Conheço uma tristeza com cheiro de abacaxi, sou menos triste, sou mais docemente triste.
Gaston Bachelard
Conheço uma tristeza com cheiro de abacaxi, sou menos triste, sou mais docemente triste.
Gaston Bachelard
“Como explimir melhor, no sentimento mesmo de um amor platônico, esse platonismo da vontade que dá ao ser àquilo que o ser quer, àquilo que é o futuro ser, depois de ter suprimido todos os seres do passado, todos o seres da reminiscência, todos os desejos sensuais em que se alimentava uma vontade schopenhaueriana, uma vontade animal!"
Gaston Bachelard (O ar e os sonhos, Editora Martins Fontes, 1ª Ed., p.146)
A árvore nitzschiana […] é um vinculo todo-poderoso do mal e do bem, da terra e do céu. “Quanto mais quer elevar-se rumo às alturas e à claridade, mais profundamente suas raízes se afundam na terra, nas trevas e no abismo – no mal.” (Zaratrustra, Da árvore sobre a montanha, 1ª ed., p.57). Não há bem evasivo, desabrochado, não há flor sem um trabalho da imundície da terra. O bem brota do mal.
Gaston Bachelard (O ar e os sonhos, Editora Martins Fontes, 1ª Ed., p.150)
Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: Os trabalhos de Robert Sesoille | Editora Martins Fontes | 1ª Ed. | P.112
“Os moralistas gostam de falar-nos da invenção em moral, como se a vida moral fosse obra da inteligência! Que nos falem antes do poder primitivo: a imaginação moral. É a imaginação que deve fornecer a linda das belas imagens ao longo da qual há de correr o esquema dinâmico que é o heroísmo. O exemplo constitui a própria causalidade moral. Porém, mais profundo ainda que os exemplos oferecidos pelos homens, é o exemplo fornecido pela natureza. A causa exemplar pode converter-se em causa substancial quando o ser humano se imagina de acordo com as forças do mundo. Quem tentar igualar sua vida à sua imaginação sentirá crescer em sí nobreza ao sonhar a substância que sobe, ao viver o elemento aéreo em sua ascensão.”
(Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: Os trabalhos de Robert Sesoille | Editora Martins Fontes | 1ª Ed. | P.112)
“O ser imaginante e o ser moral são muito mais solidários do que pensa a psicologia intelectualista, sempre pronta a considerar as imagens como alegorias. A imaginação, mais que a razão, é a força da unidade da alma humana. (Autor: Gaston Bachelard | Livro: O ar e os sonhos | capítulo: Nietzsche e o psiquismo ascensional | Editora Martins Fontes | 1ª Ed. | P.153)
“Se o universo é de certa forma o precipitado da natureza humana, o mundo dos deuses é a sua sublimação.” E Novalis acrescenta este profundo pensamento: “Os dois se fazem uno actu.” A sublimação e a cristalização se faz num único ato. Não há sublimação sem depósito, mas também pouco existe cristalização sem um vapor ligeiro que deixe a matéria, sem um espírito que corre acima da terra.
Gaston Bachelard
“Imaginar-se um mundo é tornar-se responsável, moralmente responsável, por esse mundo” (Gaston Bachelard – Livro: O ar e os sonhos, capítulo: A queda imaginária, página 93)
"O céu não possui margem porque a ascensão não possui obstáculo." (Gaston Bachelard)
Texto original retirado da Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. O artigo abaixo é interessante para filosofos e artistas criadores. Yiuki Doi
É encontrar uma espécie de elo perdido. A obra de Bachelard parece nos conduzir até aquele espaço onde acontecem encontros: ciência e poesia, razão e sentimento, matéria e espírito. É desconcertante, ao mesmo tempo tão obvio, complexo e tão elementar. Não restam dúvidas, estamos diante de um dos maiores e mais seminais pensadores do ocidente. Produtor e produto da demanda de conhecimentos de um nosso mundo contemporâneo, um mundo tão cheio de soluções e contradições, tão longe e tão perto da vontade potencial de achar a fórmula da alquimia elementar, e ao mesmo tempo tão fora de possibilidades, senão, de um mundo de exclusão e inclusão de consumos vazios. A paradoxal filosofia de Bachelard parece mesmo com a vida, essa imensa e tão simples força de querer ser que se institui e se extingue a cada momento se revelando tão apenas criação...
E quando se fala de fim de ideologias, fim das utopias, até fim da história, mister se faz conduzir o olhar para a imaginação, porque carecemos de criar novas direções, dar novos sentidos, repensar pensamentos, sobretudo sonhar. Que o eco de Bachelard nos dê alento para elegermos a profundidade das imagens como método para conhecer. Sobretudo, conhecer Bachelard. Ave Bachelard !
A Complexidade Essencial
Ou, O Novo Espírito Científico
As Aparências dialéticas do Conhecimento
Ou, A Psicanálise do Fogo.
A Totalidade: Forma, Dinâmica e Matéria
Ou, A Água e Os Sonhos.
Bachelard nos convida a compreender as categorias contrastantes das forças imaginantes da nossa mente - o impulso da novidade e o impulso ao primitivo e eterno. Duas imaginações: a imaginação formal e a imaginação material. Nesse entrelace diz ele, está o estudo filosófico completo da criação poética. Apostando em uma iconoclastia, propõe-se assim à tarefa de tentar encontrar por trás das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam. As raízes das forças imaginantes. Em um projeto de pensamento dialético lança luzes nessa dialogia: uma meditação da matéria educando uma imaginação aberta ; a substância e a forma ; o estudo das relações da causalidade material com a causalidade formal. Em um mundo de estéticas, do poeta e do escultor aponta para o valor essencial da matéria.
Toda forma procura sua matéria. Assim, como em um jogo de filosofia com os elementos fundamentais, re-visitando a própria filosofia primitiva e restituindo aos pensamentos sua avenida de sonhos. Cria Bachelard um sistema de fidelidade poética, apondo os sentimentos primitivos e o onírico fundamental. Apresenta-nos então o elemento Água. Feminino e mais uniforme que o fogo, elemento constante que simboliza as forças humanas mais escondidas, simples, simplificantes. Lembrando desta sorte, um certo descaso inconsciente para com o elemento, lembra o filósofo, a água aparece como elemento transitório, como uma metamorfose ontológica e essencial entre o fogo e a terra, participando de uma espécie de destino de queda, de morte cotidiana,de sofrimento infinito. As imagens da água vividas como em uma adesão irracional.
Diz Bachelard que pretende sobretudo, realizar um ensaio de estética literária, já que seu caminho é o da determinação das imagens poéticas e das adequações das formas às matérias fundamentais. A água como linguagem fluida. Apela para a materialização nata do devaneio da criança, lembrando aliás que os sonhos infantis são os sonhos das substâncias propriamente orgânicas. E que o homem que conhecemos e amamos é o homem do que se pode escrever. Fazendo um percurso de constituição da arte, afere: A arte é natureza enxertada.
Inicialmente apresenta-nos a água como espelho - Narciso, apelando para a naturalização da nossa imagem. Uma lenda do humano, do cosmo e das flores (o pancalismo) revela-nos o mundo como representações e como vontade - vontade de contemplar. A água como olho do mundo, água que vê e sonha.
A partir deste ponto, e se apoiando em vasta leitura de psicologia e filosofia, percorrendo poesias, mitologia, literaturas e sobretudo de imagens, suas e de tantos, o autor nos destina a compreender o universo imaginário das águas. Do límpido, da pureza (a moral da água) e do frescor, desde o imediato, ao complexo e profundo, da calma e do silêncio e da imaginação dinâmica da violência (complexo de Xerxes). Ora uma Água elementar da metapoética de Edgar Poe, como um movimento singular e estranho da vida das águas mortas e do sangue. Complexos - de Caronte, de Ofélia. Outra hora uma água das misturas e das combinações, sobretudo da água com a terra, em um esquema fundamental da materialidade: as massas e as ligas.A combinação dos poderes, o homo faber e a mão geométrica do homo fabricante. Nascimentos, casamentos, maternidades, mortes. Um ser total: tem corpo, alma, voz, a água como realidade poética completa. Numa demanda, como alerta o autor, de uma faculdade que ultrapasse a realidade em busca da sobre-humanidade.
Propondo uma classificação correta dos valores sensuais e os sensíveis, onde os sensuais aparecem como correspondências e os sensíveis apenas como traduções, afirma Bachelard que as formas se complementam, mas a matéria nunca. A matéria é o esquema dos sonhos indefinidos.O dilema é a verticalização, a consciência, o saber. Indo além do complexo de cultura (complexo de Nausícaa) o desafio é a imaginação da matéria, pois a verdadeira poesia é uma função de despertar.
AR: Sonho, Movimento, Vontade e Potência
Ou, O Ar e os Sonhos.
Neste ensaio Bachelard convida ao estudo do Ar como condutor da forma e da matéria: a Imaginação do Movimento. Dá início a sua viagem, apontando para a necessária superação do estado de estigmatização dos símbolos, em um apelo para a valorização da imaginação e mesmo do ato de produção das próprias e adequadas imagens. Para constituirmos interpretações múltiplas: interpretações passionais, estetizantes, racionais e objetivas.
O primeiro objeto em estudo é o Sonho de Vôo. Lembra o autor que é necessário uma forma menos estática para uma psicologia da imaginação - neste caso que contenha também ao princípio dinâmico da deformação. Para o elemento aéreo propõe-se a uma condução menos “atômica” e mais vetorial. Para o sonho de voar, lembra, trabalhamos com a dialética entre leveza e peso. Mais que isso, o sonho de voar não implicaria em fim a alcançar, mais de uma viagem em si, constituindo uma realização profunda da psique humana.Um lugar para ver como a razão trabalha o sonho, ou de como sonha a razão...
Um projeto filosófico proposto: ligar o sonho íntimo à experiência objetiva. O sonho libertando a imaginação formal, um repouso ótico e verbal. Constatação: no sonho do vôo a asa já é uma racionalização - criadora da imagem de Ícaro. O vôo onírico seria o sonho da vida instintiva - o instinto profundo da leveza, e do devaneio que une o desejo de crescer ao desejo de voar.
Entre metáforas de ascensão e de queda, diz então Bachelard, prevalece em um realismo psicológico inegável, o maior número de imagens de queda. Daí a necessidade de uma psicologia da verticalidade. Para analisar ao mesmo tempo, o impulso para o alto e a queda para o baixo. O alto prima sobre o baixo, o irreal comanda o realismo. A queda portanto em paradoxo pertence à ordem da substância e não do acidente. A imaginação da queda como uma espécie de doença da imaginação da subida (como o inferno que se reergue...).
O poder da imaginação impõe visões, a imagem antes do pensamento e da narrativa, antes da emoção. Só a imaginação material e a dinâmica podem criar verdadeiros poemas. Compreender assim o tema da queda para o alto. Luz e peso comandando a vida psíquica, a imaginação unindo pólos.
Bachelard comenta o trabalho propedêutico de Robert Desoille. Procura assim a dinâmica da imaginação e da vontade: sabe querer quem sabe imaginar. É desse patamar que insere a filosofia de Nietzsche para o psiquismo ascensional. Dos valores morais, o poeta vertical, o poeta das alturas. Desta forma, apresenta-nos o filósofo alemão pelas negativas do seu envolvimento com os elementos: da terra por que esta não possui os devaneios da intimidade, e pela sua opção de filosofar, não pela porta da matéria, mas da ação, e mais ainda pela imaginação dinâmica que material; da água por que esta não determina devaneios materiais; e nem mesmo então do fogo, já que tal elemento nele aparece apenas como fator de transmutação, mais com características dinâmicas, que riqueza substancial. Para Nietzsche, o ar seria a substancia mesma da nossa liberdade. A alegria aérea é liberdade. O Ar como dinâmica ofensiva e triunfante: o frio, o vazio, o silêncio, a altura...
A filosofia e a poesia de Nietzsche como um estudo da aurora ativa, do despertar tonificado, da vida vertical apreendida por uma longa aprendizagem.Assim, com o filósofo alemão, Bachelard diz ser possível separar em dois tipos a imaginação da vontade: a vontade-substância (shopenhaueriana) e a vontade-potência nietzschiana. A imaginação dinâmica dando imagens adequadas do querer, em um trabalho de mundo ascensional. A imaginação de forma mais que a razão, como unidade da alma humana do ser e da moral solidários. Para um despertar universal - O Zaratustra.
A Introversão da Matéria
Ou, A Terra e os Devaneios do Repouso
Todo conhecimento da intimidade das coisas, diz Bachelard, é imediatamente um poema. Como a contradição é fundante, depois de ter analisado no elemento terra os devaneios da vontade, com suas solicitações dinâmicas, onde a imaginação ativista que pela vontade sonha e dá futuro à sua ação, o filosofo pensa o repouso Após apontar para o homo faber ajustador, modelador, fundidor, ferreiro, que procura a matéria que sustenta a duração da forma e que portanto se manifesta na conjunção do signo contra, nesta obra o filósofo propões analisar a preposição dentro. A terra como o interior, a terra como o conteúdo básico, a terra subjetiva.
Dialeticamente, Bachelard, busca uma síntese ambivalente que unifique o contra e o dentro. Processos de extroversão e introversão. O método, lembra o autor, é o da imaginação como o percurso do sujeito transportando às coisas. Assim toda matéria meditada torna-se imediatamente a imagem de uma intimidade, de uma substância transformada em valor. Como uma afetividade enraizada no inconsciente e substanciada de interesses. Temos uma obra sobre as imagens do repouso, do refúgio, do enraizamento: Onde estão os lugares fundantes da casa, do ventre a caverna, os endereços correspondentes das potências noturnas e subterrâneas.
Na busca pelo oculto, lembra o filósofo, aparecem os diversos tipos de perspectivas de ocultamentos: a projeção anulada, ou do objetivo do não-receber, a perspectiva dialética ou invertida em projeções do pequeno, a perspectiva maravilhada e aquela da intensidade substancial infinita.
Diz Bachelard que as imagens como forças psíquicas primárias são mais fortes que as idéias, mais fortes que as experiências reais. As perspectivas dialéticas do interno e do externo seriam por vezes como aquelas de por e tirar uma máscara. A perspectiva do maravilhoso é o descobrir o interior esculpido, a prodigalidade da intimidade do interior revelando as faces exteriores da natureza e da cultura. As perspectivas de intensidade infinitas nas imagens, apontam para a diferença entre cor e tintura, sendo a cor uma sedução das superfícies, a tintura uma verdade das profundezas.
Mas há também a intimidade em conflito. A agitação como multiplicidade no combate das substâncias e as imagens da discórdia íntima. Nessa direção, atingimos a imaginação da qualidade: Ritmanálise e tonalização. Os degraus do movimento. Lembra assim o filósofo que a maior luta não é travada contra forças reais, é travada contra as forças imaginadas. O homem como um drama de símbolos.
Interior e repouso são pensados no “Complexo de Jonas”. Propondo recolocar as imagens na dupla perspectiva dos sonhos e dos pensamentos. Realidade e sonho na busca de saber o que cada um tem no ventre. Jonas como lugar para pensar a profundidade da imagem, ativando imagens superpostas e apontando para o alimento, o ventre, a morte.
Aproximando as palavras e as coisas, Bachelard apela para a profundidade, já que diz ele, os seres escondidos e fugidios esquecem da fuga quando o poeta os chama pelo verdadeiro nome. A obra deste filósofo é o de reviver as formas sonhadoras no interior das coisas, abrindo o “último broto do porvir” (Eluard.)
A Carne dos Símbolos.
Ou, A Terra e os Devaneios da Vontade.
A Alma: Indo além da Metáfora, A Imaginação da Matéria.
Ou, A Poética do Espaço
Anima
O Devaneio como Caminho da Consciência.
Ou, A Poética do Devaneio.
NOTAS
1) Doutor em História pela USP e integrante do Centro de Estudos do Imaginário. . Volta
O espírito científico é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento do quadro do conhecimento, onde pela didática da super- ação a ciência aceita o desafio de instituir novos percursos.