"Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento." (Clarice Lispector)
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
quarta-feira, 24 de junho de 2009
CONHECIMENTO x FENOMENOLOGIA - HEGEL, G.W.F.
"Segundo uma representação natural, a filosofia, antes de abordar a coisa mesma, ou seja, o conhecimento efetivo do que em verdade é, necessita pôr-se de acordo sobre o conhecer, o qual se considera ou um instrumento com que se denomina o absoluto, ou um meio através do qual se o contempla.
Parece correto esse cuidado, pois há, possivelmente, diversos tipos de conhecimento. Alguns poderiam ser mais aptos do que outros para a obtenção do fim último, e por isso seria possível uma falsa escolha entre eles. Há também outro motivo: sendo o conhecer uma faculdade de espécie e de âmbito determinados, sem uma determinação mais exata de sua natureza e de seus limites, há o risco de alcançar as nuvens do erro em lugar do céu da verdade. Ora, esse cuidado chega até a transformar-se na convicção de que constitui um contra-senso em seu conceito todo empreendimento que, mediante o conhecer, almeje conquistar para a consciência o que é em si, de que entre o conhecer e o absoluto passa uma nítida linha divisória. Pois, se o conhecer é o instrumento para apoderar-se da essência absoluta, logo se suspeita que a aplicação do instrumento não deixe a coisa tal como é para si, mas com ele traga transformação e alteração. Ou então, o conhecimento não é instrumento de nossa atividade, mas de certa maneira um meio passivo através do qual a luz da verdade chega até nós. Nesse caso, também não recebemos a verdade como é em si, mas como é nesse meio e através dele.
Nos dois casos, usamos um meio que produz imediatamente o contrário de seu fim; ou melhor, o contra-senso está antes em recorrermos em geral a um meio. Sem dúvida, parece possível remediar esse inconveniente pelo conhecimento do modo de atuação do instrumento, o que permitiria descontar no resultado a contribuição do instrumento para a representação do absoluto que por meio dele fazemos, obtendo-se assim o verdadeiro em sua pureza. Só que essa correção nos levaria, de fato, aonde antes estávamos. Ao retirar novamente, de uma coisa elaborada, o que o instrumento operou nela, então essa coisa – no caso o absoluto – fica para nós exatamente como era antes desse esforço, que, portanto, fora inútil. Se, através do instrumento, o absoluto tivesse apenas de achegar-se a nós, como o passarinho na visgueira, sem que nada nele mudasse, ele zombaria desse artifício, se já não estivesse e não quisesse estar perto de nós em si e para si. Pois, nesse caso, o conhecimento seria um artifício: com seu múltiplo esforço, daria a impressão de produzir algo totalmente diverso do que só a relação imediata, a qual, sendo imediata, não exige por isso empenho. Ou então, se o exame do conhecer, aqui representado como um meio, nos faz conhecer a lei da refração de seus raios, de nada ainda nos serviria descontar a refração no resultado. Com efeito, o conhecer não é o desvio do raio: é o próprio raio, através do qual a verdade nos toca. Ao subtraí-lo, só nos restaria a pura direção ou o lugar vazio.
Desse modo, o temor de errar introduz uma desconfiança na ciência, que, sem tais escrúpulos, se entrega espontaneamente à sua tarefa, e conhece efetivamente. Entretanto, deveria ser levada em conta a posição inversa: por que não cuidar de introduzir uma desconfiança nessa desconfiança, e não temer que esse temor de errar já seja o próprio erro? De fato, esse temor de errar pressupõe com a verdade alguma coisa (ou melhor, muitas coisas) na base de suas precauções e conseqüências, verdade que deveria antes ser examinada. Pressupõe, por exemplo, representações sobre o conhecer como instrumento e meio e também uma diferença entre nós mesmos e esse conhecer; mas, sobretudo, que o absoluto esteja de um lado e o conhecer de outro lado – para si e separado do absoluto, e mesmo assim seja algo real. Pressupõe com isso que o conhecimento, que, enquanto fora do absoluto, está também fora da verdade, seja verdadeiro, suposição pela qual se mostra que o assim chamado temor do erro é, antes, temor da verdade.
Essa conseqüência resulta de que só o absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é absoluto. E possível rejeita-la mediante a distinção entre um conhecimento que não conhece o absoluto, com quer a ciência, e ainda assim é verdadeiro e o conhecimento em geral, que, embora incapaz de apreender o absoluto, seja capaz de outra verdade. Mas vemos, afinal, que esse falatório acaba em uma distinção obscura entre um verdadeiro absoluto e um verdadeiro ordinário, e que o absoluto, o conhecer, etc., são palavras que pressupõem uma significação que é preciso primeiro adquirir." [HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espirito].
segunda-feira, 13 de abril de 2009
CONHECER-SE - J.C.A.W. Hare - Guesses at Truth, 454
domingo, 6 de julho de 2008
VONTADE E DESEJO - Lúcifer, Vol. 1, no 2, outubro de 1887, p. 96
A vontade é posse exclusiva do homem em nosso plano de consciência.
Ela o distingue do bruto em quem apenas o desejo instintivo encontra-se ativo.
O desejo, em sua aplicação mais ampla, é a força criativa do Universo.
Nesse sentido, não se distingue da Vontade; mas enquanto permanecermos apenas homens não conheceremos o desejo nesta forma. Portanto, Vontade e Desejo são considerados aqui opostos.
Assim a Vontade é o rebento do Divino, Deus no homem; o Desejo, a força motriz da vida animal.
A maioria dos homens vive no desejo e pelo desejo, confundindo-o com a vontade. Mas aquele que aspira deve distinguir a vontade do desejo, tornando sua vontade soberana, pois o desejo é instável e muda sempre, enquanto que a vontade é firme e constante.
A vontade e o desejo são criadores absolutos, formando o próprio homem e seu entorno. Mas a vontade cria de forma inteligente — o desejo de forma cega e inconsciente. O homem, portanto, torna-se a imagem de seus desejos, a menos que crie a si mesmo à semelhança do Divino, valendo-se de sua vontade, que é filha da luz.
Sua tarefa é dupla: despertar a vontade, fortalecê-la pelo uso e pela conquista, torná-la regente absoluta de seu corpo e, paralelo a isto, purificar o desejo.
Conhecimento e vontade são os instrumentos usados para a obtenção desta purificação.
Lúcifer, Vol. 1, no 2, outubro de 1887, p. 96 (http://teosofia.wordpress.com/2008/01/16/vontade-e-desejo/)