Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

sábado, 11 de julho de 2026

Imaginação - Yiuki Doi

Imaginar não significa abandonar a realidade, mas ampliar as possibilidades de relação entre seus elementos. Ela opera como uma dança entre diferentes camadas da experiência humana, aproximando saberes, práticas e linguagens que a organização cotidiana tende a manter separados. Filosofia, arte, agricultura, política, educação, ecologia, afetos e espiritualidade não aparecem como disciplinas isoladas, mas como dimensões de uma mesma experiência viva. Imaginar consiste em perceber, experimentar e criar novas vizinhanças entre esses campos, permitindo que cada um ilumine o outro e faça emergir possibilidades inéditas de compreender e habitar o mundo. Essas composições retornam continuamente à materialidade da existência, onde são tensionadas, transformadas e novamente recriadas. Não se trata de buscar uma síntese definitiva, mas de cultivar relações suficientemente férteis para produzir novas subjetividades, novos modos de pertencimento e outras formas de compartilhar a vida.


Yiuki Doi

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A criação do Tempo e do Amor - Ícaro Sol

Há muito tempo, antes de existir qualquer ser vivo, muito antes de o sol nascer, todo o universo era apenas branco.

Ninguém o conhecia.

O silêncio habitava todas as coisas.

Alguns chamariam esse branco de Deus.

Outros lhe dariam outros nomes.

Mas, antes de qualquer palavra, havia apenas o mistério.

Então nasceu um desejo.

O desejo de criar.

E a primeira criação não foi uma montanha.

Nem uma estrela.

Nem um rio.

Foi apenas uma linha.

Nada mais.

Talvez um desenhista estranhasse essa história.

Afinal, toda linha parece precisar de dois pontos. 

Mas o ponto é quase como o nada.

Não possui tamanho.

Não ocupa espaço.

Sozinho, mal consegue existir.

Deus contemplou a linha durante muito tempo.

Percebeu que ela fazia nascer duas extremidades.

Dois polos.

Uma diferença.

Sorriu.

Uma direção abriu-se no infinito. 

Durante muito tempo, nada mais aconteceu.

Observando bem, percebeu que poderia unir as extremidades.

Quando elas finalmente se encontraram, nasceu o Tempo.

E, com ele, nasceu também o Amor.

A linha descobriu que podia abraçar a si mesma.

Então surgiu a primeira circunferência.

Talvez o tempo seja o caminho dos encontros.

Deus olhou aquela primeira forma.

Dentro dela havia um vazio.

E foi ali que nasceu o primeiro círculo.

Então Deus disse ao Tempo:

— Caminhe.

Faça nascer os encontros.

E o tempo começou sua viagem.

Deus sorriu.

Depois criou outro círculo.

E mais outro.

Logo havia incontáveis círculos.

Uns grandes.

Outros pequenos.

Alguns quase tocavam seus vizinhos.

Outros pareciam gostar do silêncio.

O universo tornava-se uma constelação de formas.

Ainda assim, alguma coisa permanecia à espera.

Então Deus aproximou-se de cada círculo.

Com um gesto delicado, tocou-lhes o centro.

Assim nasceu a alma.

Cada círculo recebeu uma centelha.

E começou a transformar-se.

Vieram as cores.

As texturas.

Os cheiros.

Os sabores.

As formas já não eram iguais.

Alguns tornaram-se flores.

Outros rios.

Outras montanhas.

Outras árvores.

Outros pássaros.

Outro tornou-se céu.

Cada um seguia um chamado que não sabia explicar.

Pouco a pouco descobriram algo.

Existir não bastava.

Era preciso encontrar um lugar. 

Mas nenhum lugar fazia sentido sozinho.

Foi então que começaram a mover-se.

Encontraram-se.

Afastaram-se.

Voltaram.

Aprenderam.

Transformaram-se.

O pássaro desenhou caminhos para o vento.

O rio levou montanhas até o mar.

As águas aprenderam a subir ao céu.

O céu acolheu os vapores da terra.

Os raios do sol atravessaram as nuvens.

As pequenas gotas inventaram o arco-íris.

Depois veio a chuva.

A chuva alimentou o solo.

O solo despertou as sementes.

As sementes chamaram as flores.

As flores receberam as abelhas.

As abelhas espalharam novos jardins.

E o universo começou a pulsar.

Muito tempo depois surgiram os últimos círculos.

Alguns passaram a chamá-los de Adão e Eva.

Outros de Rupave e Sypave.

Outros lhes deram nomes que só existem em suas próprias histórias.

Pois os nomes mudam.

Mudam as paisagens.

Mudam as histórias.

Mas o mistério permanece.

E a pergunta continua.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Notas para comunidade utópica

Epígrafe: O ser humano floresce quando não precisa enfrentar sozinho a fragilidade da existência.


Lema: 

Nesta terra todos cuidam das crianças, dos idosos e dos enfermos. 
Este é o princípio originário e irrevogável da comunidade.
A vida não é sustentada pelo medo da morte ou pelo desamparo, mas pela partilha da fragilidade humana.
O cuidado é dever comum, o afeto é direito de todos, e a interdependência é a lei maior.
A partir deste fundamento, o ser humano se emancipa não como indivíduo isolado, mas como parte de um todo vivo, plural e encantado.
É neste pacto que floresce a dignidade, a coragem e a esperança coletiva junto da vocação individual.


Objetivo:

  1. Acolher a doença e a finitude como partes naturais do ciclo da vida, para integrar a fragilidade humana ao horizonte comunitário.
  2. Libertar o indivíduo do medo do desamparo, visando religá-lo ao ecossistema e à segurança compartilhada. 
  3. Promover o encanto da coexistência plural, com o propósito de fortalecer vínculos e ampliar a diversidade. 
  4. Potencializar a vocação individual, para que floresça junto ao todo comunitário.

Fundamentos: Aqui afirmamos os princípios que sustentam nossa convivência e o cuidado com a vida.

  1. Nesta comunidade, todos cuidam da criança, do idoso e do enfermo.
  2. Saúde, comida, roupa, teto, festa, arte e educação são direitos de todos.
  3. A sustentação da vida comunitária é uma responsabilidade de todos.
  4. O trabalho existe para sustentar a vida, não o contrário.
  5. Não se deve machucar a si, o outro e o ambiente.
  6. Dialogar é preciso, no tom assertivo e no momento adequado.
  7. As decisões devem ser coletivas.

Princípios Organizativos - para que o cuidado coletivo seja possível, organizamos nossas responsabilidades de forma transparente, participativa e compartilhada.

  1. As funções de organização e coordenação serão exercidas coletivamente, preferencialmente em tríades.
  2. As decisões serão construídas coletivamente e aprovadas por maioria qualificada definida pela comunidade.
  3. A divisão das tarefas e responsabilidades deve ser construída coletivamente.
  4. Transparência na gestão dos recursos.
  5. Rotatividade de funções.

Horizontes - em respeito aos que vieram antes de nós e aos que caminham conosco, mantemos vivos os seguintes horizontes:

  1. Respeito a todas as individualidades.
  2. Manejo adequado dos ecossistemas.
  3. Regeneração do ar, da água e da terra.
  4. Cultura de paz.
  5. Inclusão radical: social, cultural, plural e diverso.
  6. Relações humanas através da admiração e encanto.
  7. Observar a vida a partir da essência genuína imaterial.
  8. A comunidade participa da vida política sem abrir mão da autonomia, do diálogo e do cuidado com todas as formas de vida.  

Critérios para a atividade econômica comunitária 

  1. Baixo desgaste físico.
  2. Possibilidade de participação feminina e intergeracional.
  3. Compatível com o cuidado de crianças, idosos e enfermos.
  4. Uso de recursos já disponíveis no território.
  5. Baixo investimento inicial.
  6. Possibilidade de agregação de valor local.
  7. Não exigir crescimento infinito.
  8. Sustentar a vida comunitária.

Matéria-prima disponível: Jaqueiras

  1. doce de jaca;
  2. geleia;
  3. compota;
  4. fruta desidratada;
  5. polpa congelada;
  6. farinha da semente;
  7. produtos veganos usando a jaca verde.

Fluxo de arquitetura comunitária    

  1. Os ambientes dos bebês, crianças, adolescentes, idosos e enfermos são coletivos - centralizados e integrados à vida comunitária - mas também abertos para momentos de intimidade e descanso.
  2. As crianças ficam próximas dos locais de convivência, para que cresçam em meio ao cuidado e à alegria compartilhada.
  3. Os idosos ficam próximos da vida cotidiana, para que participem das trocas e não sejam isolados.
  4. Espaços de cuidado conectados às áreas comuns, garantindo acessibilidade e presença constante.
  5. Trabalho acessível a pé, integrado ao território e ao ritmo comunitário. 
  6. Encontros espontâneos entre gerações, favorecidos por espaços coletivos: praça, cozinha, refeitório, biblioteca, salão de festas, área de lazer e pátios abertos.. 
  7. Perguntas a fazer:
    • onde ficam as crianças?
    • quem cuida dos idosos?
    • onde acontece o trabalho?
    • como se prepara a comida?
    • como se toma decisões?
    • como se transmite conhecimento?
    • onde ficam: a praça, a sala de estudo, bosque, o pátio, a cozinha, o forno, o galpão, etc.

Projeção de sustentabilidade 

  1. Família: núcleo de cuidado e afeto.
  2. Comunidade: junção de famílias, organiza a economia e a vida cotidiana comunitária  (moradia, alimentação, festa, cultura, educação e convivência).
  3. Cooperativa: produção, beneficiamento, comercialização, formação profissional e gestão econômica.
  4. Associação ou Instituto: articula serviços especializados como saúde (médicos, dentistas), justiça (advogados), cultura (projetos, cursos, eventos) etc. Além de realizar captação de recursos e articulações institucionais.
  5. Federação: união de várias comunidades e associações para decisões de caráter federativo e/ou políticas públicas.
  6. Política Pública Nacional: cada instância realiza conexão com Estado e programas nacionais, garantindo direitos, deveres, serviços e recursos.

Estudo econômica: Cadeia produtiva da jaca

  1. Vantagens:
    • Matéria-prima já existente.
    • Baixo custo inicial de aquisição.
    • Produto regional.
    • Possibilidade de agregar valor.
    • Trabalho compatível com cooperativa feminina.
    • Possibilidade de participação intergeracional.
  2. Necessidades:
    • Cozinha regularizada.
    • Capacitação sanitária.
    • Embalagem.
    • Marca coletiva.
    • Comercialização.
  3. Possibilidades de produtos: 
    • Jaca madura;
      • doce cremoso;
      • geleia;
      • compota;
      • fruta desidratada;
      • polpa congelada
    • Jaca verde;
      • conserva;
      • produtos veganos;
      • recheios.
    • Sementes.
      • farinha;
      • snacks;
      • ingredientes culinários.
  4. Pergunta principal:
    • Como transformar a abundância de jacas do território em renda comunitária sem comprometer os princípios de cuidado da comunidade?
  5. Implementação:
    • Fase 1 - Experimentação.
      • coleta das jacas;
      • testes de receitas;
      • definição dos produtos;
      • degustações;
      • cálculo de rendimento;
      • identidade visual;
      • aceitação do mercado
      • Nessa fase, muita gente investe em estrutura antes de saber se o produto funciona.
    • Fase 2 — Cozinha comunitária regularizada - Dependendo da legislação municipal e estadual, pode ser suficiente uma cozinha de processamento de alimentos de pequeno porte com:
      • piso lavável;
      • paredes adequadas;
      • água potável;
      • área de higienização;
      • equipamentos de inox;
      • armazenamento adequado;
      • boas práticas de fabricação.
      • Nem sempre é necessário construir uma "fábrica".
    • Fase 3 — Unidade agroindustrial - Quando a produção cresce, então surge algo mais próximo de uma agroindústria familiar ou cooperativa de.
      • doces;
      • geleias;
      • compotas;
      • frutas desidratadas;
      • polpas.




terça-feira, 26 de maio de 2026

Capital cultural de Pierre Bourdieu

 O conceito de capital cultural de Pierre Bourdieu busca explicar que as desigualdades sociais não acontecem apenas por dinheiro (capital econômico), mas também pelo acesso desigual à:

  • conhecimento;
  • linguagem;
  • repertório cultural;
  • educação;
  • gostos;
  • hábitos;
  • e formas de comportamento valorizadas socialmente.

Ou seja:

certas culturas e modos de existir são reconhecidos como “mais legítimos” pelo sistema social.

Exemplo simples:
uma criança que cresce numa família:

  • que lê livros;
  • frequenta museus;
  • conhece música erudita;
  • sabe falar dentro da norma culta;
  • entende códigos acadêmicos;

já chega na escola com vantagens invisíveis.

Enquanto outras pessoas possuem saberes profundos:

  • populares;
  • corporais;
  • comunitários;
  • ancestrais;
  • territoriais;
  • artísticos;
  • ou tradicionais,

mas esses conhecimentos muitas vezes não são reconhecidos institucionalmente.

Então Bourdieu mostra que:

a escola frequentemente reproduz desigualdades ao valorizar determinados repertórios culturais como “naturais” ou “superiores”.

Ele divide o capital cultural em três formas principais:

  • Incorporado
    aquilo que o corpo aprende e carrega:
    • modo de falar;
    • postura;
    • gostos;
    • repertório;
    • sensibilidade;
    • maneiras de agir.
  • Objetivado
    bens culturais materiais:
    • livros;
    • instrumentos;
    • obras de arte;
    • acesso à cultura.
  • Institucionalizado
    reconhecimento formal:
    • diplomas;
    • títulos;
    • certificados.

Muitas vezes existem:

  • inteligências;
  • sensibilidades;
  • técnicas;
  • cosmologias;
  • e conhecimentos sofisticadíssimos

que o sistema dominante simplesmente:

não reconhece como “capital legítimo”.

Então o conceito de capital cultural ajuda a entender:
como a desigualdade também opera:

  • no simbólico;
  • no sensível;
  • na linguagem;
  • no gosto;
  • e na validação social dos saberes.

domingo, 24 de maio de 2026

Martin Heidegger: Befindlichkeit - “disposição afetiva”, “tonalidade afetiva” ou “estado de ânimo

 O Martin Heidegger rompe parcialmente com a tradição filosófica que entendia emoção como algo:

  • secundário;
  • irracional;
  • ou que atrapalha o pensamento.

Para ele, nós nunca percebemos o mundo de maneira neutra ou puramente racional.
Nós sempre já estamos:

afetivamente lançados no mundo.

Um conceito central dele é:

Befindlichkeit
(às vezes traduzido como “disposição afetiva”, “tonalidade afetiva” ou “estado de ânimo”).

A ideia é muito profunda:
antes mesmo de formular pensamentos conscientes,
o mundo já nos aparece através de um clima afetivo.

CHAT GPT

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Paradigma a ser superado - Kaká Werá

Anotações feitas a partir da fala do Kaká Werá no:

II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS DA UNESPAR. 

VELHO PARADÍGMA:

- Escravização dos seres humanos e animais; 

- Exploração dos recursos naturais em prol do desenvolvimento; 

- Envenenamento do ar, da água e da terra;

- Fomento da guerra como estratégia de fomento de riqueza

- Exclusão e invisibilidade social de parte da sociedade.

- Manipulação das relações humana em busca de poder

- A vida como sistema material (a vida é um sistema imaterial, que também se apresenta como material)


NOVOS PARADÍGMAS:

- Respeito a todas as individualidades;

- Manejo adequado dos ecossistemas;

- Regeneração do ar, da água e da terra; 

- Cultura de paz;

- Inclusão radical: social, cultual, diversidade etc.

- Relações humanas através da admiração e encanto.

- Observar a vida a partir da essência genuína imaterial.

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