Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Desconexão… Olafur Eliasson

“MUITAS PESSOAS VÊEM O ESPAÇO URBANO COMO UMA IMAGEM EXTERNA COM A QUAL ELES NÃO TEM MENOR CONEXÃO, NEM MESMO FÍSICA.” (Olafur Eliasson)


O artista dinamarquês Olafur Eliasson colocou cachoeiras no centro de Nova York e tingiu de verde um rio de Estocolmo. Seu objetivo: fazer com que o cenário urbano volte a ser percebido pelos moradores dos grandes centros (texto retirado da revista Bravo: Ensaio sobre cegueira)


INHOTIM – Minas Gerais: Olafur Eliasson, By Means of a Sudden Intuitive Realization, 1996, Iglu de fibra de vidro, água, iluminação estroboscópica, bomba d’água e plástico, 300 x 510 cm, foto Eduardo Eckenfels

Copenhague, Dinamarca, 1967; vive em Berlim

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ARÍETE

by dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa:

Datação
c1539 JCasD 135

Acepções
■ substantivo masculino
1 Rubrica: armamento. Diacronismo: antigo.
máquina de guerra com que se derrubavam as muralhas ou as portas das cidades sitiadas
2 Rubrica: termo de marinha.
saliência reforçada da roda de proa de um navio, us. para avariar o casco da embarcação inimiga nas obras vivas; esporão [Muito comum na Antigüidade e na segunda metade do sXIX, nas táticas de abalroamento.]

Locuções
a. hidráulico
Rubrica: engenharia mecânica.
máquina de elevar a água e que tem por princípio construtivo a força viva da própria água; carneiro

Etimologia
lat. arìes,ètis 'carneiro' pelo nom., p.ext., pelo ac., 'máquina de guerra para derrubar muros, tronco de madeira, escora'

Integração ;) by Merleau-Ponty

“Eu percebo de uma maneira indivisa com meu ser total, eu apreendo uma estrutura única da coisas, uma maneira única de existir que fale ao mesmo tempo a todos os meus sentidos.” (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.101)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Notas sobre o Naturalismo

Do ponto de vista epistemologia naturalizada, o naturalismo pode ser reduzido às seguinstes posições:

  • A exigência de um método para o conhecimento científico, o qual deve restringir-se aos fenômenos naturais;
  • O realismo da entidades naturais e rejeição do dualismo;
  • O carátera priori dos princípios epistemológicos e metodológicos; a aceitação da teoria causal do conhecimento;
  • A aceitação do psicologismo da consciência e a idéia da consciência como processo natural, admitindo-se a continuidade natural entre o homem e outra espécies animais;
  • A idéia do falibilismo do conhecimento, em teoria do conhecimento;
  • O reducionismo epistemológico ou ontológico.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 38)

Sujeito-corpo do Merleau-Ponty

(Pode ser chamdo também de Consciência Perceptiva)

SUJEITO-CORPO: “O corpo agindo como sujeito de percepção e como corpo cognoscente. O corpo próprio, tal como eu existo e o reconheço como meu corpo, o corpo que eu vivo, que eu sou e que eu tenho, o qual se conduz como sujeito agente dos meus desejos, intenções e movimentos. Dessa maneira, minha consciência invade todo o meu corpo, com ele se mistura e confunde. Este corpo-sujeito não é apenas depositário ou instrumento de uma vida psíquica; ele é o meio de expressar esses sentimentos e ter acesso a eles; em suma, ele tem poder de significação ou de expressão que lhe é próprio, o que lhe confere uma interioridade e um significado. Esse poder de significar recobre sua atividade, em particular, a linguagem, a gestualidade, o desejo, a motricidade e a sexualidade. Esse modo de existir singular, ambíguo e enigmático do corpo próprio é irredutível à coisa extensa e exterior, e é anterior à atividade reflexiva e representativa. “

(Sombra, José de Carvalho, A Subjetividade Corpórea: a naturalização da subjetividade na filosofia de Merleau-Ponty, 2006, p.25).

“eu vejo, percebo e dele faço parte. Um ser de latência e de divisão, pré-reflexivo e selvagem, anterior a todas as separações e representações do pensamento filosófico e cientírico, com o qual o corpo relfexivo forma um entrelaçamento (entrelaço e quiasma) com o mundo.

(Sombra, José de Carvalho, A Subjetividade Corpórea: a naturalização da subjetividade na filosofia de Merleau-Ponty, 2006, p.27).

NOTA DO YIUKI: O corpo-sujeito do Merleau-Ponty vai de contra a que ele denomina de:

  • Humanismo: “O subjetivismo filosófico (ou idealismo) que permite ao sujeito apropriar-se da realidade exterior, convertendo as coisas e o mundo em representações ou idéias” José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 45)
  • Positivismo :objetivismo científico que confere ao objeto a capacidade de exercer sobre o sujeito sua ação causal, cujo resultado é a presença do exterior na consciência, por meio das sensações.” José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)

 

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 27)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cosmovisão que se altera mediante a fenomenologia de Merleau-Ponty

Achei interessante a mudança da crença religiosa que se surge indiretamente com a fenomenologia do Merleau-Ponty lendo o trecho abaixo do livro do José de Carvalho Sombra (A Subjetividade Corpórea, página 21):

“… ao aproximar o humano e o animal no comportamento, o mental e o vital na percepção, o vital e o simbólico na expressão, Merleau-Ponty instaura uma supreendente aproximação e parentesco entre humano e o biológico, entre o natural e o mental. Em lugar de uma natureza, que nos seria estranha e exterior, Merleau-Ponty inseri a consciência na vida e no mundo, reformulando radicalmente nossa idéia de natureza e de consciência.”

Sobre a Verdade

Retirado do site: http://www.filosofante.com.br/?p=925

BALLESTER, M. Verdade. In: VILLA, M. M. (org.). Dicionário de pensamento contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2000, p. 764-768.

SOBRE A VERDADE

O texto a seguir é a resenha do verbete “verdade”, segundo o Dicionário de pensamento contemporâneo, por M. Ballester. Segundo o referido dicionário, já os gregos falaram sobre a verdade, identificando-a com a alethéia, palavra que significa ‘desvelamento’ aplicado à realidade, que teve início com a busca da arché, o princípio de todas as coisas.
Na filosofia grega, um dos primeiros a sistematizar a questão da verdade é Parmênides: nos fragmentos de seu Poema, o filósofo fala da verdade como algo eterno, imutável, e diferencia-se da opinião, que é fugaz e propensa à falsidade. A realidade se nos mostra como um composto de realidade da experiência e realidade intelectual, sendo a razão o único caminho capaz de levar o homem à verdade das coisas, enquanto que os sentidos enganam, segundo Parmênides.
Platão, embora de certa forma concorde com Parmênides, coloca a verdade no mundo das ideias. As coisas do mundo sensível, embora tenham participação nas ideias, não correspondem à verdade absoluta. Para se alcançar a verdade, o filósofo deve usar a razão. No Crátilo, Platão deixa claro que a verdade se dá em duas instâncias: no ser em si da realidade, e no ser representado pelo discurso.
Aristóteles entende a verdade como obra do intelecto, havendo a verdade lógica, uma semântica e uma pragmática. É na relação dos juízos que se encontra a verdade, segundo o Órganon de Aristóteles. Na sua Metafísica se encontra a dimensão semântica da verdade: a verdade aí é tida como adequação do pensamento ao objeto de conhecimento. A verdade pragmática está no uso concreto e correto do juízo.
Na Idade Média, a busca da verdade continua, tendo como característica o papel representado por Deus no pensamento dos filósofos. Para Agostinho, a filosofia é a busca da verdade, sendo que essa é Deus. Seguindo uma linha de raciocínio platônico, Agostinho coloca que verdades parciais podem ser conhecidas pelo homem, mas é somente Deus a grande verdade. O objetivo máximo da busca da verdade é encontrar a felicidade.
Seguindo a linha aristotélica, Tomás de Aquino diz que a verdade está no intelecto divino em primeiro lugar, de modo secundário no intelecto humano, e por fim nas coisas, de modo impróprio e secundário.
Os filósofos modernos se preocuparam propriamente com o aspecto gnosiológico do que com o metafísico da verdade. Expoente primeiro dessa filosofia é Descartes com o cogito, cuja base é a dúvida metódica, movimento de desconstrução que possibilita a reconstrução de um novo conhecimento com base na razão. É a partir da verdade do cogito que se podem alcançar novas verdades por meio de ideias tão claras e distintas quanto ele. Para se conhecer a realidade dos entes exteriores ao sujeito, é necessário que haja o grande cogito, por Descartes identificado como Deus. Para Kant, a matéria do conhecimento não pode ter critérios de verdade, uma vez que esses seriam contraditórios à própria verdade. Quanto à forma, Kant entende que a concordância das leis universais é condição básica para a verdade do conhecimento. Para Hegel, a busca da filosofia é a busca da verdade: para o filósofo, a realidade é um desdobramento do absoluto, de modo que ela se estende no todo do sistema.
Na filosofia contemporânea também temos várias correntes que discutem a respeito da verdade dentro da Teoria do Conhecimento. Uma delas é o Círculo de Viena, com seu princípio de verificação, que consiste na necessidade da comprovação da veracidade de um dado princípio como condição para que este seja válido. Este princípio foi muito criticado por ser paradoxal, uma vez que invalida a si mesmo.
Outra posição a respeito do conhecimento é a de Popper, o falseacionismo: a verdade de uma proposição científica não pode ser considerada definitivamente verdadeira, mas apenas como teoria que ainda não foi refutada. Husserl aposta na capacidade humana de conhecer a verdade por meio da razão. Para ele, a verdade está na concordância entre o intelecto e o objeto. Essa posição foi contestada por Heidegger, para quem a verdade não é a adequação do intelecto à coisa, mas na coisa em si (retorno à alethéia grega). Assim, a verdade se revela e pode ser encontrada tanto no ser do objeto como no revelado do objeto. Segundo o filósofo, essa abertura ao ser se dá na linguagem.
A verdade teórica é a adequação do conceito à coisa, a oposição ao erro que leva ao conhecimento da realidade. Existe então uma universalidade da verdade. A verdade prática também é algo adaptado a um contexto específico, uma vez que depende da decisão do grupo (leis). A verdade opõe-se ao erro e não à opinião. O saber teórico deve se fundamentar na razão, e não na opção intelectual, uma vez que esta última não pode ser a base para nenhum conhecimento que leve à verdade. A falta de sentido resultante da carência da verdade que vivemos na pós-modernidade é o resultado de se tomar a opção como fundamento do saber e não a razão. A verdade prática engloba os aspectos técnico e ético: o saber-fazer e o saber-fazer-bem, o saber-conhecer e o saber-agir.

Benedito Fernando Pereira
Quarto Período de Filosofia

Este artigo foi escrito por Benedito em 8 de novembro de 2010 às 10:10, e está arquivado em Artigo. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site.

VERTICALIDADE DO SER do Merleau-Ponty, por José de Carvalho Sombra

À semelhança do Heidegger, Merleau-Ponty rejeita a ontologia objetiva do Ser como um imenso ente, um Ens realissimum, uma segunda propriedade dos entes ou um avesso das coisas, ou ainda como uma outra realidade por trás deste mundo, onde o ser se esconderia. A idéia central da ontologia heigeggeriana, retomada por Merleau-Ponty, é a recusa em identificar o ser como o objeto. Ao contrário, o Ser é a dimensão universal que implica a visibilidade, isto é, a possibilidade de uma visão do mundo por dentro, a partir dos entes. Esta visão, que Merleau-Ponty chama de verticalidade do Ser, só é acessível mediante uma intra-ontologia: “o mundo perceptivo está no fundo do Ser no sentido heideggeriano” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 223). Essa latência e negatividade do ser implica, para Merleau-Ponty, “uma certa relação entre o visível e o invisível” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 281), em que o invisível é uma outra dimensão que se apresenta negativamente no visível. Em virtude dessa ocultação ou latência do Ser e da inadequação entre o ser e os entes, a busca e a expressão do Ser só podem ser indiretas: “meu método ‘indireto’ (o Ser nos entes) é o único adequado ao ser” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 198).

Diante dessa latência, que expressa o caráter abissal, universal e inatingível do ser, a ontologia de Mereleau-Ponty busca uma noção de ser, que supere a oposição entre essência e existência, entre o Ser e os entes, que devem ser tomados como inseperáveis e correlatos, viso que o Ser propriamente dito não é posição de sujeito nem de objeto mas é o “invisível deste mundo” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 198)

Segundo essa nova concepção do ser, nem objetiva nem idealista, o Ser é “meio (Umwelt, milieu), dimensão e elemento” das coisas, os quais se desdobra e se realiza nos entes como aparecer ou fenômeno,  como visibilidade e invisibilidade, o que implica uma correlação entre o Ser e o sensível ou visível; entre o Ser e o homem e, por conseguinte, entre ser, pensamento, linguagem e significado.

Dessa maneira, a influência de Heidegger, mais do que recusa da experiência direta do Ser e de um retorno à metafísica clássica, leva Merleau-Ponty a repensar a experiência do Ser a partir do sensível, mediante o retorno ao mundo da vida; experiencia do Ser, enquanto entrelaçamento entre ser a palavra (Notes de cours: Collège de France – 1958-1959 et 1960-1961 – Página 123), a qual permite pensar o “sensível como este meio onde pode existir o ser sem que tenha que ser oposto” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 267)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16-17)

“para Merleau-Ponty, o mundo anterior a qualquer conhecimento, o mundo da percepção e dá fé perceptiva. Ele é chamado de Ser bruto, Ser selvagem ou Ser vertical porque não é trabalhado pelas categorias da relfexão (objetividade) nem é, ainda, “reduzido às nossas idealizações e à nossa sintaxe” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 139); e porque é mistura do mundo e de nós (Le Visible et l´ Invisible, pág. 138); ele se apresenta como a solução do problema das relações da consciência com o mundo, visto que nossa relação com o Ser, nossa promiscuidade e parentesco com o Ser faz-se por dentro, no interior do Ser bruto, isto é, na carne do corpo e do mundo.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 27)

PARADOXO DA REFLEXÃO:

[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Mundo vivido/mundo da vida: Husserl e Merleau-Ponty

‘“Merleau-Ponty rejeita o naturalismo e o realismo presentes no pensamento objetivo e causal e retorna ao que o Husserl chamou de mundo vivido  ou mundo da vida: o mundo percebido por um ser vivo do ponto de vista geral da vida, antes de qualquer tematização, objetivação e representação.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 15.)

“A primazia da percepção, enquanto experiência vivida, permite redescobrir a figura do mundo percebido, não como realidade exterior ou objeto, mas como seu mundo ou meio (Umwelt) e seu horizonte de vida.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16)

[…] a divisão convencional do mundo em sujeito e objeto, em mundo interior e em mundo exterior, em corpo e em alma não mais pode aplicar-se e suscita dificuldades. Para as ciências da natureza em si, mas da natureza sujeita à interrogação humana e, dessa forma, novamente o homem não reencontra aqui senão ele mesmo.

(Heisenberg - Ibid.p.29.)

O método científico, que escolhe, explica e ordena, admite os limites que lhe são impostos pelo fato de que o emprego do método tranforma seu objeto e, conseqüentemente, o método não mais pode separar-se do objeto. Isso significa que a imagem do universo, segundo as ciências da natureza, deixa de ser, propriamente falando, a imagem segundo as ciências da natureza.

(Ibid.p.34.)

O objetivismo científico […] vai reduzindo a consciência a uma realidade cada vez mais fugaz, até que se converta num mero epifenômeno de acontecimentos físico-fisiológicos observáveis e objetivos. O pensamento de sobrevôo na filosofia converte o mundo em representação do mundo. O pensamento de sobreôo na ciência converte a consciência num resultado aparente de “fenômenos na terceira pessoa, isto é, de acontecimentos que pertencem à esfera dos objetos naturais – M.Chaui”.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)

A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las […] e apenas, de longe em longe, ela defronta-se com o mundo atual. Ela é, ela sempre foi este pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse pressuposto de tratar todo ser “como objeto em geral”, ísto é, como se, ao mesmo tempo, ele anda fosse para nós e, entretanto, estivesse predestinado aos nossos artifícios. (Merleau-Ponty, L’Oeil et l’ Esprit, pag 9)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 47)

O maior problema filosófico acerca do pensamento objetivo inerente às filosofias da reflexão ou do Cogito reside no fato de que a reflexão é atividade derivada; de que ela não é atividade originária e fundante, pois é precedida e se alimenta da percepção; e de que a ontologia objetivista do mundo e da realidade em si, que ela pressupõe, é insustentável na medida em que converte a experiência do mundo em representação, e o conhecimento, em coinscidência ou adequação. Por conseguinte, só nos resta abandonar a alternativa da filosofia reflexiva e buscar a solução numa filosofia da percepção que assuma a percepção como atividade de um corpo que é condição do aparecer do mundo percebido, o único mundo possível e real. Para nós, trata-se de buscar uma filosofica da pecepção e sinal visível de nossa encarnação e inscrição no mundo; enfim, uma filosofia que reencontre na experiência do mundo a fonte e o solo onde se delineia o significado, e que tenha, nessa comunicação com o mundo, o primeiro fundamento da racionalidade.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 50)

A percepção não é uma ciência iniciante e um primeiro exercício da inteligência; precisamos reencontrar um comércio com o mundo e uma presença no mundo mais velho do que a inteligência. (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.106)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 52)

O pensamento objetivo tem o poder de obnubilar “todos os fenômenos, que atestam a união do sujeito e do mundo, e substituí-los pela idéia clara do objeto como em si e do sujeito como pura consciência. (Merleau-Ponty, Phénoménologie de la percepcíon p.370)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Ontologia cartesiana substancialista […] nossa ciência e filosofia fundam-se numa ontologia realista de um mundo em si e da representação objetiva desse mundo em sua identidade substantiva e positiva.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 54)

CRÍTICA À PSICOLOGIA CARTESIANA:

Como meio de garantir clareza e objetividade, à semelhança das ciências naturais, a psicologia introduz no comportamento a exterioridade e a objetividade do “pensamento de sobrevôo” e do “observador estrangeiro”, excluindo a introspecção como método e via de acesso ao psicquismo, aos fatos mentais e ao comportamento. Com efeito, para o psicólogo behaviorista e para o físico a preocupação da objetividade exorciza os riscos da visão “de dentro” do psiquismo, fornecida pela introspecção contaminada, acreditam eles, pelo componente subjetivo ou pelo aporte corporal (Merleau-Pontu, Le Visible et l’Invisible, p.22) e que faz do psiquismo uma aparência ou projeção psicológica. Avaliando os supostos riscos da introspecção como método de conhecimento do psiquismo em psicologia, Merleau-Ponty pergunta-se se a visão do interior, pela intropecção, é realmente possível e se ela poderia ser substituída por um ponto de vista exterior que transporta o interior para fora. Ao contrário, sustenta ele:

Há – e isto é uma coisa totalmente diferente e que conserva seu valor – uma vida ao pé de si, uma abertura para si, porém, que não desemboca em outro mundo diferente do mundo comum – e que não é, necessariamente, fechamento aos outros. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.36)

[…] À semelhança do físico, “o psicológico, por sua vez, intala-se na posição do espectador […] subentendendo um sujeito absoluto diante do qual se desdobra o psiquismo em geral, o meu, ou o do outrem” (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37). Como no físico, o psicológico constroi um “sistema de referências” segundo o qual o psiquismo, do qual fala o psicólogo, é seu psiquismo também. Esse presumido ponto de vista do espectador estrageiro ou imparcial é posto em questão quando fica patenteado para a ciência que “clivagem entre ‘subjetivo’ e o ‘objetivo’ “ (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37)., pela qual a física e a psicologia definem seus domínios próprios, são duas ordens de “realidades” com suas propriedades intrínsecas em si, supostamente construídas e conhecidas por um pensamento puro e exterior ao mundo. Todavia não é o que acontece:

[…] o ser-objeto não pode ser mais o próprio-ser: “objetivo” e “subjetivo” são reconhecidos como duas ordens construídas apressadamente no interior de uma experiência total, cujo contexto seria preciso restaurar com total clareza. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.38).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 49 e 50)

PARADOXO DA REFLEXÃO:

[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Epoché – Husserl

Retirado do site: http://www.filosofante.com.br/?p=784

Para falar de Husserl necessitamos de definir o conceito de “Epoché”, porque sem isso a maioria não o compreenderia. “Epoché” deriva do grego antigo e significa “paragem”, “interrupção” ou “suspensão de juízo”.

Segundo Husserl, “Epoché” significa a suspensão do mundo, como que parado no tempo, embora com todas as suas características presentes e, por isso, passíveis de serem analisadas “de fora”, por um observador exterior. O “Epoché” de Husserl que suspende o mundo no tempo e no espaço, permite a quem medita conhecer-se a si próprio e tomar consciência da sua própria essência, e a autoconsciência adquirida desta forma é o “eu puro” de Husserl (ou o “eu transcendental”).
Existe na essência do “Epoché” de Husserl uma ideia de desprendimento espiritual em relação às coisas mundanas, porque através do Epoché, “nos tornamos observadores desinteressados do mundo”. Existe algo de mediúnico (no sentido espiritualista) na filosofia de Husserl, quando ele dá a primazia à intuição da essência em detrimento dos fatos mundanos; trata-se de uma “ciência” teórica (contemplativa), intuitiva e não-objetiva.

Caracterizando a qualidade metodológica da Epoché, Husserl nomeou duas etapas principais de redução (“suspensão”), no caminho de uma filosofia fenomenológica:

a) Redução Psicológica: é a recusa, como filósofo, em aceitar a evidência empírica, de uma atitude natural, como sendo suficiente para a fundação de um verdadeiro conhecimento. Resumidamente: a primeira etapa da Epoché estará realizada quando tudo que nos é exterior, mesmo as outras pessoas, estiver colocado “entre parênteses”.

b) Redução Fenomenológica ou Transcendental: para Husserl, a característica da “atitude natural” não se limita à forma pela qual nos relacionamos com o mundo exterior; também os atos da consciência e o “eu” podem ser tratados como o mundo externo. Husserl propõe então que coloquemos também “entre parênteses”, a própria consciência, o “eu” e os seus atos. É preciso refletir sobre o refletido. É preciso pensar o pensado (reflexão transcendental). Passamos, assim, do ego cogito cartesiano para o ego cogito cogitatum da fenomenologia husserliana (HUSSERL, E. [1972 (1913)] Ideas I- General Introduction to pure Phenomenology, New York: Collins Books, p. 155 a p. 165).

 


ANOTAÇÃO DO YIUKI: Outros termos do Epoché:

  • Observador estrangeiro (Merleau-Ponty)
  • Pensamento de sobrevôo (Merleau-Ponty)
  • Zoom Out
  • Ilusão de extraterritorialidade (Prigogine já adepto ao entendimento de que o ser humano é carnificado no mundo, usa já o termo ilusão para definir o Epoché)

NATURALIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE

“Vinculo e parentesco entre a mente e o corpo é realizado por um processo de “naturalização” da consciência e da subjetividade a partir do corpo, em que a vida biológica, psíquica e mental, sensível e inteligível encontram-se reunidas em uma unidade indivisível. É o que denominamos “naturalização” da subjetividade. Enraizar a consciência e a subjetividade no corpo e trazê-las para a esfera do “mundo da vida” e do “sensível” significa considerá-las como fenômeno e experiência “naturais”.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 14)

A despeito da concepção clássica da consciência ou da subjetividade entendidas como realidade mental ou espiritual, a idéia de “naturalização” introduz na subjetividade uma “historicidade” biológica e cultural. A “naturalização” mostra  támbém, ao contrário do que pretendem o realismo e o positivismo, que a objetividade epistemológica não é um atributo ou propriedade ontológica da coisa ou da realidade em si, mas é relativa e dependente da experiência perceptiva. A objetividade, portanto, não se funda na coisa ou objeto em si, mas no objeto enquanto percebido e fenômeno. Porém, a contribuição mais significativa consiste em mostrar, com Merleau-Ponty, que a corporalidade e o significado estão no âmago da subjetividade.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 21)

“… Merleau-Ponty naturaliza a consciência, isto é, introduz e insere a consciêcia no “mundo da vida”, por meio do comportamento de um organismo agindo como  uma “estrutura”, (unidade, totalidade, interioridade) com relãção ao meio exterior, o que lhe confere um significado ou forma ainda não refletida nem inteligível.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 24)
Nota do Yiuki: Merleau-Ponty criticava da ciência fisiológica e da pscicologia experimental que explicava o comportamento humano por modelo ontologico cartesiano de diplopia baseado na causa e efeito através de uma ação reflexiva mecânica e/ou de propriedade física-quimica do corpo humano.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Viagem mais curta e mais demorada do ser humano…

"A distância mais longa é entre a cabeça e o coração." (Thomas Merton)

Vocação - Hélio Leites

“Fazer o que a gente não gosta é o pior desemprego do mundo... é um desserviço para o espírito”. Hélio Leites, artesão paranaense.

Outra frase dele: Tristeza é falta de alegria, mas tristeza num certo sentido até que ela é boa. Ela faz você ver outas coisas que a alegria não deixa ver.

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