Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Natureza - Merleau-Ponty

“é a reflexão sobre o estatuto do ser natural ou do ser naturalmente que permite passar da fenomenologia para a ontologia. A reflexão crítica sobre o tema da natureza, no seu pensmento final, prepara essa passagem. Essa inserção ou encarnação da subjetividade em um corpo reflexivo faz dela um acontecimento do mundo em sua forma de aparecer como corpo e sentido inseparáveis e inerentes ao sensível. A emergência do corpo próprio e do corpo reflexivo no corpo biológico seria o mais alto grau de manifestação de um Ser que é intrinsecamente visibilidade e expressividade. Nesse sentido, afirma Merleau-Ponty: há natureza por todaa parte onde há uma vida que tem um sentido, mas em que, entretanto, não há pensamento (La Nature:Notes Cours du Collège de France. pag.19). A natureza é o fundo inumano que nos move e que nos determina de dentro para fora. É natureza viva tudo o que tem um sentido, mesmo sem ser posto como pensamento. ela é a autoprodução de um sentido (La Nature:Notes Cours du Collège de France. pag.19). Dessa forma, Merleau Ponty reafirma “a natureza como o outro lado do homem (como carne – de modo algum como ‘matéria’)”(Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.328).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 180)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ser bruto, ser selvagem ou ser vertical: Merleau-Ponty

Texto abaixo retirado do livro A Subjetividade Corpórea, página 164, do autor José de Carvalho Sombra.

A experiência do sensível, além de diferenciação do em-si e do para-si (Merelau-Ponty, Signes, p.212) é diferenciação do visível, em oposição ao invisível; é o fundo geral no qual é feito o recorte das “coisas” como tais (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Na experiência do sensível, a referência às “coisas” e um excedente da experiência, algo como “uma interpretação segunda da experiência” ((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.214). Esse excedente, na percepção que nos dá acesso às coisas em sua positividade, possibilita “nossa abertura para o ‘alguma coisa’”((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.216) indeterminado, que é o Ser. a experiência da visão é o olhar que realiza a concreção do visível em visibilidade, na qual o sensível deixa de ser um ser de latência para tornar-se visibilidade. A visão é mais do que projeção e visada, é poder de diferenciação entre visível e invisível.

A experiência do sensível é abertura e acesso ao ser bruto, anterior à experiência das coisas, onde se dá “nossa experiência do ser bruto, que é como o cordão umbilical de nosso saber e a fonte do sentido para nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Essa enigmática abertura para o ser é a apreensão indireta e confusa de todas as coisas no seu elemento comum: ‘o invisível de sua visão, o inconsciente da consciência […]’ "”o outro lado ou o avesso (ou a outra dimensionalidade) do ser sensível”, comenta Claude Lefort¹.

A aparição ou apresentação desse Ser, plenamente e simplesmente sensível ou visível, que a poesia e a pintura buscam alcançar na experiência da visão, é o que o Merleau-Ponty chama de ser bruto, ser selvagem ou ser vertical, porque não é trabalhando pelas categorias da reflexão nem sofreu qualquer idealização. È um ser de visibilidade, que permeia o mundo em volta de mim e dentro de mim. Ele está diante de mim e é preciso apenas ver: é visibilidade intrínseca, como modo específico do Ser, não exige nem um ato subjetivo nem precisa ser aplicada ou representada, pois é anterior a qualquer reflexão ou posição do sujeito. É um ser que não é objeto de pensamento, já que eu percebo por contato: sinto, percebo, vejo, e faço parte dele. Em virtude dessa universalidade do sensível, a visibilidade deixa de ser conseqûencia ou efeito de um ato subjetivo:

“Característica do percebido: já estar aí, não ser pelo ato de percepção, mas ser a razão desse ato, e não o inverso. (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.272).

O Ser bruto é a região do sensível, pré-reflexiba e selvagem, anterior às separações e representações do pensamento, da qual brotam as categorias reflexivas e que está na origem das relações corpo/mundo e mundo sensível/mundo inteligível. Ele é o substrato das coisas e de toda experiência; é o solo originário, de onde brotam toda experiência e toda relação entre consciência e mundo. O ser bruto é a nova forma de ser no mundo natural, que aparece como presença pré-reflexiva e pré-humana e que constitui o Ser no seu estado selvagem. A descrição do visível e do ato de ver obriga-nos a rever nossa ontologia e a buscar um significado novo no Ser: a visibilidade instrínseca do ser, que se faz aparição ou visibilidade, que exclui as categorias subjetivas da percepção e da reflexão, visto que se manifesta no corpo e nas coisas e é “mistura do mundo e nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.138). “é ‘empiètement’ [invasão] de tudo sobre tudo, ser de promiscuidade” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.287).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 164)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Integração ;) by Merleau-Ponty

“Eu percebo de uma maneira indivisa com meu ser total, eu apreendo uma estrutura única da coisas, uma maneira única de existir que fale ao mesmo tempo a todos os meus sentidos.” (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.101)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sujeito-corpo do Merleau-Ponty

(Pode ser chamdo também de Consciência Perceptiva)

SUJEITO-CORPO: “O corpo agindo como sujeito de percepção e como corpo cognoscente. O corpo próprio, tal como eu existo e o reconheço como meu corpo, o corpo que eu vivo, que eu sou e que eu tenho, o qual se conduz como sujeito agente dos meus desejos, intenções e movimentos. Dessa maneira, minha consciência invade todo o meu corpo, com ele se mistura e confunde. Este corpo-sujeito não é apenas depositário ou instrumento de uma vida psíquica; ele é o meio de expressar esses sentimentos e ter acesso a eles; em suma, ele tem poder de significação ou de expressão que lhe é próprio, o que lhe confere uma interioridade e um significado. Esse poder de significar recobre sua atividade, em particular, a linguagem, a gestualidade, o desejo, a motricidade e a sexualidade. Esse modo de existir singular, ambíguo e enigmático do corpo próprio é irredutível à coisa extensa e exterior, e é anterior à atividade reflexiva e representativa. “

(Sombra, José de Carvalho, A Subjetividade Corpórea: a naturalização da subjetividade na filosofia de Merleau-Ponty, 2006, p.25).

“eu vejo, percebo e dele faço parte. Um ser de latência e de divisão, pré-reflexivo e selvagem, anterior a todas as separações e representações do pensamento filosófico e cientírico, com o qual o corpo relfexivo forma um entrelaçamento (entrelaço e quiasma) com o mundo.

(Sombra, José de Carvalho, A Subjetividade Corpórea: a naturalização da subjetividade na filosofia de Merleau-Ponty, 2006, p.27).

NOTA DO YIUKI: O corpo-sujeito do Merleau-Ponty vai de contra a que ele denomina de:

  • Humanismo: “O subjetivismo filosófico (ou idealismo) que permite ao sujeito apropriar-se da realidade exterior, convertendo as coisas e o mundo em representações ou idéias” José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 45)
  • Positivismo :objetivismo científico que confere ao objeto a capacidade de exercer sobre o sujeito sua ação causal, cujo resultado é a presença do exterior na consciência, por meio das sensações.” José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)

 

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 27)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cosmovisão que se altera mediante a fenomenologia de Merleau-Ponty

Achei interessante a mudança da crença religiosa que se surge indiretamente com a fenomenologia do Merleau-Ponty lendo o trecho abaixo do livro do José de Carvalho Sombra (A Subjetividade Corpórea, página 21):

“… ao aproximar o humano e o animal no comportamento, o mental e o vital na percepção, o vital e o simbólico na expressão, Merleau-Ponty instaura uma supreendente aproximação e parentesco entre humano e o biológico, entre o natural e o mental. Em lugar de uma natureza, que nos seria estranha e exterior, Merleau-Ponty inseri a consciência na vida e no mundo, reformulando radicalmente nossa idéia de natureza e de consciência.”

VERTICALIDADE DO SER do Merleau-Ponty, por José de Carvalho Sombra

À semelhança do Heidegger, Merleau-Ponty rejeita a ontologia objetiva do Ser como um imenso ente, um Ens realissimum, uma segunda propriedade dos entes ou um avesso das coisas, ou ainda como uma outra realidade por trás deste mundo, onde o ser se esconderia. A idéia central da ontologia heigeggeriana, retomada por Merleau-Ponty, é a recusa em identificar o ser como o objeto. Ao contrário, o Ser é a dimensão universal que implica a visibilidade, isto é, a possibilidade de uma visão do mundo por dentro, a partir dos entes. Esta visão, que Merleau-Ponty chama de verticalidade do Ser, só é acessível mediante uma intra-ontologia: “o mundo perceptivo está no fundo do Ser no sentido heideggeriano” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 223). Essa latência e negatividade do ser implica, para Merleau-Ponty, “uma certa relação entre o visível e o invisível” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 281), em que o invisível é uma outra dimensão que se apresenta negativamente no visível. Em virtude dessa ocultação ou latência do Ser e da inadequação entre o ser e os entes, a busca e a expressão do Ser só podem ser indiretas: “meu método ‘indireto’ (o Ser nos entes) é o único adequado ao ser” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 198).

Diante dessa latência, que expressa o caráter abissal, universal e inatingível do ser, a ontologia de Mereleau-Ponty busca uma noção de ser, que supere a oposição entre essência e existência, entre o Ser e os entes, que devem ser tomados como inseperáveis e correlatos, viso que o Ser propriamente dito não é posição de sujeito nem de objeto mas é o “invisível deste mundo” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 198)

Segundo essa nova concepção do ser, nem objetiva nem idealista, o Ser é “meio (Umwelt, milieu), dimensão e elemento” das coisas, os quais se desdobra e se realiza nos entes como aparecer ou fenômeno,  como visibilidade e invisibilidade, o que implica uma correlação entre o Ser e o sensível ou visível; entre o Ser e o homem e, por conseguinte, entre ser, pensamento, linguagem e significado.

Dessa maneira, a influência de Heidegger, mais do que recusa da experiência direta do Ser e de um retorno à metafísica clássica, leva Merleau-Ponty a repensar a experiência do Ser a partir do sensível, mediante o retorno ao mundo da vida; experiencia do Ser, enquanto entrelaçamento entre ser a palavra (Notes de cours: Collège de France – 1958-1959 et 1960-1961 – Página 123), a qual permite pensar o “sensível como este meio onde pode existir o ser sem que tenha que ser oposto” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 267)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16-17)

“para Merleau-Ponty, o mundo anterior a qualquer conhecimento, o mundo da percepção e dá fé perceptiva. Ele é chamado de Ser bruto, Ser selvagem ou Ser vertical porque não é trabalhado pelas categorias da relfexão (objetividade) nem é, ainda, “reduzido às nossas idealizações e à nossa sintaxe” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 139); e porque é mistura do mundo e de nós (Le Visible et l´ Invisible, pág. 138); ele se apresenta como a solução do problema das relações da consciência com o mundo, visto que nossa relação com o Ser, nossa promiscuidade e parentesco com o Ser faz-se por dentro, no interior do Ser bruto, isto é, na carne do corpo e do mundo.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 27)

PARADOXO DA REFLEXÃO:

[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Mundo vivido/mundo da vida: Husserl e Merleau-Ponty

‘“Merleau-Ponty rejeita o naturalismo e o realismo presentes no pensamento objetivo e causal e retorna ao que o Husserl chamou de mundo vivido  ou mundo da vida: o mundo percebido por um ser vivo do ponto de vista geral da vida, antes de qualquer tematização, objetivação e representação.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 15.)

“A primazia da percepção, enquanto experiência vivida, permite redescobrir a figura do mundo percebido, não como realidade exterior ou objeto, mas como seu mundo ou meio (Umwelt) e seu horizonte de vida.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16)

[…] a divisão convencional do mundo em sujeito e objeto, em mundo interior e em mundo exterior, em corpo e em alma não mais pode aplicar-se e suscita dificuldades. Para as ciências da natureza em si, mas da natureza sujeita à interrogação humana e, dessa forma, novamente o homem não reencontra aqui senão ele mesmo.

(Heisenberg - Ibid.p.29.)

O método científico, que escolhe, explica e ordena, admite os limites que lhe são impostos pelo fato de que o emprego do método tranforma seu objeto e, conseqüentemente, o método não mais pode separar-se do objeto. Isso significa que a imagem do universo, segundo as ciências da natureza, deixa de ser, propriamente falando, a imagem segundo as ciências da natureza.

(Ibid.p.34.)

O objetivismo científico […] vai reduzindo a consciência a uma realidade cada vez mais fugaz, até que se converta num mero epifenômeno de acontecimentos físico-fisiológicos observáveis e objetivos. O pensamento de sobrevôo na filosofia converte o mundo em representação do mundo. O pensamento de sobreôo na ciência converte a consciência num resultado aparente de “fenômenos na terceira pessoa, isto é, de acontecimentos que pertencem à esfera dos objetos naturais – M.Chaui”.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)

A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las […] e apenas, de longe em longe, ela defronta-se com o mundo atual. Ela é, ela sempre foi este pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse pressuposto de tratar todo ser “como objeto em geral”, ísto é, como se, ao mesmo tempo, ele anda fosse para nós e, entretanto, estivesse predestinado aos nossos artifícios. (Merleau-Ponty, L’Oeil et l’ Esprit, pag 9)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 47)

O maior problema filosófico acerca do pensamento objetivo inerente às filosofias da reflexão ou do Cogito reside no fato de que a reflexão é atividade derivada; de que ela não é atividade originária e fundante, pois é precedida e se alimenta da percepção; e de que a ontologia objetivista do mundo e da realidade em si, que ela pressupõe, é insustentável na medida em que converte a experiência do mundo em representação, e o conhecimento, em coinscidência ou adequação. Por conseguinte, só nos resta abandonar a alternativa da filosofia reflexiva e buscar a solução numa filosofia da percepção que assuma a percepção como atividade de um corpo que é condição do aparecer do mundo percebido, o único mundo possível e real. Para nós, trata-se de buscar uma filosofica da pecepção e sinal visível de nossa encarnação e inscrição no mundo; enfim, uma filosofia que reencontre na experiência do mundo a fonte e o solo onde se delineia o significado, e que tenha, nessa comunicação com o mundo, o primeiro fundamento da racionalidade.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 50)

A percepção não é uma ciência iniciante e um primeiro exercício da inteligência; precisamos reencontrar um comércio com o mundo e uma presença no mundo mais velho do que a inteligência. (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.106)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 52)

O pensamento objetivo tem o poder de obnubilar “todos os fenômenos, que atestam a união do sujeito e do mundo, e substituí-los pela idéia clara do objeto como em si e do sujeito como pura consciência. (Merleau-Ponty, Phénoménologie de la percepcíon p.370)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Ontologia cartesiana substancialista […] nossa ciência e filosofia fundam-se numa ontologia realista de um mundo em si e da representação objetiva desse mundo em sua identidade substantiva e positiva.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 54)

CRÍTICA À PSICOLOGIA CARTESIANA:

Como meio de garantir clareza e objetividade, à semelhança das ciências naturais, a psicologia introduz no comportamento a exterioridade e a objetividade do “pensamento de sobrevôo” e do “observador estrangeiro”, excluindo a introspecção como método e via de acesso ao psicquismo, aos fatos mentais e ao comportamento. Com efeito, para o psicólogo behaviorista e para o físico a preocupação da objetividade exorciza os riscos da visão “de dentro” do psiquismo, fornecida pela introspecção contaminada, acreditam eles, pelo componente subjetivo ou pelo aporte corporal (Merleau-Pontu, Le Visible et l’Invisible, p.22) e que faz do psiquismo uma aparência ou projeção psicológica. Avaliando os supostos riscos da introspecção como método de conhecimento do psiquismo em psicologia, Merleau-Ponty pergunta-se se a visão do interior, pela intropecção, é realmente possível e se ela poderia ser substituída por um ponto de vista exterior que transporta o interior para fora. Ao contrário, sustenta ele:

Há – e isto é uma coisa totalmente diferente e que conserva seu valor – uma vida ao pé de si, uma abertura para si, porém, que não desemboca em outro mundo diferente do mundo comum – e que não é, necessariamente, fechamento aos outros. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.36)

[…] À semelhança do físico, “o psicológico, por sua vez, intala-se na posição do espectador […] subentendendo um sujeito absoluto diante do qual se desdobra o psiquismo em geral, o meu, ou o do outrem” (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37). Como no físico, o psicológico constroi um “sistema de referências” segundo o qual o psiquismo, do qual fala o psicólogo, é seu psiquismo também. Esse presumido ponto de vista do espectador estrageiro ou imparcial é posto em questão quando fica patenteado para a ciência que “clivagem entre ‘subjetivo’ e o ‘objetivo’ “ (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37)., pela qual a física e a psicologia definem seus domínios próprios, são duas ordens de “realidades” com suas propriedades intrínsecas em si, supostamente construídas e conhecidas por um pensamento puro e exterior ao mundo. Todavia não é o que acontece:

[…] o ser-objeto não pode ser mais o próprio-ser: “objetivo” e “subjetivo” são reconhecidos como duas ordens construídas apressadamente no interior de uma experiência total, cujo contexto seria preciso restaurar com total clareza. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.38).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 49 e 50)

PARADOXO DA REFLEXÃO:

[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Epoché – Husserl

Retirado do site: http://www.filosofante.com.br/?p=784

Para falar de Husserl necessitamos de definir o conceito de “Epoché”, porque sem isso a maioria não o compreenderia. “Epoché” deriva do grego antigo e significa “paragem”, “interrupção” ou “suspensão de juízo”.

Segundo Husserl, “Epoché” significa a suspensão do mundo, como que parado no tempo, embora com todas as suas características presentes e, por isso, passíveis de serem analisadas “de fora”, por um observador exterior. O “Epoché” de Husserl que suspende o mundo no tempo e no espaço, permite a quem medita conhecer-se a si próprio e tomar consciência da sua própria essência, e a autoconsciência adquirida desta forma é o “eu puro” de Husserl (ou o “eu transcendental”).
Existe na essência do “Epoché” de Husserl uma ideia de desprendimento espiritual em relação às coisas mundanas, porque através do Epoché, “nos tornamos observadores desinteressados do mundo”. Existe algo de mediúnico (no sentido espiritualista) na filosofia de Husserl, quando ele dá a primazia à intuição da essência em detrimento dos fatos mundanos; trata-se de uma “ciência” teórica (contemplativa), intuitiva e não-objetiva.

Caracterizando a qualidade metodológica da Epoché, Husserl nomeou duas etapas principais de redução (“suspensão”), no caminho de uma filosofia fenomenológica:

a) Redução Psicológica: é a recusa, como filósofo, em aceitar a evidência empírica, de uma atitude natural, como sendo suficiente para a fundação de um verdadeiro conhecimento. Resumidamente: a primeira etapa da Epoché estará realizada quando tudo que nos é exterior, mesmo as outras pessoas, estiver colocado “entre parênteses”.

b) Redução Fenomenológica ou Transcendental: para Husserl, a característica da “atitude natural” não se limita à forma pela qual nos relacionamos com o mundo exterior; também os atos da consciência e o “eu” podem ser tratados como o mundo externo. Husserl propõe então que coloquemos também “entre parênteses”, a própria consciência, o “eu” e os seus atos. É preciso refletir sobre o refletido. É preciso pensar o pensado (reflexão transcendental). Passamos, assim, do ego cogito cartesiano para o ego cogito cogitatum da fenomenologia husserliana (HUSSERL, E. [1972 (1913)] Ideas I- General Introduction to pure Phenomenology, New York: Collins Books, p. 155 a p. 165).

 


ANOTAÇÃO DO YIUKI: Outros termos do Epoché:

  • Observador estrangeiro (Merleau-Ponty)
  • Pensamento de sobrevôo (Merleau-Ponty)
  • Zoom Out
  • Ilusão de extraterritorialidade (Prigogine já adepto ao entendimento de que o ser humano é carnificado no mundo, usa já o termo ilusão para definir o Epoché)

NATURALIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE

“Vinculo e parentesco entre a mente e o corpo é realizado por um processo de “naturalização” da consciência e da subjetividade a partir do corpo, em que a vida biológica, psíquica e mental, sensível e inteligível encontram-se reunidas em uma unidade indivisível. É o que denominamos “naturalização” da subjetividade. Enraizar a consciência e a subjetividade no corpo e trazê-las para a esfera do “mundo da vida” e do “sensível” significa considerá-las como fenômeno e experiência “naturais”.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 14)

A despeito da concepção clássica da consciência ou da subjetividade entendidas como realidade mental ou espiritual, a idéia de “naturalização” introduz na subjetividade uma “historicidade” biológica e cultural. A “naturalização” mostra  támbém, ao contrário do que pretendem o realismo e o positivismo, que a objetividade epistemológica não é um atributo ou propriedade ontológica da coisa ou da realidade em si, mas é relativa e dependente da experiência perceptiva. A objetividade, portanto, não se funda na coisa ou objeto em si, mas no objeto enquanto percebido e fenômeno. Porém, a contribuição mais significativa consiste em mostrar, com Merleau-Ponty, que a corporalidade e o significado estão no âmago da subjetividade.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 21)

“… Merleau-Ponty naturaliza a consciência, isto é, introduz e insere a consciêcia no “mundo da vida”, por meio do comportamento de um organismo agindo como  uma “estrutura”, (unidade, totalidade, interioridade) com relãção ao meio exterior, o que lhe confere um significado ou forma ainda não refletida nem inteligível.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 24)
Nota do Yiuki: Merleau-Ponty criticava da ciência fisiológica e da pscicologia experimental que explicava o comportamento humano por modelo ontologico cartesiano de diplopia baseado na causa e efeito através de uma ação reflexiva mecânica e/ou de propriedade física-quimica do corpo humano.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ausência de palavras - Osho

Se possível, viva uma experiência e não a fixe com quaisquer palavras, porque isso a tornaria estreita.

Você está sentado... é um anoitecer silencioso. O sol se foi, e as estrelas começam a aparecer. Simplesmente esteja presente. Nem mesmo diga: “Isso é belo”, porque no momento em que você diz que algo é belo, ele não é mais o mesmo. Ao dizer belo, você está introduzindo o passado, e todas as experiências que você disse serem belas coloriram a palavra.
Por que trazer o passado? O presente é tão vasto, e o passado tão estreito. Por que olhar por um buraco na parede, se você pode sair e olhar todo o céu?
Tente não usar palavras, mas, se precisar, seja muito cuidadoso em sua escolha, porque cada palavra tem uma nuança própria. Seja muito poético a esse respeito.


Retirado da capa de trás do livro:
Título Livro - Osho todos os dias – 365 meditações diárias
Autor: Osho
Editora: Vênus

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Notas para descondicionamento do olhar

Li o artigo “Sobre olhos, olhares e seu processo de (re)produção” da psicóloga Andréa Vieira Zanella e encontrei analises interessantes sobre o olhar. Eu coloquei o título acima para postar no meu blog, não faz parte do texto original. Para quem quiser o artigo na integra deixo no final a bibliografia dele.

  • Problematização de formas estereotipadas – é fundamental olhar para o que se repete, para as reificações que caracterizam nosso cotidiano e que nos cegam para as possibilidades de diferenças;
  • Convite à experimentação de outras formas de perceber e de expressar criativamente – o igual nunca é o mesmo, assim como nossos olhares não o são. Desse modo, a mesma realidade da qual participamos diariamente, os mesmo caminhos, os mesmos lugares, objetos e pessoas, sempre podem revelar o nunca visto, os detalhes despercebidos, os ângulos envoltos nas aparências da superfície, as diferenças em razão de cores, sabores, texturas, luminosidades. Nossos modos de expressão igualmente podem acolher novas possibilidades;
  • Desestabilização da segurança da percepção do sujeito – romper com o instituído não é tarefa fácil, pois abala certezas e convicções e nos lança diante de um novo, do imprevisto. Sacks(1995,p.132) explica que “Não se vê, sento ou percebe em isolamento – a percepção está sempre ligada ao comportamento e ao movimento, à busca e à exploração do mundo.” É difícil, portanto, desestabilizar percepções porque com isso nos lançamos por inteiro, como corpo, pensamento e emoção, diante do desconhecido, o que necessariamente vem acompanhado de angústia e incertezas. Essas, porém, são inevitáveis em processos de emergência de algum novo, sendo o sofrimento que as conota caracterizado por Vygotski (1990) como as “torturas da criação”.
  • Desafio à descoberta de novos traços, novas formas, novos sentidos – o cristalizado se objetiva de vários modos, porém em todos eles há a característica da negação da polissemia da vida. A vazão à proliferação de sentidos, bem como a reflexão sobre os caminhos éticos pelos quais enveredam é fundamental à re-significação de saberes e fazeres, à criação de novas formas de existências.

ZANELLA, A. V. . Sobre olhos, olhares e seu processo de (re)produção. In: Lúcia Helena Correa Lenzi; Sílvia Zanatta Da Ros; Ana Maria Alves de Souza; Marise Matos Gonçalves. (Org.). Imagem: intervenção e pesquisa. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006, v. , p. 139-150.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tornar mais permeável aos signos da natureza

"o impulso para a escrita é determinado por um elemento exterior, onde o homem perde um pouco as fronteiras do cotidiano e do racional e se torna mais permeável aos signos da natureza.” posfácio do livro S. Bernardo

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

ESCUTATÓRIA - Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a

dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou.

Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda:

“Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto.

Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram.

Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro.

Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (O amor que acende a lua, pág. 65.)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

CONHECIMENTO x FENOMENOLOGIA - HEGEL, G.W.F.

"Segundo uma representação natural, a filosofia, antes de abordar a coisa mesma, ou seja, o conhecimento efetivo do que em verdade é, necessita pôr-se de acordo sobre o conhecer, o qual se considera ou um instrumento com que se denomina o absoluto, ou um meio através do qual se o contempla.

Parece correto esse cuidado, pois há, possivelmente, diversos tipos de conhecimento. Alguns poderiam ser mais aptos do que outros para a obtenção do fim último, e por isso seria possível uma falsa escolha entre eles. Há também outro motivo: sendo o conhecer uma faculdade de espécie e de âmbito determinados, sem uma determinação mais exata de sua natureza e de seus limites, há o risco de alcançar as nuvens do erro em lugar do céu da verdade. Ora, esse cuidado chega até a transformar-se na convicção de que constitui um contra-senso em seu conceito todo empreendimento que, mediante o conhecer, almeje conquistar para a consciência o que é em si, de que entre o conhecer e o absoluto passa uma nítida linha divisória. Pois, se o conhecer é o instrumento para apoderar-se da essência absoluta, logo se suspeita que a aplicação do instrumento não deixe a coisa tal como é para si, mas com ele traga transformação e alteração. Ou então, o conhecimento não é instrumento de nossa atividade, mas de certa maneira um meio passivo através do qual a luz da verdade chega até nós. Nesse caso, também não recebemos a verdade como é em si, mas como é nesse meio e através dele.

Nos dois casos, usamos um meio que produz imediatamente o contrário de seu fim; ou melhor, o contra-senso está antes em recorrermos em geral a um meio. Sem dúvida, parece possível remediar esse inconveniente pelo conhecimento do modo de atuação do instrumento, o que permitiria descontar no resultado a contribuição do instrumento para a representação do absoluto que por meio dele fazemos, obtendo-se assim o verdadeiro em sua pureza. Só que essa correção nos levaria, de fato, aonde antes estávamos. Ao retirar novamente, de uma coisa elaborada, o que o instrumento operou nela, então essa coisa – no caso o absoluto – fica para nós exatamente como era antes desse esforço, que, portanto, fora inútil. Se, através do instrumento, o absoluto tivesse apenas de achegar-se a nós, como o passarinho na visgueira, sem que nada nele mudasse, ele zombaria desse artifício, se já não estivesse e não quisesse estar perto de nós em si e para si. Pois, nesse caso, o conhecimento seria um artifício: com seu múltiplo esforço, daria a impressão de produzir algo totalmente diverso do que só a relação imediata, a qual, sendo imediata, não exige por isso empenho. Ou então, se o exame do conhecer, aqui representado como um meio, nos faz conhecer a lei da refração de seus raios, de nada ainda nos serviria descontar a refração no resultado. Com efeito, o conhecer não é o desvio do raio: é o próprio raio, através do qual a verdade nos toca. Ao subtraí-lo, só nos restaria a pura direção ou o lugar vazio.

Desse modo, o temor de errar introduz uma desconfiança na ciência, que, sem tais escrúpulos, se entrega espontaneamente à sua tarefa, e conhece efetivamente. Entretanto, deveria ser levada em conta a posição inversa: por que não cuidar de introduzir uma desconfiança nessa desconfiança, e não temer que esse temor de errar já seja o próprio erro? De fato, esse temor de errar pressupõe com a verdade alguma coisa (ou melhor, muitas coisas) na base de suas precauções e conseqüências, verdade que deveria antes ser examinada. Pressupõe, por exemplo, representações sobre o conhecer como instrumento e meio e também uma diferença entre nós mesmos e esse conhecer; mas, sobretudo, que o absoluto esteja de um lado e o conhecer de outro lado – para si e separado do absoluto, e mesmo assim seja algo real. Pressupõe com isso que o conhecimento, que, enquanto fora do absoluto, está também fora da verdade, seja verdadeiro, suposição pela qual se mostra que o assim chamado temor do erro é, antes, temor da verdade.

Essa conseqüência resulta de que só o absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é absoluto. E possível rejeita-la mediante a distinção entre um conhecimento que não conhece o absoluto, com quer a ciência, e ainda assim é verdadeiro e o conhecimento em geral, que, embora incapaz de apreender o absoluto, seja capaz de outra verdade. Mas vemos, afinal, que esse falatório acaba em uma distinção obscura entre um verdadeiro absoluto e um verdadeiro ordinário, e que o absoluto, o conhecer, etc., são palavras que pressupõem uma significação que é preciso primeiro adquirir." [HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espirito].

quinta-feira, 4 de junho de 2009

EPOCHÉ - Newton Aquiles von Zuben

O texto na integra que está no site da unicamp é genial, deixo aqui somente a definição do epoché que é um vocabulário útil para compreender melhor o mundo. Yiuki

"As reduções, através da "epoché" (suspensão do juízo, colocação entre parênteses) visavam basicamente a mudança de atitude. A atitude natural, onde vivemos espontaneamente e consideramos os objetos como exteriores à consciência, existentes em si, deve transformar-se, pelas reduções, numa atitude transcendental para a qual a realidade exterior, (transcendente), dos objetos era colocada entre parênteses, pela suspensão do juízo sobre sua existência real (exterior), sendo, então, estes objetos considerados como meramente significados - os objetos intencionados.
Pela "epoché' o que é posto entre parênteses é a nossa certeza espontânea na realidade transcendente, isto é, exterior à consciência. Para Husserl o fundamento absoluto deveria estar no objeto enquanto consciente - noema -, pois a consciência do objeto exterior (noese) é mais evidente do que o próprio objeto exterior. A crença no objeto exterior é praticamente certa, porém, como o filósofo não pode contentar-se com certezas meramente práticas, deve buscar uma certeza numa evidência apodítica. O campo de investigação está, então, estabelecido para Husserl: será o campo da consciência pura e seus estados, frente ao objeto puro, o objeto intencional, o fenômeno. Estamos no âmago do idealismo transcendental fenomenológico. A teoria fenomenológica do objeto intencional - a coisa como revelada à consciência, como fenômeno - é uma forte crítica ao idealismo enquanto considera essa realidade como meramente idealizada, fruto da consciência. Husserl sustenta um idealismo metódico, somente ao nível da atitude transcendental. Ele não é idealista ao nível da atitude natural."

© Newton Aquiles von Zuben
Doutor em Filosofia - Université de Louvain
Professor Titular - Faculdade de Educação da UNICAMP

P.S. Tem mais definição do epoché no wikipédia.

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