Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

O FUTURO MUDA CONSTANTEMENTE A PARTIR DAS PEQUENAS AÇÕES

Há tempo para colher, plantar e semear. E há aqueles que somente cuidam da semente para que a futura geração possa desfrutar. Talvez os artistas e os professores ocupam este lugar no momento. Nossas ações parecem em vão, poucas ações parecem vingar. Porque trabalhamos com a cultura e este não muda de uma hora para outra. Tenho notado que esquecemos que nossa existência é contida dentro de um recorte temporal e espacial.

Alguém já questionou por que o samba, salsa e blues nasceram no mesmo período, na virada do século XX? O sociólogo Muniz Sodré relata a relação da diáspora africana e o processo da abolição da escravatura, a qual fez surgir o fomento cultural dessas músicas nos três cantos da América no mesmo período. Quem se interessar sobre este assunto, o livro "Samba: O Dono Do Corpo" é uma leitura agradável, que pode abrir novas perspectivas sobre a cultura. Lendo ele, compreendi que nossas criações não são independentes do contexto social, econômico e político - nossas escolhas são mediadas juntas a eles. Assim, podemos pensar que o tempo oportuniza a criação, a existência e a resistência.

Sou nissei e descobri a dança contemporânea brasileira junto a desCompanhia de Dança. Na trajetória como artista, fui descobrindo que minhas obras possuem afinidade com o Butoh, que é uma dança contemporânea japonesa, surgida após a II Guerra Mundial. Não tive conhecimento sobre o Butoh antes da dança, principalmente porque venho de uma família japonesa de agricultores. No entanto, fui criado com altar budista, haikai, ikebana, manga, filmes, seriados japoneses, etc. Além da curiosidade de que a minha língua materna é japonesa, apesar de nunca ter visitado o Japão. Meus avôs e pais tiveram uma cultura nipônica pós-guerra e imigraram para o Brasil. Herdei muitas coisas deles e quando conheci a dança contemporânea brasileira fui me enveredar nas temáticas e estéticas, que posteriormente descobri que possuem afinidades com o Butoh.

Estou compartilhando estas reflexões, pois temos a ilusão de que somos independente e autônomo, respaldado pela liberdade e livre-arbítrio. Temos nossas escolhas dentro de uma existência contida, recortada no tempo e no espaço. Assim sendo, tenho descoberto a importância de ver o aspecto cultural em que vivemos. E principalmente compreender que nada muda de uma hora para outra na cultura. Então, quando noto a ignorância na política brasileira, a falta de envolvimento das pessoas nos espaços de participação e controle social nas instituições públicas (Conselhos, Fórum, Conferências, DCE, CA, etc.), a criminalização dos movimentos sociais, enfraquecimento dos sindicatos, o atentado aos jornalistas, o genocídio dos índios e dos pobres, aumento da agressão à comunidade LGBTQI+, o crescimento do fascismo, violências aos enfermeiros e médicos que estão combatendo à COVID-19 e tantas coisas que me assombram no Brasil, compreendo claramente que o caminho dos artistas e dos professores atualmente será longo, com muita paciência, amor e sem expectativa a curto prazo.

Atualmente estou cursando a minha segunda graduação, que é de Dança. Nela, tenho atuado fortemente no movimento estudantil. Fazemos muitas coisas que parecem em vão. E sim, na prática acho que não colhemos resultados efetivos, pois não se muda a cultura de uma hora para outra. Mas escolhi não me frustrar em ações que não possuem resultados efetivos. Escolhi compreender e valorizar o envolvimento das pessoas nestas ações e o fomento cultural que elas promovem. Manter a utopia, como Galeano diz, serve para caminharmos para frente. Mas, muito além do que isto, fomentar os processos básicos de democracia (reunir, discutir, acordar no dissenso, votar, planejar, dividir funções, trabalhar e revolucionar) é lutar bravamente num país onde a democracia constitucional está ruindo. Sem esta mudança cultural, o Brasil não sairá do buraco em que caiu junto com este governo fascista, militar e miliciano.

Nesta crise sanitária-econômica e da democracia que estamos vivendo, não há um destino certo a seguir, mas o meio para continuar está claro: É povo organizado. Neste aspecto são os movimentos sociais como MST, MTST e frentes populares (LGBTQI+, Negros, Feministas, etc) que tem muito a nos ensinar. Então, temos muito a fazer, mas não podemos esperar resultado efetivo a curto prazo. Nosso tempo é outro, manter utopias e proteger a chama da democracia para que o fogo não se apague. Grandes jornadas começam com pequenos passos. Companheiros, vamos resistir e nos organizar.

Apesar de abordar a micropolítica neste texto, por final gostaria de pedir algo que dialoga com a macropolítica: fortaleçam o movimento estudantil e os sindicatos dos docentes e dos agentes. Não vejo as pessoas nomearem colapso e crise da educação pública no país, tampouco falar da verba de emergência à educação. Todos colegas meus e professores se tornam refém da manutenção das atividades remotas ou não. Porém, o golpe catastrófico e maior a educação está a chegar, que é a privatização do ensino público, utilização do EaD de maneira excludente e o fechamento de várias instituições e áreas de conhecimento de desenvolvimento humano e tecnológico imprescindíveis à sociedade. Principalmente no Paraná que tem o governador Ratinho Jr. alinhado com o Governo Federal do Bolsonaro. Vamos ter que negociar com o Governo Estadual e isto só é possível com fortalecimento da luta de classe. Manter a universidade funcionando é uma resistência, mas não ter sindicatos e movimentos estudantis fortalecidos é fatídico nos tempos de hoje. Seguimos em direção ao colapso do ensino público, então precisamos agir enquanto ainda há tempo.

Abraços.

Curitiba, 15 de Maio de 2020

Yiuki Doi, artivista da dança

Por que civilizações antigas não reconheciam a cor azul?

 Por que civilizações antigas não reconheciam a cor azul?


Achei interessante esta matéria  da BBC, pois no japonês AOI HAPPA significa no pé da letra FOLHA AZUL. 

Mas, pesquisando na internet descobri que AOI, que significa AZUL em japonês, possui relação com frescor e vigor também:

lush fruits
青々とした果物 - 日本語WordNet

the deep blue sea 
青々とした海 - EDR日英対訳辞書

green grass
青々とした草 - EDR日英対訳辞書

fresh green bamboo 青々とした竹 - EDR日英対訳辞書

a green field
青々とした野原 - Eゲイト英和辞典 

a green needle of a pine tree
青々とした松の葉 - EDR日英対訳辞書

a vivid green color 
青々とした緑色 - EDR日英対訳辞書

Aoi, azul ou 青い possui radical lua 月 em baixo. Então vem da sensação noturna com a lua. Nunca tinha parado para analisar, mas a construção do ideograma facilita a compreensão da sua etimologia. 
Enquanto a cor verde (緑) possui Fio 糸... curioso. Depois vou pesquisar os ideogramas do lado direito, o que eles significam. 

O interessante é que para dizer ENSOLARADO, acoplamos o kanji Sol 日 ao lado do azul, então ensolarado é 晴れ (HA-RE) 

 MEU APRENDIZADO DO DIA: as cores como usamos possui relação com a evolução da tecnologia da pigmentação e da economia. Mas, elas sempre tiveram relação com emoção, espiritualidade, praticidade, metáfora etc. 

P.S. Inclusive o termo CÉU AZULADO que existe literal no Japão como AOZORA, talvez seja algo mais recente para um povo milenar. Pois a tonalidade do azul noturno para azul celeste na pratica de pigmentação seja recente. Talvez fazia mais sentido dizer ensolarado a que céu azul antigamente. 

P.S. Apesar do Japão ser uma arquipélago e seu povo possuir muita relação com o mar e a leitura do céu, os ideogramas vieram da China. Então, é necessário também reconhecer o aspecto continental de onde surgiram os ideogramas. 

P.S. Talvez não é uma questão de achar a verdade, é uma maneira perceber o mundo além da praticidade e funcionalidade da cor. Mais do que regras de publicidade e de propaganda - tentar sentir o mundo por outros paradigmas, os quais permitem interagir, imaginar e criar novas existências - muitos dos quais nossos antepassados partilhavam.


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