Há muito tempo, antes de existir qualquer ser vivo, muito antes de o sol nascer, todo o universo era apenas branco.
Ninguém o conhecia.
O silêncio habitava todas as coisas.
Alguns chamariam esse branco de Deus.
Outros lhe dariam outros nomes.
Mas, antes de qualquer palavra, havia apenas o mistério.
Então nasceu um desejo.
O desejo de criar.
E a primeira criação não foi uma montanha.
Nem uma estrela.
Nem um rio.
Foi apenas uma linha.
Nada mais.
Talvez um desenhista estranhasse essa história.
Afinal, toda linha parece precisar de dois pontos.
Mas o ponto é quase como o nada.
Não possui tamanho.
Não ocupa espaço.
Sozinho, mal consegue existir.
Deus contemplou a linha durante muito tempo.
Percebeu que ela fazia nascer duas extremidades.
Dois polos.
Uma diferença.
Sorriu.
Uma direção abriu-se no infinito.
Durante muito tempo, nada mais aconteceu.
Observando bem, percebeu que poderia unir as extremidades.
Quando elas finalmente se encontraram, nasceu o Tempo.
E, com ele, nasceu também o Amor.
A linha descobriu que podia abraçar a si mesma.
Então surgiu a primeira circunferência.
Talvez o tempo seja o caminho dos encontros.
Deus olhou aquela primeira forma.
Dentro dela havia um vazio.
E foi ali que nasceu o primeiro círculo.
Então Deus disse ao Tempo:
— Caminhe.
Faça nascer os encontros.
E o tempo começou sua viagem.
Deus sorriu.
Depois criou outro círculo.
E mais outro.
Logo havia incontáveis círculos.
Uns grandes.
Outros pequenos.
Alguns quase tocavam seus vizinhos.
Outros pareciam gostar do silêncio.
O universo tornava-se uma constelação de formas.
Ainda assim, alguma coisa permanecia à espera.
Então Deus aproximou-se de cada círculo.
Com um gesto delicado, tocou-lhes o centro.
Assim nasceu a alma.
Cada círculo recebeu uma centelha.
E começou a transformar-se.
Vieram as cores.
As texturas.
Os cheiros.
Os sabores.
As formas já não eram iguais.
Alguns tornaram-se flores.
Outros rios.
Outras montanhas.
Outras árvores.
Outros pássaros.
Outro tornou-se céu.
Cada um seguia um chamado que não sabia explicar.
Pouco a pouco descobriram algo.
Existir não bastava.
Era preciso encontrar um lugar.
Mas nenhum lugar fazia sentido sozinho.
Foi então que começaram a mover-se.
Encontraram-se.
Afastaram-se.
Voltaram.
Aprenderam.
Transformaram-se.
O pássaro desenhou caminhos para o vento.
O rio levou montanhas até o mar.
As águas aprenderam a subir ao céu.
O céu acolheu os vapores da terra.
Os raios do sol atravessaram as nuvens.
As pequenas gotas inventaram o arco-íris.
Depois veio a chuva.
A chuva alimentou o solo.
O solo despertou as sementes.
As sementes chamaram as flores.
As flores receberam as abelhas.
As abelhas espalharam novos jardins.
E o universo começou a pulsar.
Muito tempo depois surgiram os últimos círculos.
Alguns passaram a chamá-los de Adão e Eva.
Outros de Rupave e Sypave.
Outros lhes deram nomes que só existem em suas próprias histórias.
Pois os nomes mudam.
Mudam as paisagens.
Mudam as histórias.
Mas o mistério permanece.
E a pergunta continua.