“é a reflexão sobre o estatuto do ser natural ou do ser naturalmente que permite passar da fenomenologia para a ontologia. A reflexão crítica sobre o tema da natureza, no seu pensmento final, prepara essa passagem. Essa inserção ou encarnação da subjetividade em um corpo reflexivo faz dela um acontecimento do mundo em sua forma de aparecer como corpo e sentido inseparáveis e inerentes ao sensível. A emergência do corpo próprio e do corpo reflexivo no corpo biológico seria o mais alto grau de manifestação de um Ser que é intrinsecamente visibilidade e expressividade. Nesse sentido, afirma Merleau-Ponty: há natureza por todaa parte onde há uma vida que tem um sentido, mas em que, entretanto, não há pensamento (La Nature:Notes Cours du Collège de France. pag.19). A natureza é o fundo inumano que nos move e que nos determina de dentro para fora. É natureza viva tudo o que tem um sentido, mesmo sem ser posto como pensamento. ela é a autoprodução de um sentido (La Nature:Notes Cours du Collège de France. pag.19). Dessa forma, Merleau Ponty reafirma “a natureza como o outro lado do homem (como carne – de modo algum como ‘matéria’)”(Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.328).
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Ser bruto, ser selvagem ou ser vertical: Merleau-Ponty
Texto abaixo retirado do livro A Subjetividade Corpórea, página 164, do autor José de Carvalho Sombra.
A experiência do sensível, além de diferenciação do em-si e do para-si (Merelau-Ponty, Signes, p.212) é diferenciação do visível, em oposição ao invisível; é o fundo geral no qual é feito o recorte das “coisas” como tais (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Na experiência do sensível, a referência às “coisas” e um excedente da experiência, algo como “uma interpretação segunda da experiência” ((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.214). Esse excedente, na percepção que nos dá acesso às coisas em sua positividade, possibilita “nossa abertura para o ‘alguma coisa’”((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.216) indeterminado, que é o Ser. a experiência da visão é o olhar que realiza a concreção do visível em visibilidade, na qual o sensível deixa de ser um ser de latência para tornar-se visibilidade. A visão é mais do que projeção e visada, é poder de diferenciação entre visível e invisível.
A experiência do sensível é abertura e acesso ao ser bruto, anterior à experiência das coisas, onde se dá “nossa experiência do ser bruto, que é como o cordão umbilical de nosso saber e a fonte do sentido para nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Essa enigmática abertura para o ser é a apreensão indireta e confusa de todas as coisas no seu elemento comum: ‘o invisível de sua visão, o inconsciente da consciência […]’ "”o outro lado ou o avesso (ou a outra dimensionalidade) do ser sensível”, comenta Claude Lefort¹.
A aparição ou apresentação desse Ser, plenamente e simplesmente sensível ou visível, que a poesia e a pintura buscam alcançar na experiência da visão, é o que o Merleau-Ponty chama de ser bruto, ser selvagem ou ser vertical, porque não é trabalhando pelas categorias da reflexão nem sofreu qualquer idealização. È um ser de visibilidade, que permeia o mundo em volta de mim e dentro de mim. Ele está diante de mim e é preciso apenas ver: é visibilidade intrínseca, como modo específico do Ser, não exige nem um ato subjetivo nem precisa ser aplicada ou representada, pois é anterior a qualquer reflexão ou posição do sujeito. É um ser que não é objeto de pensamento, já que eu percebo por contato: sinto, percebo, vejo, e faço parte dele. Em virtude dessa universalidade do sensível, a visibilidade deixa de ser conseqûencia ou efeito de um ato subjetivo:
“Característica do percebido: já estar aí, não ser pelo ato de percepção, mas ser a razão desse ato, e não o inverso. (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.272).
O Ser bruto é a região do sensível, pré-reflexiba e selvagem, anterior às separações e representações do pensamento, da qual brotam as categorias reflexivas e que está na origem das relações corpo/mundo e mundo sensível/mundo inteligível. Ele é o substrato das coisas e de toda experiência; é o solo originário, de onde brotam toda experiência e toda relação entre consciência e mundo. O ser bruto é a nova forma de ser no mundo natural, que aparece como presença pré-reflexiva e pré-humana e que constitui o Ser no seu estado selvagem. A descrição do visível e do ato de ver obriga-nos a rever nossa ontologia e a buscar um significado novo no Ser: a visibilidade instrínseca do ser, que se faz aparição ou visibilidade, que exclui as categorias subjetivas da percepção e da reflexão, visto que se manifesta no corpo e nas coisas e é “mistura do mundo e nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.138). “é ‘empiètement’ [invasão] de tudo sobre tudo, ser de promiscuidade” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.287).
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 164)
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Integração ;) by Merleau-Ponty
“Eu percebo de uma maneira indivisa com meu ser total, eu apreendo uma estrutura única da coisas, uma maneira única de existir que fale ao mesmo tempo a todos os meus sentidos.” (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.101)
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Sujeito-corpo do Merleau-Ponty
(Pode ser chamdo também de Consciência Perceptiva)
SUJEITO-CORPO: “O corpo agindo como sujeito de percepção e como corpo cognoscente. O corpo próprio, tal como eu existo e o reconheço como meu corpo, o corpo que eu vivo, que eu sou e que eu tenho, o qual se conduz como sujeito agente dos meus desejos, intenções e movimentos. Dessa maneira, minha consciência invade todo o meu corpo, com ele se mistura e confunde. Este corpo-sujeito não é apenas depositário ou instrumento de uma vida psíquica; ele é o meio de expressar esses sentimentos e ter acesso a eles; em suma, ele tem poder de significação ou de expressão que lhe é próprio, o que lhe confere uma interioridade e um significado. Esse poder de significar recobre sua atividade, em particular, a linguagem, a gestualidade, o desejo, a motricidade e a sexualidade. Esse modo de existir singular, ambíguo e enigmático do corpo próprio é irredutível à coisa extensa e exterior, e é anterior à atividade reflexiva e representativa. “
(Sombra, José de Carvalho, A Subjetividade Corpórea: a naturalização da subjetividade na filosofia de Merleau-Ponty, 2006, p.25).
“eu vejo, percebo e dele faço parte. Um ser de latência e de divisão, pré-reflexivo e selvagem, anterior a todas as separações e representações do pensamento filosófico e cientírico, com o qual o corpo relfexivo forma um entrelaçamento (entrelaço e quiasma) com o mundo.
(Sombra, José de Carvalho, A Subjetividade Corpórea: a naturalização da subjetividade na filosofia de Merleau-Ponty, 2006, p.27).
NOTA DO YIUKI: O corpo-sujeito do Merleau-Ponty vai de contra a que ele denomina de:
- Humanismo: “O subjetivismo filosófico (ou idealismo) que permite ao sujeito apropriar-se da realidade exterior, convertendo as coisas e o mundo em representações ou idéias” José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 45)
- Positivismo : “objetivismo científico que confere ao objeto a capacidade de exercer sobre o sujeito sua ação causal, cujo resultado é a presença do exterior na consciência, por meio das sensações.” José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 27)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Cosmovisão que se altera mediante a fenomenologia de Merleau-Ponty
Achei interessante a mudança da crença religiosa que se surge indiretamente com a fenomenologia do Merleau-Ponty lendo o trecho abaixo do livro do José de Carvalho Sombra (A Subjetividade Corpórea, página 21):
“… ao aproximar o humano e o animal no comportamento, o mental e o vital na percepção, o vital e o simbólico na expressão, Merleau-Ponty instaura uma supreendente aproximação e parentesco entre humano e o biológico, entre o natural e o mental. Em lugar de uma natureza, que nos seria estranha e exterior, Merleau-Ponty inseri a consciência na vida e no mundo, reformulando radicalmente nossa idéia de natureza e de consciência.”
VERTICALIDADE DO SER do Merleau-Ponty, por José de Carvalho Sombra
À semelhança do Heidegger, Merleau-Ponty rejeita a ontologia objetiva do Ser como um imenso ente, um Ens realissimum, uma segunda propriedade dos entes ou um avesso das coisas, ou ainda como uma outra realidade por trás deste mundo, onde o ser se esconderia. A idéia central da ontologia heigeggeriana, retomada por Merleau-Ponty, é a recusa em identificar o ser como o objeto. Ao contrário, o Ser é a dimensão universal que implica a visibilidade, isto é, a possibilidade de uma visão do mundo por dentro, a partir dos entes. Esta visão, que Merleau-Ponty chama de verticalidade do Ser, só é acessível mediante uma intra-ontologia: “o mundo perceptivo está no fundo do Ser no sentido heideggeriano” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 223). Essa latência e negatividade do ser implica, para Merleau-Ponty, “uma certa relação entre o visível e o invisível” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 281), em que o invisível é uma outra dimensão que se apresenta negativamente no visível. Em virtude dessa ocultação ou latência do Ser e da inadequação entre o ser e os entes, a busca e a expressão do Ser só podem ser indiretas: “meu método ‘indireto’ (o Ser nos entes) é o único adequado ao ser” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 198).
Diante dessa latência, que expressa o caráter abissal, universal e inatingível do ser, a ontologia de Mereleau-Ponty busca uma noção de ser, que supere a oposição entre essência e existência, entre o Ser e os entes, que devem ser tomados como inseperáveis e correlatos, viso que o Ser propriamente dito não é posição de sujeito nem de objeto mas é o “invisível deste mundo” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 198)
Segundo essa nova concepção do ser, nem objetiva nem idealista, o Ser é “meio (Umwelt, milieu), dimensão e elemento” das coisas, os quais se desdobra e se realiza nos entes como aparecer ou fenômeno, como visibilidade e invisibilidade, o que implica uma correlação entre o Ser e o sensível ou visível; entre o Ser e o homem e, por conseguinte, entre ser, pensamento, linguagem e significado.
Dessa maneira, a influência de Heidegger, mais do que recusa da experiência direta do Ser e de um retorno à metafísica clássica, leva Merleau-Ponty a repensar a experiência do Ser a partir do sensível, mediante o retorno ao mundo da vida; experiencia do Ser, enquanto entrelaçamento entre ser a palavra (Notes de cours: Collège de France – 1958-1959 et 1960-1961 – Página 123), a qual permite pensar o “sensível como este meio onde pode existir o ser sem que tenha que ser oposto” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 267)
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16-17)
“para Merleau-Ponty, o mundo anterior a qualquer conhecimento, o mundo da percepção e dá fé perceptiva. Ele é chamado de Ser bruto, Ser selvagem ou Ser vertical porque não é trabalhado pelas categorias da relfexão (objetividade) nem é, ainda, “reduzido às nossas idealizações e à nossa sintaxe” (Le Visible et l´ Invisible, pág. 139); e porque é mistura do mundo e de nós (Le Visible et l´ Invisible, pág. 138); ele se apresenta como a solução do problema das relações da consciência com o mundo, visto que nossa relação com o Ser, nossa promiscuidade e parentesco com o Ser faz-se por dentro, no interior do Ser bruto, isto é, na carne do corpo e do mundo.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 27)
PARADOXO DA REFLEXÃO:
[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)
Mundo vivido/mundo da vida: Husserl e Merleau-Ponty
‘“Merleau-Ponty rejeita o naturalismo e o realismo presentes no pensamento objetivo e causal e retorna ao que o Husserl chamou de mundo vivido ou mundo da vida: o mundo percebido por um ser vivo do ponto de vista geral da vida, antes de qualquer tematização, objetivação e representação.”
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 15.)
“A primazia da percepção, enquanto experiência vivida, permite redescobrir a figura do mundo percebido, não como realidade exterior ou objeto, mas como seu mundo ou meio (Umwelt) e seu horizonte de vida.”
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16)
[…] a divisão convencional do mundo em sujeito e objeto, em mundo interior e em mundo exterior, em corpo e em alma não mais pode aplicar-se e suscita dificuldades. Para as ciências da natureza em si, mas da natureza sujeita à interrogação humana e, dessa forma, novamente o homem não reencontra aqui senão ele mesmo.
(Heisenberg - Ibid.p.29.)
O método científico, que escolhe, explica e ordena, admite os limites que lhe são impostos pelo fato de que o emprego do método tranforma seu objeto e, conseqüentemente, o método não mais pode separar-se do objeto. Isso significa que a imagem do universo, segundo as ciências da natureza, deixa de ser, propriamente falando, a imagem segundo as ciências da natureza.
(Ibid.p.34.)
O objetivismo científico […] vai reduzindo a consciência a uma realidade cada vez mais fugaz, até que se converta num mero epifenômeno de acontecimentos físico-fisiológicos observáveis e objetivos. O pensamento de sobrevôo na filosofia converte o mundo em representação do mundo. O pensamento de sobreôo na ciência converte a consciência num resultado aparente de “fenômenos na terceira pessoa, isto é, de acontecimentos que pertencem à esfera dos objetos naturais – M.Chaui”.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)
A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las […] e apenas, de longe em longe, ela defronta-se com o mundo atual. Ela é, ela sempre foi este pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse pressuposto de tratar todo ser “como objeto em geral”, ísto é, como se, ao mesmo tempo, ele anda fosse para nós e, entretanto, estivesse predestinado aos nossos artifícios. (Merleau-Ponty, L’Oeil et l’ Esprit, pag 9)
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 47)
O maior problema filosófico acerca do pensamento objetivo inerente às filosofias da reflexão ou do Cogito reside no fato de que a reflexão é atividade derivada; de que ela não é atividade originária e fundante, pois é precedida e se alimenta da percepção; e de que a ontologia objetivista do mundo e da realidade em si, que ela pressupõe, é insustentável na medida em que converte a experiência do mundo em representação, e o conhecimento, em coinscidência ou adequação. Por conseguinte, só nos resta abandonar a alternativa da filosofia reflexiva e buscar a solução numa filosofia da percepção que assuma a percepção como atividade de um corpo que é condição do aparecer do mundo percebido, o único mundo possível e real. Para nós, trata-se de buscar uma filosofica da pecepção e sinal visível de nossa encarnação e inscrição no mundo; enfim, uma filosofia que reencontre na experiência do mundo a fonte e o solo onde se delineia o significado, e que tenha, nessa comunicação com o mundo, o primeiro fundamento da racionalidade.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 50)
A percepção não é uma ciência iniciante e um primeiro exercício da inteligência; precisamos reencontrar um comércio com o mundo e uma presença no mundo mais velho do que a inteligência. (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.106)
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 52)
O pensamento objetivo tem o poder de obnubilar “todos os fenômenos, que atestam a união do sujeito e do mundo, e substituí-los pela idéia clara do objeto como em si e do sujeito como pura consciência. (Merleau-Ponty, Phénoménologie de la percepcíon p.370)
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)
Ontologia cartesiana substancialista […] nossa ciência e filosofia fundam-se numa ontologia realista de um mundo em si e da representação objetiva desse mundo em sua identidade substantiva e positiva.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 54)
CRÍTICA À PSICOLOGIA CARTESIANA:
Como meio de garantir clareza e objetividade, à semelhança das ciências naturais, a psicologia introduz no comportamento a exterioridade e a objetividade do “pensamento de sobrevôo” e do “observador estrangeiro”, excluindo a introspecção como método e via de acesso ao psicquismo, aos fatos mentais e ao comportamento. Com efeito, para o psicólogo behaviorista e para o físico a preocupação da objetividade exorciza os riscos da visão “de dentro” do psiquismo, fornecida pela introspecção contaminada, acreditam eles, pelo componente subjetivo ou pelo aporte corporal (Merleau-Pontu, Le Visible et l’Invisible, p.22) e que faz do psiquismo uma aparência ou projeção psicológica. Avaliando os supostos riscos da introspecção como método de conhecimento do psiquismo em psicologia, Merleau-Ponty pergunta-se se a visão do interior, pela intropecção, é realmente possível e se ela poderia ser substituída por um ponto de vista exterior que transporta o interior para fora. Ao contrário, sustenta ele:
Há – e isto é uma coisa totalmente diferente e que conserva seu valor – uma vida ao pé de si, uma abertura para si, porém, que não desemboca em outro mundo diferente do mundo comum – e que não é, necessariamente, fechamento aos outros. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.36)
[…] À semelhança do físico, “o psicológico, por sua vez, intala-se na posição do espectador […] subentendendo um sujeito absoluto diante do qual se desdobra o psiquismo em geral, o meu, ou o do outrem” (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37). Como no físico, o psicológico constroi um “sistema de referências” segundo o qual o psiquismo, do qual fala o psicólogo, é seu psiquismo também. Esse presumido ponto de vista do espectador estrageiro ou imparcial é posto em questão quando fica patenteado para a ciência que “clivagem entre ‘subjetivo’ e o ‘objetivo’ “ (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37)., pela qual a física e a psicologia definem seus domínios próprios, são duas ordens de “realidades” com suas propriedades intrínsecas em si, supostamente construídas e conhecidas por um pensamento puro e exterior ao mundo. Todavia não é o que acontece:
[…] o ser-objeto não pode ser mais o próprio-ser: “objetivo” e “subjetivo” são reconhecidos como duas ordens construídas apressadamente no interior de uma experiência total, cujo contexto seria preciso restaurar com total clareza. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.38).
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 49 e 50)
PARADOXO DA REFLEXÃO:
[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.
José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)
Epoché – Husserl
Retirado do site: http://www.filosofante.com.br/?p=784
Para falar de Husserl necessitamos de definir o conceito de “Epoché”, porque sem isso a maioria não o compreenderia. “Epoché” deriva do grego antigo e significa “paragem”, “interrupção” ou “suspensão de juízo”.
Segundo Husserl, “Epoché” significa a suspensão do mundo, como que parado no tempo, embora com todas as suas características presentes e, por isso, passíveis de serem analisadas “de fora”, por um observador exterior. O “Epoché” de Husserl que suspende o mundo no tempo e no espaço, permite a quem medita conhecer-se a si próprio e tomar consciência da sua própria essência, e a autoconsciência adquirida desta forma é o “eu puro” de Husserl (ou o “eu transcendental”).
Existe na essência do “Epoché” de Husserl uma ideia de desprendimento espiritual em relação às coisas mundanas, porque através do Epoché, “nos tornamos observadores desinteressados do mundo”. Existe algo de mediúnico (no sentido espiritualista) na filosofia de Husserl, quando ele dá a primazia à intuição da essência em detrimento dos fatos mundanos; trata-se de uma “ciência” teórica (contemplativa), intuitiva e não-objetiva.
Caracterizando a qualidade metodológica da Epoché, Husserl nomeou duas etapas principais de redução (“suspensão”), no caminho de uma filosofia fenomenológica:
a) Redução Psicológica: é a recusa, como filósofo, em aceitar a evidência empírica, de uma atitude natural, como sendo suficiente para a fundação de um verdadeiro conhecimento. Resumidamente: a primeira etapa da Epoché estará realizada quando tudo que nos é exterior, mesmo as outras pessoas, estiver colocado “entre parênteses”.
b) Redução Fenomenológica ou Transcendental: para Husserl, a característica da “atitude natural” não se limita à forma pela qual nos relacionamos com o mundo exterior; também os atos da consciência e o “eu” podem ser tratados como o mundo externo. Husserl propõe então que coloquemos também “entre parênteses”, a própria consciência, o “eu” e os seus atos. É preciso refletir sobre o refletido. É preciso pensar o pensado (reflexão transcendental). Passamos, assim, do ego cogito cartesiano para o ego cogito cogitatum da fenomenologia husserliana (HUSSERL, E. [1972 (1913)] Ideas I- General Introduction to pure Phenomenology, New York: Collins Books, p. 155 a p. 165).
ANOTAÇÃO DO YIUKI: Outros termos do Epoché:
- Observador estrangeiro (Merleau-Ponty)
- Pensamento de sobrevôo (Merleau-Ponty)
- Zoom Out
- Ilusão de extraterritorialidade (Prigogine já adepto ao entendimento de que o ser humano é carnificado no mundo, usa já o termo ilusão para definir o Epoché)