra os olhos, deixe a ingenuidade de lado, morra do seu próprio veneno, invente seu próprio pecado.
  • As resoluções de um coletivo sejam, de fato, decididas e assumidas por cada um do coletivo.
  • Se produzam idéias sobre viver, e não para sobreviver.
  • Aja!


Votorantim, 04 de fevereiro de 2008. 22h35


“o 12”: Preta Ribeiro, Lucas Amorim, Rafael Bricoli, Thiago Alixandre, Vera Almeida, Ariane sampaio, Guilherme Santos, Lidi Domingues, Mari Mendes, Douglas Pereira, Tati Almeida, Lúcia Floriano.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Bebê agora vem com manual– Paty Muller

Olá mamães e simpatizantes!
Uma mamãe me perguntou sobre o livro que considero pra mim um verdadeiro Manual para lidar com Bebês.
Ela disse:

"Fiquei com uma dúvida aqui... o livro que estou lendo da Tracy Hogg chama-se "os segredos de uma encantadora de bebes" e esse que vc mencionou tem outro título.

Vc sabe qual é a diferença entre os dois?

Um é a sequencia do outro?"

Compartilho da minha resposta:

  • Sobre o Livro (veja o anexo).
    O livro que eu uso é o da capa rosa -" A ENCANTADORA DE BEBÊS RESOLVE TODOS OS SEUS PROBLEMAS", que tem complementos de exemplos bem práticos  além de alguns ajustes que ela faz referente à parte de tirar das fraldas pra usar o troninho.
    O livro da capa azul "Os Segredos de uma Encantadora de Bebês" foi escrito antes do da capa rosa e é mais teórico.
    Agora tem mais um livro dela "Mais Segredos da Encantadora de Bebês - Para Crianças de 1 a
    3 Anos", mas este ainda não tive o prazer de bizolhar.
  • Sobre a autora.
    Tracy Hogg é britânica, trabalhou por muitos anos como babá nos Estados Unidos.
    Tenho muita admiração por ela pois ignora saídas fáceis para escolher soluções que dão ferramentas pra que as crianças se desenvolvam respeitando sua natureza de criança !
    Difícil explicar uma coisa dessas.
    Vamos ao exemplo: Quando uma criança leva um tombo e cai ao chão. Se não foi grave, finja que não viu e permita que ela mesma se levante e siga em frente.
    Foi babá de filhos de famosos como John Travolta e teve até um programa de teve nos EUA.
    Infelizmente ela faleceu há uns 5 anos, de câncer.
  • Quando ler.
    Recomendo que seja dada uma lidinha, se possível, 2 mêses antes da criança nascer, prá que você se localize dentro do livro e compreenda a "espinha dorsal" do manual. Assim, quando sua dúvida é sobre alimentação sólida, não vai precisar ler sobre amamentação (alimentação líquida) antes.
  • O perfil do leitor.
    Sei de uma gestante cujo companheiro antipatiza manuais.
    Sabendo que ela precisava da ajuda dele e que agissem de maneira que não fosse divergente com o bebê (ou daria um nó na cabeça criança, não é?), ela poupou ele da leitura, mas passava de maneira sutil, verbalmente e aos poucos a "espinha dorsal" do manual e deu certo! Trabalho em equipe é isso mesmo.
    beijos


Patricia Muller

Prá além do choro

Queridos "Mamães e Simpatizantes",
Compartilho de infos que passei para uma mamãe que pediu uma ajudinha sobre sua pequena que estava numas de arquear o corpo pra tráz + bater o pé + dar tapas.

beijos repletos de ferramentas diante das frustrações da vida,

Patricia Muller

 


Pois é, para mostrar insatisfação, agora a criança tem mais ferramentas que chorar/berrar. Rsrsrs
De início, costuma resolver se você conseguir entender o que irrita a criança, pra ela se manifestar assim  e antes de acontecer novamente, acolha a criança pra perto de você, diga algo como: " olha eu sei que quando acontece isso, você não gosta, mas procure manter-se calma, a mamãe está aqui com você" e se perceber que a criança te escuta, continue dizendo "vamos encontrar uma maneira de juntos resolver isso".

É importante fazer uma leitura/acompanhamento da criança e intervir antes, por que depois, não conseguerimos resultado nenhum, nas terras do Sr. Descontrole.

Assim, se perceber que a criança está "mergulhando" na irritação, mas ainda no comecinho do "mergulho", retire ela do ambiente, acolhendo a pra perto de você, do seu corpo. Mesmo se estiver nevando, enrole a criança numa coberta e pronto. Os ambientes externos são ótimos pra tirar a criança deste espiral de descontrole. Não me pergunte porque. Só sei que super funciona. Agradeço à Tracy Hogg (autora do livro A Encantadora de Bebês Resolve Todos os Seus Problemas) por isso.

Se a coisa seguir sem sucesso, compartilho o que aprendi com a excelente professora da Giordano Bruno, Andrea Assumpção , quando meu pequeno estava numas de me bater no rosto no auge de seus 2 aninhos.

A instrução é simplicidade:

  1. Segure a mãozinha da criança antes de encostar em você.
  2. Olhe bem nos olhos da criança, de maneira séria (não é hora pra simpatias nem sorrizinhos pois você aplicará o que chamo de " NÃO verdadeiro")
  3. Diga uma única fraze curta e direta (e não a fique repetindo como um mantra, diga uma vez só) como por exemplo:  " Não, eu não quero que você faça isso!"
  4. Não agrade a criança na sequencia. Permita, que em silêncio, que ela sinta o reflexo do acontecimento em todo o seu ser.
  5. Não fique zangada com a criança. Ela está aprendendo e cabe a você fornecer ferramentas pra isso.
  6. Repita todo este procedimento até a criança mudar sua postura diante das frustações.

Patricia Muller

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre a Paciência – Patrícia Muller

Descobri que a paciência não é um “largar mão” da sua velocidade, algo próximo da desistência.

Paciência é entender e num passo mais avançado, respeitar a velocidade e o ritmo das coisas.

É entender e respeitar a velocidade e o ritmo da Natureza.

É a maneira mais veloz de se conseguir o melhor resultado que se pode obter.

Vou exemplificar. Se você sonha em ter um lindo vaso de flores em sua sala, vale perder tempo descolbrindo em que lua é mais indicado plantar , frequência com que deve regar (constância) e quantidade de luz que a planta precisará.

Você pode até se afobar e dar um jeito pra florescer ainda no inverno, mas se quer a flor com todo o seu resplendor, cor e perfume, vai ter que esperar até a primavera.

Paciência é, no final das contas, humidade e respeito.

Humidalde pra perceber que nem tudo vai acontecer na velocidade que você gostaria de impor.

Respeito pra perceber que a Mãe Natureza tem velocidade própria e é a sabedoria manifestada, se você estiver com ela, nada estará contra você!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Viver ultrapassa qualquer entendimento." (Clarice Lispector)

"Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento." (Clarice Lispector)

Os hobbies - Michel Echenique Isasa

O que há de mais parecido com a vocação são os hobbies. Por definição hobbie é uma atividade que fazemos porque queremos, porque gostamos e porque a fazemos bem. A vocação não é muito diferente, é só acrescentar que é uma atividade profissional. Mas isso é apenas circunstancial, pois essencialmente a condição de um hobbie e de uma vocação é a mesma. Tanto é assim que um hobbie pode se tornar vocação e vice-versa. É muito comum constatar que pessoas que acharam sua vocação na vida antes de realizá-la como uma atividade profissional já a desenvolviam como um hobbie. Portanto, para quem ainda não achou sua vocação este método é perfeitamente válido.

A atual condição profissional ou de trabalho é geralmente muito estressante e o que é pior com muita pouca satisfação. Trabalhamos compulsoriamente, por uma necessidade que nem sempre é verdadeira, muitas vezes é simplesmente falta de recurso, de cultura, de oportunidade ou de imaginação. Para pessoas que se encontram nessa condição buscar um hobbie poderia ser a solução para muitos problemas.

Buscar um hobbie é uma questão de versatilidade, pois muitas vezes precisamos testar muitas coisas até descobrir uma que nos dê prazer e ao mesmo tempo seja útil. É por isso que a busca de um hobbie se caracteriza por desenvolver em princípio artes ou ofícios ou também desenvolver atividades que nos permitam integrar muitas outras.

A interdisciplinaridade e a transversalidade podem também ajudar muito para encontrar hobbies, mas uma questão fundamental é superar o preconceito da especialização. De início, digamos que ela não é natural ao ser humano, mas uma imposição de interesses de produtividade e não do trabalho. A especialização não surgiu da necessidade de melhorar as condições de trabalho, mas de melhorar as condições dos investimentos, portanto o natural é que um ser humano esteja em condições de fazer muitas coisas e tarefas variadas. É muito empolgante observar pessoas que sempre estão fazendo coisas e mais gratificante ainda quando as fazem com muita motivação. Nem sempre a curiosidade é ruim, muitas vezes ela, se bem direcionada, nos permite observar as coisas de diferentes ângulos de visão e compreensão, o que gera a oportunidade de encontrar algo que possamos fazer e que nos dê um retorno com esse tipo de satisfação.

Por outro lado, um hobbie não é só uma questão de satisfação, mas também de saúde e de realização. De saúde porque um hobbie nos mantém longe do estresse ou de psicosomatizações patológicas, e de realização porque num hobbie a gente se entrega por completo tendo assim condições de trazer à tona o nosso potencial. É interessante observar a surpresa de muitas pessoas quando, fazendo alguma coisa em que se aplicam com mais intensidade do que o comum, descobrem que são capazes de executar ações para as quais pensavam que estavam impossibilitados.

Aqui então existe um caminho a ser tomado com relação às nossas atividades, e o desenvolvimento de potencial, criatividade e crescimento. O importante é não ficar parado, perdendo iniciativa e oportunidades. Normalmente quem tem um hobbie é alguém especial e geralmente desperta interesse nos demais, o que já é uma pequena porta para a realização em qualquer aspecto humano. Também é necessário esclarecer que hobbie não é sinônimo de lazer, ou de atividades amadoras em qualquer área, mas um trabalho que exige aplicação, esforço, pesquisa e desenvolvimento com um alto grau de eficiência, não é estressante só porque é realizado de forma voluntária, consciente, com prazer e talvez o que é mais importante sem a neurose da busca do resultado.

Em síntese, hobbie é uma atividade à altura de qualquer profissão, com o mesmo padrão de qualidade de uma atividade vocacional, porém para benefício de nós mesmos, para além de qualquer questão circunstancial e compulsória, que dá retorno em termos de autonomia, autoconhecimento, beleza e realização.

Michel Echenique Isasa

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Espiritualidade - Pierre Teilhard de Chard

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual...
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana... "
(Pierre Teilhard de Chard)

Espiritualidade x Religião

AUTOR DESCONHECIDO

A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que estão despertos.

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.

A religião ameaça e amedronta.
A espiritualidade lhe dá Paz Interior.
A religião fala de pecado e de culpa.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"..

A religião reprime tudo, te faz falso.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
A religião não é Deus.
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.

A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião não indaga nem questiona.
A espiritualidade questiona tudo.

A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é Divina, sem regras.
A religião é causa de divisões.
A espiritualidade é causa de União.

A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
A religião segue os preceitos de um livro sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.

A religião se alimenta do medo.
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.
A religião faz viver no pensamento.
A espiritualidade faz Viver na Consciência..

A religião se ocupa com o fazer.
A espiritualidade se ocupa com o Ser.
A religião alimenta o ego.
A espiritualidade nos faz Transcender.

A religião nos faz renunciar ao mundo.
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
A religião é adoração.
A espiritualidade é Meditação.

A religião sonha com a glória e com o paraíso.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
A religião vive no passado e no futuro.
A espiritualidade vive no presente.

A religião enclausura nossa memória.
A espiritualidade liberta nossa Consciência.
A religião crê na vida eterna.
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.

A religião promete para depois da morte.
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mudanças - Guimarães Rosa

"...o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas estão sempre mudando. Afinam e desafinam". Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Natureza - Merleau-Ponty

“é a reflexão sobre o estatuto do ser natural ou do ser naturalmente que permite passar da fenomenologia para a ontologia. A reflexão crítica sobre o tema da natureza, no seu pensmento final, prepara essa passagem. Essa inserção ou encarnação da subjetividade em um corpo reflexivo faz dela um acontecimento do mundo em sua forma de aparecer como corpo e sentido inseparáveis e inerentes ao sensível. A emergência do corpo próprio e do corpo reflexivo no corpo biológico seria o mais alto grau de manifestação de um Ser que é intrinsecamente visibilidade e expressividade. Nesse sentido, afirma Merleau-Ponty: há natureza por todaa parte onde há uma vida que tem um sentido, mas em que, entretanto, não há pensamento (La Nature:Notes Cours du Collège de France. pag.19). A natureza é o fundo inumano que nos move e que nos determina de dentro para fora. É natureza viva tudo o que tem um sentido, mesmo sem ser posto como pensamento. ela é a autoprodução de um sentido (La Nature:Notes Cours du Collège de France. pag.19). Dessa forma, Merleau Ponty reafirma “a natureza como o outro lado do homem (como carne – de modo algum como ‘matéria’)”(Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.328).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 180)

Conhecimento para termos leveza ;)

Livro_4

P.S. Autor da foto desconhecido: se alguem souber de quem é eu agradeço.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Epicédio – Dicionário Houaiss

Datação
1713 cf. RB
Acepções
■ substantivo masculino
1 hino fúnebre, freq. improvisado, que se cantava nas cerimônias dos funerais
2 Derivação: por extensão de sentido.
lamentação na forma de poema lírico ou sinfônico, ou discurso, dedicado à memória de alguém
Etimologia
gr. epikêdeios,on 'fúnebre, canto fúnebre', pelo lat. epicédíon,ìi 'poema fúnebre'; ver ep(i)-

Melancolia

No obnubilar da noite repousa-se a vida, num devir do amanhecer.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

RESILIÊNCIA– Dicionário Houaiss

Acepções
■ substantivo feminino
1 Rubrica: física.
propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica
2 Derivação: sentido figurado.
capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ser bruto, ser selvagem ou ser vertical: Merleau-Ponty

Texto abaixo retirado do livro A Subjetividade Corpórea, página 164, do autor José de Carvalho Sombra.

A experiência do sensível, além de diferenciação do em-si e do para-si (Merelau-Ponty, Signes, p.212) é diferenciação do visível, em oposição ao invisível; é o fundo geral no qual é feito o recorte das “coisas” como tais (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Na experiência do sensível, a referência às “coisas” e um excedente da experiência, algo como “uma interpretação segunda da experiência” ((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.214). Esse excedente, na percepção que nos dá acesso às coisas em sua positividade, possibilita “nossa abertura para o ‘alguma coisa’”((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.216) indeterminado, que é o Ser. a experiência da visão é o olhar que realiza a concreção do visível em visibilidade, na qual o sensível deixa de ser um ser de latência para tornar-se visibilidade. A visão é mais do que projeção e visada, é poder de diferenciação entre visível e invisível.

A experiência do sensível é abertura e acesso ao ser bruto, anterior à experiência das coisas, onde se dá “nossa experiência do ser bruto, que é como o cordão umbilical de nosso saber e a fonte do sentido para nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Essa enigmática abertura para o ser é a apreensão indireta e confusa de todas as coisas no seu elemento comum: ‘o invisível de sua visão, o inconsciente da consciência […]’ "”o outro lado ou o avesso (ou a outra dimensionalidade) do ser sensível”, comenta Claude Lefort¹.

A aparição ou apresentação desse Ser, plenamente e simplesmente sensível ou visível, que a poesia e a pintura buscam alcançar na experiência da visão, é o que o Merleau-Ponty chama de ser bruto, ser selvagem ou ser vertical, porque não é trabalhando pelas categorias da reflexão nem sofreu qualquer idealização. È um ser de visibilidade, que permeia o mundo em volta de mim e dentro de mim. Ele está diante de mim e é preciso apenas ver: é visibilidade intrínseca, como modo específico do Ser, não exige nem um ato subjetivo nem precisa ser aplicada ou representada, pois é anterior a qualquer reflexão ou posição do sujeito. É um ser que não é objeto de pensamento, já que eu percebo por contato: sinto, percebo, vejo, e faço parte dele. Em virtude dessa universalidade do sensível, a visibilidade deixa de ser conseqûencia ou efeito de um ato subjetivo:

“Característica do percebido: já estar aí, não ser pelo ato de percepção, mas ser a razão desse ato, e não o inverso. (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.272).

O Ser bruto é a região do sensível, pré-reflexiba e selvagem, anterior às separações e representações do pensamento, da qual brotam as categorias reflexivas e que está na origem das relações corpo/mundo e mundo sensível/mundo inteligível. Ele é o substrato das coisas e de toda experiência; é o solo originário, de onde brotam toda experiência e toda relação entre consciência e mundo. O ser bruto é a nova forma de ser no mundo natural, que aparece como presença pré-reflexiva e pré-humana e que constitui o Ser no seu estado selvagem. A descrição do visível e do ato de ver obriga-nos a rever nossa ontologia e a buscar um significado novo no Ser: a visibilidade instrínseca do ser, que se faz aparição ou visibilidade, que exclui as categorias subjetivas da percepção e da reflexão, visto que se manifesta no corpo e nas coisas e é “mistura do mundo e nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.138). “é ‘empiètement’ [invasão] de tudo sobre tudo, ser de promiscuidade” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.287).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 164)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Entre a Poesia das Imagens e o Imaginário da Criação: A Ronda Noturna de Bachelard

Por: Edinaldo Bezerra de Freitas(1)

Texto original retirado da Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. O artigo abaixo é interessante para filosofos e artistas criadores. Yiuki Doi

É encontrar uma espécie de elo perdido. A obra de Bachelard parece nos conduzir até aquele espaço onde acontecem encontros: ciência e poesia, razão e sentimento, matéria e espírito. É desconcertante, ao mesmo tempo tão obvio, complexo e tão elementar. Não restam dúvidas, estamos diante de um dos maiores e mais seminais pensadores do ocidente. Produtor e produto da demanda de conhecimentos de um nosso mundo contemporâneo, um mundo tão cheio de soluções e contradições, tão longe e tão perto da vontade potencial de achar a fórmula da alquimia elementar, e ao mesmo tempo tão fora de possibilidades, senão, de um mundo de exclusão e inclusão de consumos vazios. A paradoxal filosofia de Bachelard parece mesmo com a vida, essa imensa e tão simples força de querer ser que se institui e se extingue a cada momento se revelando tão apenas criação...
E quando se fala de fim de ideologias, fim das utopias, até fim da história, mister se faz conduzir o olhar para a imaginação, porque carecemos de criar novas direções, dar novos sentidos, repensar pensamentos, sobretudo sonhar. Que o eco de Bachelard nos dê alento para elegermos a profundidade das imagens como método para conhecer. Sobretudo, conhecer Bachelard. Ave Bachelard !

A Complexidade Essencial
Ou, O Novo Espírito Científico


Demandando o que chama “A Complexidade Essencial”, Bachelard nos apresenta a sua filosofia do Novo Espírito Científico. Para constituir a complexidade, lembra de início, existem duas metafísicas básicas na cultura científica moderna: o Racionalismo e o Realismo. Tais categorias, lembra o autor, além de naturais e convincentes, implícitas e obstinadas, são também contraditórias. É nessa conjuntura que aparecem, a questão maniqueísta do chamado conhecimento objetivo e sua contraparte de conhecimento chamado subjetivo. O primeiro dilema estaria em opor estas duas faces do conhecimento enquanto categorias de tendência universalista ou total. Bachelard nos conduz a dialetizar.
Polarizando estas duas faces da ciência, temos quase sempre o engendramento de cada uma em ter que lançar mão de sua contrária. O primeiro deslize seria a própria substituição das metafísicas intuitivas e imediatas em tão somente metafísica “discursiva”. Nessa direção, parece ser no mínimo ambíguo, o duplo sentido da prova científica, que se afirma na experiência e no raciocínio, como realidade e como razão. A ciência contemporânea resumidamente, teria como principal alvo, atingir “a síntese das contradições metafísicas”. Lembrando a trajetória racional prevalecente no pensamento científico desde a antiguidade até o início do mundo moderno (de Aristóteles até Bacon), Bachelard nos convida a refletir sobre o vetor racionalista, apondo a questão, o porque da ausência do percurso contrário, ou seja, do porque um pensamento que migra do real para o racional e nunca, no sentido inverso, do racional para o real. Desta forma, ao mesmo tempo que questiona, a filosofia bachelardiana mora justamente no racionalismo, na realização racional, reafirma - com sua própria feição de contradição e limites - o próprio sentido de apreender o ensinamento da realidade.

Bachelard
Apresenta assim o tempo contemporâneo como o período do realismo técnico, quando “cada hipótese é síntese”, e onde a questão da razão é transferida do “porquê” para o “porque não”, a parologia ao lado da analogia. Usando um sutra nietzscheano, lembra o autor que na história “tudo o que é decisivo só nasce apesar de”.
Nessas circunstâncias, o projeto de Bachelard é a de compor e opor uma epistemologia não-cartesiana, indo assim na direção desse novo espírito científico contemporâneo. Dialogando com as grandes descobertas cientificas do seu tempo, lembra o filósofo, ele próprio não trás necessariamente as novidades das descobertas, mas a novidade de um método. É portanto nesse campo metodológico que o texto procura se conduzir. Um método posto exatamente na encruzilhada dos conhecimentos, um método onde o realismo e o racionalismo trocam entre si infinitos conselhos e onde demande atingir uma meta: a renovação em si dos seus objetos.
Nesse endereço, lembra o autor, está a única psicologia possível para o cientista, simplificando o real e complicando a razão, explicando a realidade e aplicando pensamentos. Nem entregues a nós próprios (o mundo como nossa representação), nem apenas sociedade (o mundo como convenção nossa), mas o mundo como verificação nossa, acima do sujeito, acima do objeto imediato. Um conhecimento “projeto”. Como dedução: O real não se mostra - o real demonstra-se. Ou ainda mais sintético, diante de dinâmicas contraditórias e indefinições. Perceber o paradoxo de ser o pensamento científico, aquele que melhor permite estudar o problema psicológico da subjetivação...
O caráter inovador do espírito científico teria pois que aferir um lugar para o conhecimento onde a ontologia do complemento se realize de maneira “menos asperamente dialética que a metafísica do contraditório”.
A partir destas aceptivas Bachelard vai de encontro ao conjunto dos conhecimentos científicos modernos, analisando a geometria, a mecânica,a física e a matemática como espaços de construção da dicotomia do conhecimento dialético. Daí, vai finalmente deparar-se com a dicotomia do conhecimento determinista e o indeterminismo. Da astrologia até a astronomia newtoniana, passando até às categorias kantianas, onde o “a priori” reflexivo está posto como contra face de certezas. Determinismo como simplicidade, como restrição experimental.
Nesse sentido, voltando ao dilema real e racional, aparece assim a permanente crise do realismo, a revolução frutuosa da reclassificação do real e o profundo movimento de transformação advindo do reino do abstrato.
O desafio portanto é metodológico, o caminho da superação permanente dos métodos do passado e o perpétuo progresso na procura de novos métodos. Nessa condução, lembra o autor, as relações de incertezas devem ser interpretadas como obstáculos à análise absoluta, “numa condenação da doutrina da natureza simples e absoluta”, ao contrário do exercício enriquecedor do paradoxo. Por fim, lembra Bachelard, o espírito científico é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento do quadro do conhecimento, onde pela didática da super- ação a ciência aceita o desafio de instituir novos percursos.

As Aparências dialéticas do Conhecimento
Ou, A Psicanálise do Fogo.


Ao propor uma Psicanálise do Fogo o filósofo Bachelard procura empreender o desvendamento das aparências do saber. Romper com o objeto imediato, a primeira observação. Como num processo de recusa sistemática, propõe-nos a tudo criticar: a sensação, o senso comum, a prática constante e a etimologia, até porque, lembra, o verbo raramente coincide com o pensamento. Para tal caminho, longe do maravilhamento, aponta o lugar da ironia.
Apondo Ciência e Poesia, a trilha sugerida é da complementaridade, numa performance de união equilibrada. Para refletir sobre tais dilemas, o autor aponta para o problema psicológico de nossas convicções sobre o fogo. Pois que a pergunta se revela: O Que é o fogo?
Posto num universo de objetivação impuro, o fogo parece ser esse lugar bom para pensar. Nele estão inclusas a intuição pessoal e as experiências científicas, a subjetivação e a objetivação. Aporta aqui o Devaneio. Segundo Bachelard esse sentimento complexo não cessa de retomar os temas mais primitivos e se infiltra sem embargo no próprio espaço do pensamento e de chofre, também nas experiências científicas. Na História, tal fato registra-se permanentemente, daí, uma espécie de fuga, diz o autor, para curar o espírito da felicidade. A meta pois, é realizar uma psicanálise das convicções subjetivas.
O fogo, essencialmente duplo, realiza pois a síntese da conexão objetivo/subjetivo e em contrapartida comporta a marca do falso peso dos valores não discutidos. Como pois ir de encontro à barreira da intuição primeira? O zombar de si mesmo?
O fogo e o calor respeitam inicialmente às essencialidades. O bem e o mal aí se localizam. Contraditório, facilmente se presta a princípios de explicação universal. Aqui se insere o mito de Prometeu. No entanto, pouco se percebe ser o fogo muito mais um ser social do que natural. Desta forma, ensina o mito, as interdições sociais são primeiras à própria experiência natural. Em Prometeu sabemos, estamos diante da questão da desobediência engenhosa. Afinal é preciso dominar o fogo, mesmo com o rico da queimadura, como os deuses, como o pai, como o patrão....
Assim, Prometeu é um outro Édipo. O complexo de Prometeu é o da vida intelectual. Do ter que escolher entre saber e fabricar, sem ser necessário correlacionar tais aspectos com a vontade de poder. Portanto, Vontade de Intelectualidade, além de pragmatismos e intuições.
É necessário, lembra Bachelard, substituir o estudo dos sonhos pelo mais instrutivo estudo do devaneio (fogo), substituindo valores, trabalho e repouso, alimento e gastronomia, penúria e alegria. A conquista do supérfluo produzindo excitação espiritual além da conquista do necessário. O HOMEM COMO CRIAÇÃO DO DESEJO, NÃO CRIAÇÃO DA NECESSIDADE.
O sonho sugere o desejo da mudança, da transformação, mutação, do pequeno em grande, a lareira e o vulcão, a fogueira como renovação. Deste ápice de contrários, entre vida e morte, aparece o Complexo de Empédocles.O homem, o conhecimento, a abismo.
Propõe-se assim Bachelard realizar a psicanálise indireta e segunda, buscando o subconsciente sob o consciente, o valor subjetivo com a evidência objetiva, o devaneio sob a aparência. Estudando o sonho, escondido na experiência que lhe apagou. Além da explicação racionalista, imediata e prática, do fogo pela fricção, da sexualidade aí contida, dos componentes da libido localizados em todas atividades primitivas. Afinal, lembra o autor, o ensinamento de Jung: não só na arte, mas em todo trabalho humano está a sublimação da libido. O Homo Faber como uma mão e uma linguagem. Porém, alerta nosso autor, o gesto útil não deve ocultar o gesto agradável. Além da utilidade, o sonho mais íntimo, o sonho da fecundidade sob a forma mais sexual. Assim numa empreitada, unindo Frazer e seu Ramo de Ouro em paralelo a Libido de Jung.
O fogo associado à brincadeira, a festa, ao roubo. Os vários fogos: suave, sorrateiro, rebelde, violento. Um caminhar entre desejos e paixões. O fogo primitivo, medieval - alquímico e moderno e romântico. Tudo como num devaneio entre o estar junto à lareira e a inscrição do amor humano no coração das coisas. O fogo como primeiro fenômeno no qual o espírito humano é refletido. Poesia e ciência tendo início na meditação do fogo.
Fenômeno, por que o conhecer a aparência se dá com a constatação da mudança da própria aparência e primitivamente, diz o filósofo, apenas as mudanças pelo fogo são profundas. Achega-se aqui a um apelo à sublimação. Uma sublimação dialética diferente da sublimação contínua da psicanálise clássica. O fogo portanto como um problema de estrutura psicológica, pondo-se entre o sujeito e o objeto, criando intermediários entre contemplações com pretextos objetivos sobre a vida do espírito. Dialética da pureza e da impureza do fogo. Na busca do contato entre a metáfora com sua realidade, ou da raiz objetiva da imagem poética e moral.
Indo da matéria ao espírito moral, buscando certa desodorização, virtude substancial, até a idealização do fogo na luz. Física ou química do devaneio, crítica literária objetiva, metáfora mais que idealização. Dialética como estrondo que despertam ressonâncias adormecidas. Psicanalizando imagens familiares, certo de que a imaginação é a força mesma da produção psíquica. O fogo onde todo animismo vira calorismo. Na consciência do arder e esfriar e ser sem sabê-lo. Na dialética triste do homem ativo. Complexos de dor, neuróticos e poéticos, reversíveis entre chamas e cinzas.
O Complexo arcaico profundo de Jung, onde se endereçam destruir as dolorosas ambigüidades por dialéticas alertas, dando ao devaneio sua verdadeira liberdade e sua função de psiquismo criador.

A Totalidade: Forma, Dinâmica e Matéria
Ou, A Água e Os Sonhos.

Bachelard nos convida a compreender as categorias contrastantes das forças imaginantes da nossa mente - o impulso da novidade e o impulso ao primitivo e eterno. Duas imaginações: a imaginação formal e a imaginação material. Nesse entrelace diz ele, está o estudo filosófico completo da criação poética. Apostando em uma iconoclastia, propõe-se assim à tarefa de tentar encontrar por trás das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam. As raízes das forças imaginantes. Em um projeto de pensamento dialético lança luzes nessa dialogia: uma meditação da matéria educando uma imaginação aberta ; a substância e a forma ; o estudo das relações da causalidade material com a causalidade formal. Em um mundo de estéticas, do poeta e do escultor aponta para o valor essencial da matéria.
Toda forma procura sua matéria. Assim, como em um jogo de filosofia com os elementos fundamentais, re-visitando a própria filosofia primitiva e restituindo aos pensamentos sua avenida de sonhos. Cria Bachelard um sistema de fidelidade poética, apondo os sentimentos primitivos e o onírico fundamental. Apresenta-nos então o elemento Água. Feminino e mais uniforme que o fogo, elemento constante que simboliza as forças humanas mais escondidas, simples, simplificantes. Lembrando desta sorte, um certo descaso inconsciente para com o elemento, lembra o filósofo, a água aparece como elemento transitório, como uma metamorfose ontológica e essencial entre o fogo e a terra, participando de uma espécie de destino de queda, de morte cotidiana,de sofrimento infinito. As imagens da água vividas como em uma adesão irracional.
Diz Bachelard que pretende sobretudo, realizar um ensaio de estética literária, já que seu caminho é o da determinação das imagens poéticas e das adequações das formas às matérias fundamentais. A água como linguagem fluida. Apela para a materialização nata do devaneio da criança, lembrando aliás que os sonhos infantis são os sonhos das substâncias propriamente orgânicas. E que o homem que conhecemos e amamos é o homem do que se pode escrever. Fazendo um percurso de constituição da arte, afere: A arte é natureza enxertada.
Inicialmente apresenta-nos a água como espelho - Narciso, apelando para a naturalização da nossa imagem. Uma lenda do humano, do cosmo e das flores (o pancalismo) revela-nos o mundo como representações e como vontade - vontade de contemplar. A água como olho do mundo, água que vê e sonha.
A partir deste ponto, e se apoiando em vasta leitura de psicologia e filosofia, percorrendo poesias, mitologia, literaturas e sobretudo de imagens, suas e de tantos, o autor nos destina a compreender o universo imaginário das águas. Do límpido, da pureza (a moral da água) e do frescor, desde o imediato, ao complexo e profundo, da calma e do silêncio e da imaginação dinâmica da violência (complexo de Xerxes). Ora uma Água elementar da metapoética de Edgar Poe, como um movimento singular e estranho da vida das águas mortas e do sangue. Complexos - de Caronte, de Ofélia. Outra hora uma água das misturas e das combinações, sobretudo da água com a terra, em um esquema fundamental da materialidade: as massas e as ligas.A combinação dos poderes, o homo faber e a mão geométrica do homo fabricante. Nascimentos, casamentos, maternidades, mortes. Um ser total: tem corpo, alma, voz, a água como realidade poética completa. Numa demanda, como alerta o autor, de uma faculdade que ultrapasse a realidade em busca da sobre-humanidade.
Propondo uma classificação correta dos valores sensuais e os sensíveis, onde os sensuais aparecem como correspondências e os sensíveis apenas como traduções, afirma Bachelard que as formas se complementam, mas a matéria nunca. A matéria é o esquema dos sonhos indefinidos.O dilema é a verticalização, a consciência, o saber. Indo além do complexo de cultura (complexo de Nausícaa) o desafio é a imaginação da matéria, pois a verdadeira poesia é uma função de despertar.

AR: Sonho, Movimento, Vontade e Potência
Ou, O Ar e os Sonhos.

Neste ensaio Bachelard convida ao estudo do Ar como condutor da forma e da matéria: a Imaginação do Movimento. Dá início a sua viagem, apontando para a necessária superação do estado de estigmatização dos símbolos, em um apelo para a valorização da imaginação e mesmo do ato de produção das próprias e adequadas imagens. Para constituirmos interpretações múltiplas: interpretações passionais, estetizantes, racionais e objetivas.
O primeiro objeto em estudo é o Sonho de Vôo. Lembra o autor que é necessário uma forma menos estática para uma psicologia da imaginação - neste caso que contenha também ao princípio dinâmico da deformação. Para o elemento aéreo propõe-se a uma condução menos “atômica” e mais vetorial. Para o sonho de voar, lembra, trabalhamos com a dialética entre leveza e peso. Mais que isso, o sonho de voar não implicaria em fim a alcançar, mais de uma viagem em si, constituindo uma realização profunda da psique humana.Um lugar para ver como a razão trabalha o sonho, ou de como sonha a razão...
Um projeto filosófico proposto: ligar o sonho íntimo à experiência objetiva. O sonho libertando a imaginação formal, um repouso ótico e verbal. Constatação: no sonho do vôo a asa já é uma racionalização - criadora da imagem de Ícaro. O vôo onírico seria o sonho da vida instintiva - o instinto profundo da leveza, e do devaneio que une o desejo de crescer ao desejo de voar.
Entre metáforas de ascensão e de queda, diz então Bachelard, prevalece em um realismo psicológico inegável, o maior número de imagens de queda. Daí a necessidade de uma psicologia da verticalidade. Para analisar ao mesmo tempo, o impulso para o alto e a queda para o baixo. O alto prima sobre o baixo, o irreal comanda o realismo. A queda portanto em paradoxo pertence à ordem da substância e não do acidente. A imaginação da queda como uma espécie de doença da imaginação da subida (como o inferno que se reergue...).
O poder da imaginação impõe visões, a imagem antes do pensamento e da narrativa, antes da emoção. Só a imaginação material e a dinâmica podem criar verdadeiros poemas. Compreender assim o tema da queda para o alto. Luz e peso comandando a vida psíquica, a imaginação unindo pólos.

Bachelard
comenta o trabalho propedêutico de Robert Desoille. Procura assim a dinâmica da imaginação e da vontade: sabe querer quem sabe imaginar. É desse patamar que insere a filosofia de Nietzsche para o psiquismo ascensional. Dos valores morais, o poeta vertical, o poeta das alturas. Desta forma, apresenta-nos o filósofo alemão pelas negativas do seu envolvimento com os elementos: da terra por que esta não possui os devaneios da intimidade, e pela sua opção de filosofar, não pela porta da matéria, mas da ação, e mais ainda pela imaginação dinâmica que material; da água por que esta não determina devaneios materiais; e nem mesmo então do fogo, já que tal elemento nele aparece apenas como fator de transmutação, mais com características dinâmicas, que riqueza substancial. Para Nietzsche, o ar seria a substancia mesma da nossa liberdade. A alegria aérea é liberdade. O Ar como dinâmica ofensiva e triunfante: o frio, o vazio, o silêncio, a altura...
A filosofia e a poesia de Nietzsche como um estudo da aurora ativa, do despertar tonificado, da vida vertical apreendida por uma longa aprendizagem.Assim, com o filósofo alemão, Bachelard diz ser possível separar em dois tipos a imaginação da vontade: a vontade-substância (shopenhaueriana) e a vontade-potência nietzschiana. A imaginação dinâmica dando imagens adequadas do querer, em um trabalho de mundo ascensional. A imaginação de forma mais que a razão, como unidade da alma humana do ser e da moral solidários. Para um despertar universal - O Zaratustra.

A Introversão da Matéria
Ou, A Terra e os Devaneios do Repouso


Todo conhecimento da intimidade das coisas, diz Bachelard, é imediatamente um poema. Como a contradição é fundante, depois de ter analisado no elemento terra os devaneios da vontade, com suas solicitações dinâmicas, onde a imaginação ativista que pela vontade sonha e dá futuro à sua ação, o filosofo pensa o repouso Após apontar para o homo faber ajustador, modelador, fundidor, ferreiro, que procura a matéria que sustenta a duração da forma e que portanto se manifesta na conjunção do signo contra, nesta obra o filósofo propões analisar a preposição dentro. A terra como o interior, a terra como o conteúdo básico, a terra subjetiva.
Dialeticamente, Bachelard, busca uma síntese ambivalente que unifique o contra e o dentro. Processos de extroversão e introversão. O método, lembra o autor, é o da imaginação como o percurso do sujeito transportando às coisas. Assim toda matéria meditada torna-se imediatamente a imagem de uma intimidade, de uma substância transformada em valor. Como uma afetividade enraizada no inconsciente e substanciada de interesses. Temos uma obra sobre as imagens do repouso, do refúgio, do enraizamento: Onde estão os lugares fundantes da casa, do ventre a caverna, os endereços correspondentes das potências noturnas e subterrâneas.
Na busca pelo oculto, lembra o filósofo, aparecem os diversos tipos de perspectivas de ocultamentos: a projeção anulada, ou do objetivo do não-receber, a perspectiva dialética ou invertida em projeções do pequeno, a perspectiva maravilhada e aquela da intensidade substancial infinita.
Diz Bachelard que as imagens como forças psíquicas primárias são mais fortes que as idéias, mais fortes que as experiências reais. As perspectivas dialéticas do interno e do externo seriam por vezes como aquelas de por e tirar uma máscara. A perspectiva do maravilhoso é o descobrir o interior esculpido, a prodigalidade da intimidade do interior revelando as faces exteriores da natureza e da cultura. As perspectivas de intensidade infinitas nas imagens, apontam para a diferença entre cor e tintura, sendo a cor uma sedução das superfícies, a tintura uma verdade das profundezas.
Mas há também a intimidade em conflito. A agitação como multiplicidade no combate das substâncias e as imagens da discórdia íntima. Nessa direção, atingimos a imaginação da qualidade: Ritmanálise e tonalização. Os degraus do movimento. Lembra assim o filósofo que a maior luta não é travada contra forças reais, é travada contra as forças imaginadas. O homem como um drama de símbolos.
Interior e repouso são pensados no “Complexo de Jonas”. Propondo recolocar as imagens na dupla perspectiva dos sonhos e dos pensamentos. Realidade e sonho na busca de saber o que cada um tem no ventre. Jonas como lugar para pensar a profundidade da imagem, ativando imagens superpostas e apontando para o alimento, o ventre, a morte.
Aproximando as palavras e as coisas, Bachelard apela para a profundidade, já que diz ele, os seres escondidos e fugidios esquecem da fuga quando o poeta os chama pelo verdadeiro nome. A obra deste filósofo é o de reviver as formas sonhadoras no interior das coisas, abrindo o “último broto do porvir” (Eluard.)

A Carne dos Símbolos.
Ou, A Terra e os Devaneios da Vontade.

Diz Bachelard que a imaginação concreta da matéria terrestre possui dificuldades e paradoxos sem fim. Lembrando as palavras de Baudelaire, aparece aí mais um paradoxo: “quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mas sutil e laborioso é o trabalho da imaginação”. O dilema é o bem ver, mais ainda, o bem sonhar. A pista é o de localizar o caráter primitivo da psique fundamental, a imaginação criadora, e o ir além da imaginação reprodutora. O encontrar da imagem imaginada.
Novamente aqui Bachelard aponta para o caminho da imaginação literária. Lugar de reanimação de uma linguagem, lugar de criação de novas imagens. Tempo das imagens, no século das imagens, o filósofo lembra a dependência crescente a que estamos submetidos à ação de todas as imagens. A terra como devaneio da vontade é a eleição da extroversão, do ativo, do convite a agir sobre a matéria. É hora de dicotomizar o trabalho contra o repouso. A dialética do duro e do mole, e o papel fundamental da resistência. Mas, lembra o autor, o sim e o não se dizem mole e duro. Sobretudo a consciência do trabalho, da matéria modificada pela mão: matérias duras, imagens da massa e as matérias da moleza. Os minerais, as substâncias cristalinas, as imagens da pérola. A temporalidade do contra recebendo as inscrições da consciência deste trabalho. Uma síntese possível: a matéria forjada. O devaneio da vontade de poder: o complexo de Medusa.
A vontade incisiva leva a compressão do caráter agressivo das ferramentas. Complemento da destruição, coeficiente de agressão contra a matéria. A cultura material e a arqueologia dão parâmetros classificatórios para os sólidos: os sólidos estáveis, os semiplásticos, os plásticos e os sólidos maleáveis (Leroi-Gourhan). Reinos da forma administrada. Aparece assim a metáfora da dureza, reino de poucas experiências efetivas e no entanto, fonte de um número incalculável de mil imagens.
No jogo dinâmico entre o céu e a terra, sugere Bachelard, precisamos desenvolver uma psicologia da gravidade - dessa queda contínua, das imagens do esmagamento, o complexo de Atlas, fomentando o apego às forças espetaculares, forças enormes, forças inofensivas, forças que não podem se não ajudar o próximo. Imagens da gravidade e imagens da altura até o imaginário da resistência. Uma seqüência e um círculo infinito e fundamental: as imagens místicas infernais, as imagens mitológicas infernais, as imagens do inconsciente pessoal, as imagens mitológicas superiores, as imagens místicas celestes.

A Alma: Indo além da Metáfora, A Imaginação da Matéria.
Ou, A Poética do Espaço

Nesta obra, Bachelard enfrenta o desafio infinito de compreender a própria imaginação poética. Para isso propõe pontilhar o tecido do êxtase:a novidade da imagem. A imagem no tempo presente da própria imagem, em sua própria ontologia. Para tanto, lança mão de um método: se distanciar da causalidade para procurar a repercussão. Uma fenomenologia da Imaginação. A imagem vista como produto direto do coração, da alma, da atualidade do homem.
Fenomenologia. Conhecimento que parte de uma consciência individual, encarna o sentido da trans-subjetividade e alcança o efeito variacional. Como meta, propõe o filósofo, é mister acumular documentos sobre a consciência sonhadora.
Instituindo matizes seminais da compreensão, o filósofo afere para a diferença entre os sentidos contidos em palavras como alma e espírito, procurando editar um sentido mais pleno para a palavra alma, alçada assim enquanto identidade total, como Logus. A alma como o lugar da sublimação pura. Estudar o espaço torna-se então sobretudo uma topofilia.
Assim, Bachelard nos remete a investigar as imagens da casa, das partes da casa como compreensões de mundos e de sentidos, e da casa em si como universo. E vai entrando nos interiores das gavetas, cofres, armários. Entre portas e chaves. O ninho para os vertebrados e a concha para os invertebrados. Os cantos, a miniatura, a imensidão íntima e a dialética entre interior e exterior, até chegar até uma proposta ontológica - a fenomenologia do redondo.
Sobretudo, o autor nos conduz a superar o imediato da metáfora. Em um diálogo e em contradição com a filosofia de Bérgson, procura ir além, propondo o conduto da imagem como obra da imaginação absoluta. Para Bachelard é necessário extrair todo o ser da imaginação. Alimenta assim um conceito de metáfora como construção de corpos concretos, da dificuldade de expressão, daí a metáfora estar assim colocada em relação a um ser diferente dela.
Ao contrario da metáfora, propõe Bachelard, a uma imagem podemos dar o nosso ser de leitor, sendo portanto ela mesma doadora de ser. A imagem como obra pura da imaginação absoluta torna-se um fenômeno do ser, nesse caso específico do ser falante. Imaginação, matéria e poesis, a relação da alma do mundo.

Anima
O Devaneio como Caminho da Consciência.
Ou, A Poética do Devaneio.

O Método fenomenológico, segundo Bachelard tem a capacidade de iluminar a consciência do sujeito maravilhado pelas imagens poéticas. Mas imagens poéticas se fundamentam sobremaneira em devaneios, em origens absolutas. O próprio ser assim percebido sendo um porvir da linguagem.
O devaneio, como fenômeno comum é concebido apenas como distensão psíquica. Como elemento da consciência no entanto é reforço da coerência. Elege-se assim o devaneio poético, transmissível, escrito com a emoção, com gosto.
O autor nos convidar a debater as complexas e móveis relações entre uma psicologia do devaneio, onde se observa o sonhador, e uma fenomenologia das imagens criadas da linguagem poética: a Fenomenologia do Imaginário. A proposta se transpõe através do devaneio, numa confiança no universo, onde “o homem pode tornar-se tudo” e onde se mesclam vidas diurnas e noturnas.
O devaneio acentuando o nosso repouso, contribui com a felicidade, porquanto esta construída na relação do amor sobretudo das quimeras. Para o filósofo, tal caminho está circunscrito na própria coerência do sonho, na loucura das palavras, no sonho das palavras. Distingue-se assim o devaneio do sonho noturno. Enquanto este tradicionalmente mais masculino, aquele assim tomado como característico da essência feminina-ãnima.
Correlacionando as distinções entre memória e imaginação, diz Bachelard que a memória sonha e o devaneio lembra. O poético cria um complexo de memória e imaginação densa. É esse o lugar da criança que sempre somos. O devaneio voltado para essa criança institui o tempo elegíaco.
Revendo Descartes, o autor procura questionar “o cogito do sonhador”, duvidando de seu enunciado clássico e contrapondo a ele o cogito do devaneio, o eu poetizador.
O devaneio assim ajuda-nos a habitar o mundo, a habitar a felicidade do mundo. Imagens cósmicas são filosoficamente obtidas como pensamentos. Para o imaginário, são distensões de devaneio, comunhões de devaneios, cosmo-análise. Devaneio sem responsabilidade, sem carência de provas. Afinal, lembra o filósofo francês, imaginar um cosmos é o destino natural do devaneio.
Enfim, diz Bachelard, toda nossa vida é leitura e estão nos livros os nossos documentos. Apelando para a fome nossa de cada dia, demandando o paraíso da imensa biblioteca. E a poesia - ápice da alegria estética, nos ajuda a respirar livremente, mostrando a factícia de toda angústia.
Pensando assim, Bachelard lança luzes no reconhecimento do mundo, o dia iluminando a noite e a noite dando sentido ao dia. Como se o perceber das diferenças nos conduzisse para constituir unidades e como se cada realidade se mostrasse complexa em suas contradições. Sobretudo, na alusão de uma dimensão onde imagens e sentidos dialogam. Uma nova alquimia, uma nova dialética, uma poesis. Ler Bachelard parece nos por em contato com nosso próprio ser e nesse ínterim e íntimo, nos sussurra a vontade de consciência: a olhar nosso próprio olhar, ou melhor ainda para o poder conscientemente construir esse olhar.


NOTAS
1) Doutor em História pela USP e integrante do Centro de Estudos do Imaginário. . Volta

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