Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

DO SILÊNCIO AO CAOS, DO CAOS A PAUSA

 A humanidade não deu certo… Talvez eu concorde com a carta deixado pelo Flávio Migliaccio na despedida dele deste mundo no dia 04 de Maio de 2020. Acho que a crise sanitária-econômica da Covid-19 simplesmente escancarou o que muitos já sabiam, que a nossa economia capitalista neoliberal e globalizada é insustentável ecologicamente.

Quando falo ecologicamente penso no ser humano como uma espécie igual a todos outros seres vivos. Desta maneira, noto que houve princípios que embasaram e nortearam a nossa política, sociedade e a economia que foram equivocados. Não podemos viver uma produção econômica infinita achando que os recursos naturais são infinitos. Devemos viver responsabilizando do destinos dos nossos lixos e dos nossos esgotos. A monocultura deve ser revista através do aprendizado das agroflorestas. Nosso valor de existência não deve ser superior dos demais seres vivos. Logo, há toda cultura mundial e brasileira precisa ser revista urgentemente, buscando uma cultura que respeite da vida do planeta como todo.

Dentro de vários paradigmas a serem questionados, penso principalmente na separação do ambiente rural e do urbano. Acho que a humanidade precisa entrar mais em contato com natureza e buscar os ideais da permacultura. Nesta perspectiva, interessa-me aproximar a esse movimento enquanto artista da dança também.

Acredito que ser contemporâneo é estar ancorado no tempo e espaço, mais do que inovar na linguagem - a qual parece que é uma consequência das inquietações que movem os artistas. Logo, tenho refletido sobre o futuro da dança contemporânea e da arte em geral.

De um lado, creio que precisamos deslocar a nossa vivência e criação artística mais próximo da natureza, acompanhado do autocuidado do nosso corpo. Mas, por outro lado, vejo a necessidade do ativismo dos artistas nos centros urbanos em relação à cultura e política neoliberal brasileira - que se exime da responsabilidade social e ambiental. A priori, parece-me que são lugares distintos na sua maneira de se organizar e criar a arte, contudo tenho indagado se não é possível transitar entre estes dois lugares enquanto artista, incluindo o processo de criação artística.

Neste viés de pensamento, tenho interessado na cartografia urbana e o mapeamento de nichos que possam dialogar com o meio ambiente (parques, praças, rios etc.). Da mesma maneira, tenho pensado nos lugares inóspitos para a natureza dentro da cidade (avenidas, viadutos, valas etc.). Acho fascinante pensar em laboratórios de criação nesses espaços da cidade. No ambiente rural, penso em vivências em florestas, trilhas e em sítios. Mais do que uma temática de uma obra, interessa-me o que a experiência do trânsito entre esses ambientes podem promover como material criativo.

Há algum tempo a sabedoria indígena tem me chamado a atenção. Anteontem assisti a animação infantil “Pachamama” na Netflix, muito linda a cosmovisão andina compartilhada nela. O florartivismo que tenho feito advém da conexão indígena guaraní com o plantio do milho. Outro dia, a artista Laura Formighieri compartilhou comigo que quando implantamos o plantio na nossa vida a gente está sempre lendo a paisagem de maneira diferente. Creio que existem questões culturais nativas que precisamos visitar para compreendermos melhor o nosso mundo. Estar cuidando de uma plantação dentro do processo de criação parece algo a dialogar neste sentido.

Dentro das inquietações compartilhadas, questiono-me qual a habilidade de transitar entre uma floresta e uma avenida comercial na capital. Pergunto como conseguir meditar no meio do caos urbano. Quais fomentos artísticos surgem quando transitamos entre estes dois mundos no processo de criação. Gosto de assumir que somos parte do meio que vivemos na metodologia de criação. Assim, interessa-me utilizar a mudança de ambientes como provocação para encontrarmos novas perspectivas artísticas e sociais. Do silêncio ao caos, do caos a pausa, quero experimentar uma nova potência de vida. Não sei exatamente o que será, mas gostaria de descobrir na minha caminhada.

Curitiba, 27 de Julho de 2020

Yiuki Doi

cantar e dançar e suspender o céu - Ailton Krenak

"Nós não nos esquecemos quem somos. Nós não nos esquecemos sobre aquelas paisagens que nos acolhem, os rios e as montanhas. Mesmo tendo tirado aquelas florestas daquele lugar, nos ainda invocamos ou evocamos aquela floresta e os seres daquela dessa floresta como nossos aliados. Mesmo quando nós fomos descriminados pela ação do estado, nós seguimos sabendo que nós temos uma potência, que é de habitar outros lugares, além daqueles lugares depredados ou estragados, nós habitamos outros lugares. Estes lugares são criados pela nossa subjetividade, pela nossa memória, pela nossa capacidade de narrar, contar história e como foi mencionado aqui de cantar e dançar e suspender o céu. Um coletivo, um povo que é capaz de produzir este mundo, ele tem uma possibilidade de sobreviver a um desastre do que aqueles que já perderam a sua subjetividade e estão chapados com essa realidade cotidiana, achando que a única coisa que existe é isto, esta realidade cotidiana e esta narrativa abrangente do mundo. Uma narrativa abrangente do mundo que inclui a gente numa maneira negativa, não é numa maneira criativa. É uma maneira para menos, eu acho que nós temos a potência e a capacidade de despertar a nossa memória sobre quem somos e fazer desta memória um importante impulso para realização do que sejam projetos coletivos." (Ailton Krenak)

p.s. trechos transcritos por mim desta conferência ❤

 https://www.youtube.com/watch?v=NUhCKS_UezM&feature=youtu.be&fbclid=IwAR0N9yNVd5kqRGcW015cbqy4jrXArbAcoAmmCqOEKw5XOfU9YMlPiHGvTBk

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