Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

DO SILÊNCIO AO CAOS, DO CAOS A PAUSA

 A humanidade não deu certo… Talvez eu concorde com a carta deixado pelo Flávio Migliaccio na despedida dele deste mundo no dia 04 de Maio de 2020. Acho que a crise sanitária-econômica da Covid-19 simplesmente escancarou o que muitos já sabiam, que a nossa economia capitalista neoliberal e globalizada é insustentável ecologicamente.

Quando falo ecologicamente penso no ser humano como uma espécie igual a todos outros seres vivos. Desta maneira, noto que houve princípios que embasaram e nortearam a nossa política, sociedade e a economia que foram equivocados. Não podemos viver uma produção econômica infinita achando que os recursos naturais são infinitos. Devemos viver responsabilizando do destinos dos nossos lixos e dos nossos esgotos. A monocultura deve ser revista através do aprendizado das agroflorestas. Nosso valor de existência não deve ser superior dos demais seres vivos. Logo, há toda cultura mundial e brasileira precisa ser revista urgentemente, buscando uma cultura que respeite da vida do planeta como todo.

Dentro de vários paradigmas a serem questionados, penso principalmente na separação do ambiente rural e do urbano. Acho que a humanidade precisa entrar mais em contato com natureza e buscar os ideais da permacultura. Nesta perspectiva, interessa-me aproximar a esse movimento enquanto artista da dança também.

Acredito que ser contemporâneo é estar ancorado no tempo e espaço, mais do que inovar na linguagem - a qual parece que é uma consequência das inquietações que movem os artistas. Logo, tenho refletido sobre o futuro da dança contemporânea e da arte em geral.

De um lado, creio que precisamos deslocar a nossa vivência e criação artística mais próximo da natureza, acompanhado do autocuidado do nosso corpo. Mas, por outro lado, vejo a necessidade do ativismo dos artistas nos centros urbanos em relação à cultura e política neoliberal brasileira - que se exime da responsabilidade social e ambiental. A priori, parece-me que são lugares distintos na sua maneira de se organizar e criar a arte, contudo tenho indagado se não é possível transitar entre estes dois lugares enquanto artista, incluindo o processo de criação artística.

Neste viés de pensamento, tenho interessado na cartografia urbana e o mapeamento de nichos que possam dialogar com o meio ambiente (parques, praças, rios etc.). Da mesma maneira, tenho pensado nos lugares inóspitos para a natureza dentro da cidade (avenidas, viadutos, valas etc.). Acho fascinante pensar em laboratórios de criação nesses espaços da cidade. No ambiente rural, penso em vivências em florestas, trilhas e em sítios. Mais do que uma temática de uma obra, interessa-me o que a experiência do trânsito entre esses ambientes podem promover como material criativo.

Há algum tempo a sabedoria indígena tem me chamado a atenção. Anteontem assisti a animação infantil “Pachamama” na Netflix, muito linda a cosmovisão andina compartilhada nela. O florartivismo que tenho feito advém da conexão indígena guaraní com o plantio do milho. Outro dia, a artista Laura Formighieri compartilhou comigo que quando implantamos o plantio na nossa vida a gente está sempre lendo a paisagem de maneira diferente. Creio que existem questões culturais nativas que precisamos visitar para compreendermos melhor o nosso mundo. Estar cuidando de uma plantação dentro do processo de criação parece algo a dialogar neste sentido.

Dentro das inquietações compartilhadas, questiono-me qual a habilidade de transitar entre uma floresta e uma avenida comercial na capital. Pergunto como conseguir meditar no meio do caos urbano. Quais fomentos artísticos surgem quando transitamos entre estes dois mundos no processo de criação. Gosto de assumir que somos parte do meio que vivemos na metodologia de criação. Assim, interessa-me utilizar a mudança de ambientes como provocação para encontrarmos novas perspectivas artísticas e sociais. Do silêncio ao caos, do caos a pausa, quero experimentar uma nova potência de vida. Não sei exatamente o que será, mas gostaria de descobrir na minha caminhada.

Curitiba, 27 de Julho de 2020

Yiuki Doi

domingo, 28 de outubro de 2018

Paulo Freire: Escolhi a sombra desta árvore para...

Curitiba, Eleição Presidencial 2018 2º Turno.

Hoje levei Paulo Freire quando fui votar.
Li um poema dele e chorei no caminho…
A todos que preparam o jardim e plantam rosas de todas as cores. Estamos juntos <3
Obrigado.

Yiuki Doi

ESCOLHI A SOMBRA DA ÁRVORE PARA....

Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e
conversarei com os homens
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de quefazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,:
em voz baixa e precavidos:
É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso, esperar, na forma em que esperas,
porquê êsses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque êsses, ao anunciar-te ingênuamente ,
antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.

Paulo Freire

domingo, 23 de setembro de 2018

Salvar a esperança

haiga humanidade

“Não quero recuperar a minha humanidade amanhã.
Então, danço e salvo a minha esperança.”
Yiuki Doi

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

sábado, 8 de junho de 2013

A importância da Arte na Educação – vida plena à cidadania

Por Vivian Lacerda

fonte: Rumos do Brasil

Através da experimentação dos sentimentos e das emoções, a arte auxilia no encontro da identidade pessoal no mundo em que se vive. Durante este processo, o indivíduo não apenas entra em contato com o mundo sensorial, mas simultaneamente desenvolve e educa seus sentimentos através da prática dos símbolos artísticos.

A Arte é a expressão da vida que, associada ao processo de criação, transforma-se na capacidade de exercer plenamente a condição de ser humano. A Arte favorece o desenvolvimento integral do indivíduo, possibilitando a expressão livre do pensamento e das emoções, desenvolvendo seu raciocínio com criatividade e imaginação. Criando, o indivíduo torna-se mais seguro dos seus potenciais e consciente dos seus limites;  torna-se mais autêntico e livre para fazer suas escolhas.

A Arte protagoniza as mudanças sociais e o processo de construção da sociedade. Na Educação, ela forma um cidadão consciente, crítico e participativo, capaz de compreender a realidade em que vive. A ação educativa da Arte tem como objetivo a preparação do jovem para a vida plena da cidadania, buscando a formação de cidadãos que possam intervir na realidade, podendo ser considerada como um instrumento de transformação social.

Ao longo da vida, o ser humano é inundado por conhecimentos pré-fabricados, como “receitas de bolo”, transmitidos de maneira hermética. Todos os instrumentos de uma vida prática parecem imunes às livres reproduções de valores, idéias e ideais. Havendo apenas uma repetição, não há espaço para os sonhos, fantasias e experimentação. Não sobra lugar para criar, ocasionando uma transmissão de respostas prontas e conservadas.  Sem a oportunidade de realizar algo novo, que exprima simplesmente o que nós realmente somos, há o contínuo exercício das respostas determinadas e acabadas. O ato criador é renegado, abandonado e esta postura repetitiva cerceia a capacidade criadora, reflexiva e sensorial.

O uso da Arte na Educação aponta para um cenário em que as respostas moldadas e impermeáveis não podem mais ser seguidas por pontos finais.  Devem, sim, serem levadas para “seres humanos pensantes”, que possam reconstruí-las e adaptá-las às suas realidades e às suas necessidades.  A Arte na Educação busca a intensificação do interesse por novas criações, pela reflexão e pelo desenvolvimento de uma capacidade crítica, visando à formação de sujeitos ativos e autênticos.  É exatamente neste sentido que a Arte na Educação atua como veículo de transformação e um canal para o vislumbre de novas possibilidades, novos horizontes.

O aluno deve ser trabalhado na sua totalidade: corpo, mente e espírito. Através desse processo, ele automaticamente vê a razão sob uma nova ótica.  Na verdade, a inserção da Arte na Educação propõe uma releitura integral e profunda do processo de aprendizagem, e não apenas de forma verborrágica.

Educar com Arte significa educar através do contato com o outro, do despertar dos sentimentos e da troca.  É sair de si mesmo para enxergar o outro.  O que se almeja é que a descoberta interiorizada de sentimentos reais evolua para a externalização dos mesmos de maneira consciente e engajada. O Teatro, por exemplo, é uma das manifestações artísticas que consegue trabalhar o indivíduo e, principalmente, o coletivo, além de possibilitar o conhecimento histórico e cultural da sua existência passada e contemporânea.

É importante ressaltar que o objetivo da Arte na Educação não é formar artistas, mas sim indivíduos conscientes e aptos a exercerem a cidadania, desenvolvendo suas capacidades de reflexão e crítica. Certamente, na nossa existência, um dos maiores presentes que temos é a nossa própria capacidade de pensar, de elaborar… Por isso deve-se estimular sempre a criação, invenção, produção, reconstrução e reinvenção.

A Arte na Educação refere-se ao desenvolvimento das aptidões e potencialidades de cada indivíduo.  O aluno não pode ser manipulado como objeto. Deve ser tratado como ser humano único, próprio, espontâneo e com diferenças individuais que anseiam por se manifestar. O ser humano não pode ser encarado como uma máquina copiadora, mas como algo novo, extraordinário e excepcional. Não pode ser moldado ou sufocado, mas orientado para expor toda a sua originalidade, sua criatividade, reflexão, sua tendência para a liberdade, para a auto-criação, sua capacidade de auto-limitar-se e de aspirar, e o seu poder de inquietação interior que o impele até mesmo para o transcendental.

Ao invés de se desenvolver trabalhos impessoais, onde o educando apenas recria e transcreve as técnicas aprendidas, a Arte o estimulará a se retratar em suas produções artísticas.  Desta maneira, o educando é capaz de manifestar a sua própria realidade, com todos os seus conflitos e desejos.  Essa possibilidade que se abre contribui em muito para o amadurecimento do indivíduo, para o seu auto-conhecimento, para o despertar dos seus sentimentos, para a manifestação de suas próprias opiniões e, principalmente, para o verdadeiro sentido do “viver em grupo”.

A cada dia a nossa dura realidade se mostra mais cotidiana.  As marcas da injustiça, do sofrimento e das traições, feitas ao direito de ser, são cada vez mais simples e normais. E o futuro? Este então é definido como algo sem saída.  Completamente imutável.

Devemos saber dos acontecimentos como possibilidades, mas nunca como limites definitivos ou intransponíveis. O papel do cidadão não pode ser apenas o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém. Não podemos ser apenas objetos da História.  Devemos ser sujeitos ativos. Ninguém pode estar no mundo de uma forma neutra, passiva, de braços cruzados. A chave que tanto procuramos está e sempre estará nas mãos de cada um.  Chegou a hora de transformar.  De transformar com Arte. Faz-se necessário mudar!

Vivian Lacerda

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ser bruto, ser selvagem ou ser vertical: Merleau-Ponty

Texto abaixo retirado do livro A Subjetividade Corpórea, página 164, do autor José de Carvalho Sombra.

A experiência do sensível, além de diferenciação do em-si e do para-si (Merelau-Ponty, Signes, p.212) é diferenciação do visível, em oposição ao invisível; é o fundo geral no qual é feito o recorte das “coisas” como tais (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Na experiência do sensível, a referência às “coisas” e um excedente da experiência, algo como “uma interpretação segunda da experiência” ((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.214). Esse excedente, na percepção que nos dá acesso às coisas em sua positividade, possibilita “nossa abertura para o ‘alguma coisa’”((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.216) indeterminado, que é o Ser. a experiência da visão é o olhar que realiza a concreção do visível em visibilidade, na qual o sensível deixa de ser um ser de latência para tornar-se visibilidade. A visão é mais do que projeção e visada, é poder de diferenciação entre visível e invisível.

A experiência do sensível é abertura e acesso ao ser bruto, anterior à experiência das coisas, onde se dá “nossa experiência do ser bruto, que é como o cordão umbilical de nosso saber e a fonte do sentido para nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Essa enigmática abertura para o ser é a apreensão indireta e confusa de todas as coisas no seu elemento comum: ‘o invisível de sua visão, o inconsciente da consciência […]’ "”o outro lado ou o avesso (ou a outra dimensionalidade) do ser sensível”, comenta Claude Lefort¹.

A aparição ou apresentação desse Ser, plenamente e simplesmente sensível ou visível, que a poesia e a pintura buscam alcançar na experiência da visão, é o que o Merleau-Ponty chama de ser bruto, ser selvagem ou ser vertical, porque não é trabalhando pelas categorias da reflexão nem sofreu qualquer idealização. È um ser de visibilidade, que permeia o mundo em volta de mim e dentro de mim. Ele está diante de mim e é preciso apenas ver: é visibilidade intrínseca, como modo específico do Ser, não exige nem um ato subjetivo nem precisa ser aplicada ou representada, pois é anterior a qualquer reflexão ou posição do sujeito. É um ser que não é objeto de pensamento, já que eu percebo por contato: sinto, percebo, vejo, e faço parte dele. Em virtude dessa universalidade do sensível, a visibilidade deixa de ser conseqûencia ou efeito de um ato subjetivo:

“Característica do percebido: já estar aí, não ser pelo ato de percepção, mas ser a razão desse ato, e não o inverso. (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.272).

O Ser bruto é a região do sensível, pré-reflexiba e selvagem, anterior às separações e representações do pensamento, da qual brotam as categorias reflexivas e que está na origem das relações corpo/mundo e mundo sensível/mundo inteligível. Ele é o substrato das coisas e de toda experiência; é o solo originário, de onde brotam toda experiência e toda relação entre consciência e mundo. O ser bruto é a nova forma de ser no mundo natural, que aparece como presença pré-reflexiva e pré-humana e que constitui o Ser no seu estado selvagem. A descrição do visível e do ato de ver obriga-nos a rever nossa ontologia e a buscar um significado novo no Ser: a visibilidade instrínseca do ser, que se faz aparição ou visibilidade, que exclui as categorias subjetivas da percepção e da reflexão, visto que se manifesta no corpo e nas coisas e é “mistura do mundo e nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.138). “é ‘empiètement’ [invasão] de tudo sobre tudo, ser de promiscuidade” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.287).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 164)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Entre a Poesia das Imagens e o Imaginário da Criação: A Ronda Noturna de Bachelard

Por: Edinaldo Bezerra de Freitas(1)

Texto original retirado da Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. O artigo abaixo é interessante para filosofos e artistas criadores. Yiuki Doi

É encontrar uma espécie de elo perdido. A obra de Bachelard parece nos conduzir até aquele espaço onde acontecem encontros: ciência e poesia, razão e sentimento, matéria e espírito. É desconcertante, ao mesmo tempo tão obvio, complexo e tão elementar. Não restam dúvidas, estamos diante de um dos maiores e mais seminais pensadores do ocidente. Produtor e produto da demanda de conhecimentos de um nosso mundo contemporâneo, um mundo tão cheio de soluções e contradições, tão longe e tão perto da vontade potencial de achar a fórmula da alquimia elementar, e ao mesmo tempo tão fora de possibilidades, senão, de um mundo de exclusão e inclusão de consumos vazios. A paradoxal filosofia de Bachelard parece mesmo com a vida, essa imensa e tão simples força de querer ser que se institui e se extingue a cada momento se revelando tão apenas criação...
E quando se fala de fim de ideologias, fim das utopias, até fim da história, mister se faz conduzir o olhar para a imaginação, porque carecemos de criar novas direções, dar novos sentidos, repensar pensamentos, sobretudo sonhar. Que o eco de Bachelard nos dê alento para elegermos a profundidade das imagens como método para conhecer. Sobretudo, conhecer Bachelard. Ave Bachelard !

A Complexidade Essencial
Ou, O Novo Espírito Científico


Demandando o que chama “A Complexidade Essencial”, Bachelard nos apresenta a sua filosofia do Novo Espírito Científico. Para constituir a complexidade, lembra de início, existem duas metafísicas básicas na cultura científica moderna: o Racionalismo e o Realismo. Tais categorias, lembra o autor, além de naturais e convincentes, implícitas e obstinadas, são também contraditórias. É nessa conjuntura que aparecem, a questão maniqueísta do chamado conhecimento objetivo e sua contraparte de conhecimento chamado subjetivo. O primeiro dilema estaria em opor estas duas faces do conhecimento enquanto categorias de tendência universalista ou total. Bachelard nos conduz a dialetizar.
Polarizando estas duas faces da ciência, temos quase sempre o engendramento de cada uma em ter que lançar mão de sua contrária. O primeiro deslize seria a própria substituição das metafísicas intuitivas e imediatas em tão somente metafísica “discursiva”. Nessa direção, parece ser no mínimo ambíguo, o duplo sentido da prova científica, que se afirma na experiência e no raciocínio, como realidade e como razão. A ciência contemporânea resumidamente, teria como principal alvo, atingir “a síntese das contradições metafísicas”. Lembrando a trajetória racional prevalecente no pensamento científico desde a antiguidade até o início do mundo moderno (de Aristóteles até Bacon), Bachelard nos convida a refletir sobre o vetor racionalista, apondo a questão, o porque da ausência do percurso contrário, ou seja, do porque um pensamento que migra do real para o racional e nunca, no sentido inverso, do racional para o real. Desta forma, ao mesmo tempo que questiona, a filosofia bachelardiana mora justamente no racionalismo, na realização racional, reafirma - com sua própria feição de contradição e limites - o próprio sentido de apreender o ensinamento da realidade.

Bachelard
Apresenta assim o tempo contemporâneo como o período do realismo técnico, quando “cada hipótese é síntese”, e onde a questão da razão é transferida do “porquê” para o “porque não”, a parologia ao lado da analogia. Usando um sutra nietzscheano, lembra o autor que na história “tudo o que é decisivo só nasce apesar de”.
Nessas circunstâncias, o projeto de Bachelard é a de compor e opor uma epistemologia não-cartesiana, indo assim na direção desse novo espírito científico contemporâneo. Dialogando com as grandes descobertas cientificas do seu tempo, lembra o filósofo, ele próprio não trás necessariamente as novidades das descobertas, mas a novidade de um método. É portanto nesse campo metodológico que o texto procura se conduzir. Um método posto exatamente na encruzilhada dos conhecimentos, um método onde o realismo e o racionalismo trocam entre si infinitos conselhos e onde demande atingir uma meta: a renovação em si dos seus objetos.
Nesse endereço, lembra o autor, está a única psicologia possível para o cientista, simplificando o real e complicando a razão, explicando a realidade e aplicando pensamentos. Nem entregues a nós próprios (o mundo como nossa representação), nem apenas sociedade (o mundo como convenção nossa), mas o mundo como verificação nossa, acima do sujeito, acima do objeto imediato. Um conhecimento “projeto”. Como dedução: O real não se mostra - o real demonstra-se. Ou ainda mais sintético, diante de dinâmicas contraditórias e indefinições. Perceber o paradoxo de ser o pensamento científico, aquele que melhor permite estudar o problema psicológico da subjetivação...
O caráter inovador do espírito científico teria pois que aferir um lugar para o conhecimento onde a ontologia do complemento se realize de maneira “menos asperamente dialética que a metafísica do contraditório”.
A partir destas aceptivas Bachelard vai de encontro ao conjunto dos conhecimentos científicos modernos, analisando a geometria, a mecânica,a física e a matemática como espaços de construção da dicotomia do conhecimento dialético. Daí, vai finalmente deparar-se com a dicotomia do conhecimento determinista e o indeterminismo. Da astrologia até a astronomia newtoniana, passando até às categorias kantianas, onde o “a priori” reflexivo está posto como contra face de certezas. Determinismo como simplicidade, como restrição experimental.
Nesse sentido, voltando ao dilema real e racional, aparece assim a permanente crise do realismo, a revolução frutuosa da reclassificação do real e o profundo movimento de transformação advindo do reino do abstrato.
O desafio portanto é metodológico, o caminho da superação permanente dos métodos do passado e o perpétuo progresso na procura de novos métodos. Nessa condução, lembra o autor, as relações de incertezas devem ser interpretadas como obstáculos à análise absoluta, “numa condenação da doutrina da natureza simples e absoluta”, ao contrário do exercício enriquecedor do paradoxo. Por fim, lembra Bachelard, o espírito científico é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento do quadro do conhecimento, onde pela didática da super- ação a ciência aceita o desafio de instituir novos percursos.

As Aparências dialéticas do Conhecimento
Ou, A Psicanálise do Fogo.


Ao propor uma Psicanálise do Fogo o filósofo Bachelard procura empreender o desvendamento das aparências do saber. Romper com o objeto imediato, a primeira observação. Como num processo de recusa sistemática, propõe-nos a tudo criticar: a sensação, o senso comum, a prática constante e a etimologia, até porque, lembra, o verbo raramente coincide com o pensamento. Para tal caminho, longe do maravilhamento, aponta o lugar da ironia.
Apondo Ciência e Poesia, a trilha sugerida é da complementaridade, numa performance de união equilibrada. Para refletir sobre tais dilemas, o autor aponta para o problema psicológico de nossas convicções sobre o fogo. Pois que a pergunta se revela: O Que é o fogo?
Posto num universo de objetivação impuro, o fogo parece ser esse lugar bom para pensar. Nele estão inclusas a intuição pessoal e as experiências científicas, a subjetivação e a objetivação. Aporta aqui o Devaneio. Segundo Bachelard esse sentimento complexo não cessa de retomar os temas mais primitivos e se infiltra sem embargo no próprio espaço do pensamento e de chofre, também nas experiências científicas. Na História, tal fato registra-se permanentemente, daí, uma espécie de fuga, diz o autor, para curar o espírito da felicidade. A meta pois, é realizar uma psicanálise das convicções subjetivas.
O fogo, essencialmente duplo, realiza pois a síntese da conexão objetivo/subjetivo e em contrapartida comporta a marca do falso peso dos valores não discutidos. Como pois ir de encontro à barreira da intuição primeira? O zombar de si mesmo?
O fogo e o calor respeitam inicialmente às essencialidades. O bem e o mal aí se localizam. Contraditório, facilmente se presta a princípios de explicação universal. Aqui se insere o mito de Prometeu. No entanto, pouco se percebe ser o fogo muito mais um ser social do que natural. Desta forma, ensina o mito, as interdições sociais são primeiras à própria experiência natural. Em Prometeu sabemos, estamos diante da questão da desobediência engenhosa. Afinal é preciso dominar o fogo, mesmo com o rico da queimadura, como os deuses, como o pai, como o patrão....
Assim, Prometeu é um outro Édipo. O complexo de Prometeu é o da vida intelectual. Do ter que escolher entre saber e fabricar, sem ser necessário correlacionar tais aspectos com a vontade de poder. Portanto, Vontade de Intelectualidade, além de pragmatismos e intuições.
É necessário, lembra Bachelard, substituir o estudo dos sonhos pelo mais instrutivo estudo do devaneio (fogo), substituindo valores, trabalho e repouso, alimento e gastronomia, penúria e alegria. A conquista do supérfluo produzindo excitação espiritual além da conquista do necessário. O HOMEM COMO CRIAÇÃO DO DESEJO, NÃO CRIAÇÃO DA NECESSIDADE.
O sonho sugere o desejo da mudança, da transformação, mutação, do pequeno em grande, a lareira e o vulcão, a fogueira como renovação. Deste ápice de contrários, entre vida e morte, aparece o Complexo de Empédocles.O homem, o conhecimento, a abismo.
Propõe-se assim Bachelard realizar a psicanálise indireta e segunda, buscando o subconsciente sob o consciente, o valor subjetivo com a evidência objetiva, o devaneio sob a aparência. Estudando o sonho, escondido na experiência que lhe apagou. Além da explicação racionalista, imediata e prática, do fogo pela fricção, da sexualidade aí contida, dos componentes da libido localizados em todas atividades primitivas. Afinal, lembra o autor, o ensinamento de Jung: não só na arte, mas em todo trabalho humano está a sublimação da libido. O Homo Faber como uma mão e uma linguagem. Porém, alerta nosso autor, o gesto útil não deve ocultar o gesto agradável. Além da utilidade, o sonho mais íntimo, o sonho da fecundidade sob a forma mais sexual. Assim numa empreitada, unindo Frazer e seu Ramo de Ouro em paralelo a Libido de Jung.
O fogo associado à brincadeira, a festa, ao roubo. Os vários fogos: suave, sorrateiro, rebelde, violento. Um caminhar entre desejos e paixões. O fogo primitivo, medieval - alquímico e moderno e romântico. Tudo como num devaneio entre o estar junto à lareira e a inscrição do amor humano no coração das coisas. O fogo como primeiro fenômeno no qual o espírito humano é refletido. Poesia e ciência tendo início na meditação do fogo.
Fenômeno, por que o conhecer a aparência se dá com a constatação da mudança da própria aparência e primitivamente, diz o filósofo, apenas as mudanças pelo fogo são profundas. Achega-se aqui a um apelo à sublimação. Uma sublimação dialética diferente da sublimação contínua da psicanálise clássica. O fogo portanto como um problema de estrutura psicológica, pondo-se entre o sujeito e o objeto, criando intermediários entre contemplações com pretextos objetivos sobre a vida do espírito. Dialética da pureza e da impureza do fogo. Na busca do contato entre a metáfora com sua realidade, ou da raiz objetiva da imagem poética e moral.
Indo da matéria ao espírito moral, buscando certa desodorização, virtude substancial, até a idealização do fogo na luz. Física ou química do devaneio, crítica literária objetiva, metáfora mais que idealização. Dialética como estrondo que despertam ressonâncias adormecidas. Psicanalizando imagens familiares, certo de que a imaginação é a força mesma da produção psíquica. O fogo onde todo animismo vira calorismo. Na consciência do arder e esfriar e ser sem sabê-lo. Na dialética triste do homem ativo. Complexos de dor, neuróticos e poéticos, reversíveis entre chamas e cinzas.
O Complexo arcaico profundo de Jung, onde se endereçam destruir as dolorosas ambigüidades por dialéticas alertas, dando ao devaneio sua verdadeira liberdade e sua função de psiquismo criador.

A Totalidade: Forma, Dinâmica e Matéria
Ou, A Água e Os Sonhos.

Bachelard nos convida a compreender as categorias contrastantes das forças imaginantes da nossa mente - o impulso da novidade e o impulso ao primitivo e eterno. Duas imaginações: a imaginação formal e a imaginação material. Nesse entrelace diz ele, está o estudo filosófico completo da criação poética. Apostando em uma iconoclastia, propõe-se assim à tarefa de tentar encontrar por trás das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam. As raízes das forças imaginantes. Em um projeto de pensamento dialético lança luzes nessa dialogia: uma meditação da matéria educando uma imaginação aberta ; a substância e a forma ; o estudo das relações da causalidade material com a causalidade formal. Em um mundo de estéticas, do poeta e do escultor aponta para o valor essencial da matéria.
Toda forma procura sua matéria. Assim, como em um jogo de filosofia com os elementos fundamentais, re-visitando a própria filosofia primitiva e restituindo aos pensamentos sua avenida de sonhos. Cria Bachelard um sistema de fidelidade poética, apondo os sentimentos primitivos e o onírico fundamental. Apresenta-nos então o elemento Água. Feminino e mais uniforme que o fogo, elemento constante que simboliza as forças humanas mais escondidas, simples, simplificantes. Lembrando desta sorte, um certo descaso inconsciente para com o elemento, lembra o filósofo, a água aparece como elemento transitório, como uma metamorfose ontológica e essencial entre o fogo e a terra, participando de uma espécie de destino de queda, de morte cotidiana,de sofrimento infinito. As imagens da água vividas como em uma adesão irracional.
Diz Bachelard que pretende sobretudo, realizar um ensaio de estética literária, já que seu caminho é o da determinação das imagens poéticas e das adequações das formas às matérias fundamentais. A água como linguagem fluida. Apela para a materialização nata do devaneio da criança, lembrando aliás que os sonhos infantis são os sonhos das substâncias propriamente orgânicas. E que o homem que conhecemos e amamos é o homem do que se pode escrever. Fazendo um percurso de constituição da arte, afere: A arte é natureza enxertada.
Inicialmente apresenta-nos a água como espelho - Narciso, apelando para a naturalização da nossa imagem. Uma lenda do humano, do cosmo e das flores (o pancalismo) revela-nos o mundo como representações e como vontade - vontade de contemplar. A água como olho do mundo, água que vê e sonha.
A partir deste ponto, e se apoiando em vasta leitura de psicologia e filosofia, percorrendo poesias, mitologia, literaturas e sobretudo de imagens, suas e de tantos, o autor nos destina a compreender o universo imaginário das águas. Do límpido, da pureza (a moral da água) e do frescor, desde o imediato, ao complexo e profundo, da calma e do silêncio e da imaginação dinâmica da violência (complexo de Xerxes). Ora uma Água elementar da metapoética de Edgar Poe, como um movimento singular e estranho da vida das águas mortas e do sangue. Complexos - de Caronte, de Ofélia. Outra hora uma água das misturas e das combinações, sobretudo da água com a terra, em um esquema fundamental da materialidade: as massas e as ligas.A combinação dos poderes, o homo faber e a mão geométrica do homo fabricante. Nascimentos, casamentos, maternidades, mortes. Um ser total: tem corpo, alma, voz, a água como realidade poética completa. Numa demanda, como alerta o autor, de uma faculdade que ultrapasse a realidade em busca da sobre-humanidade.
Propondo uma classificação correta dos valores sensuais e os sensíveis, onde os sensuais aparecem como correspondências e os sensíveis apenas como traduções, afirma Bachelard que as formas se complementam, mas a matéria nunca. A matéria é o esquema dos sonhos indefinidos.O dilema é a verticalização, a consciência, o saber. Indo além do complexo de cultura (complexo de Nausícaa) o desafio é a imaginação da matéria, pois a verdadeira poesia é uma função de despertar.

AR: Sonho, Movimento, Vontade e Potência
Ou, O Ar e os Sonhos.

Neste ensaio Bachelard convida ao estudo do Ar como condutor da forma e da matéria: a Imaginação do Movimento. Dá início a sua viagem, apontando para a necessária superação do estado de estigmatização dos símbolos, em um apelo para a valorização da imaginação e mesmo do ato de produção das próprias e adequadas imagens. Para constituirmos interpretações múltiplas: interpretações passionais, estetizantes, racionais e objetivas.
O primeiro objeto em estudo é o Sonho de Vôo. Lembra o autor que é necessário uma forma menos estática para uma psicologia da imaginação - neste caso que contenha também ao princípio dinâmico da deformação. Para o elemento aéreo propõe-se a uma condução menos “atômica” e mais vetorial. Para o sonho de voar, lembra, trabalhamos com a dialética entre leveza e peso. Mais que isso, o sonho de voar não implicaria em fim a alcançar, mais de uma viagem em si, constituindo uma realização profunda da psique humana.Um lugar para ver como a razão trabalha o sonho, ou de como sonha a razão...
Um projeto filosófico proposto: ligar o sonho íntimo à experiência objetiva. O sonho libertando a imaginação formal, um repouso ótico e verbal. Constatação: no sonho do vôo a asa já é uma racionalização - criadora da imagem de Ícaro. O vôo onírico seria o sonho da vida instintiva - o instinto profundo da leveza, e do devaneio que une o desejo de crescer ao desejo de voar.
Entre metáforas de ascensão e de queda, diz então Bachelard, prevalece em um realismo psicológico inegável, o maior número de imagens de queda. Daí a necessidade de uma psicologia da verticalidade. Para analisar ao mesmo tempo, o impulso para o alto e a queda para o baixo. O alto prima sobre o baixo, o irreal comanda o realismo. A queda portanto em paradoxo pertence à ordem da substância e não do acidente. A imaginação da queda como uma espécie de doença da imaginação da subida (como o inferno que se reergue...).
O poder da imaginação impõe visões, a imagem antes do pensamento e da narrativa, antes da emoção. Só a imaginação material e a dinâmica podem criar verdadeiros poemas. Compreender assim o tema da queda para o alto. Luz e peso comandando a vida psíquica, a imaginação unindo pólos.

Bachelard
comenta o trabalho propedêutico de Robert Desoille. Procura assim a dinâmica da imaginação e da vontade: sabe querer quem sabe imaginar. É desse patamar que insere a filosofia de Nietzsche para o psiquismo ascensional. Dos valores morais, o poeta vertical, o poeta das alturas. Desta forma, apresenta-nos o filósofo alemão pelas negativas do seu envolvimento com os elementos: da terra por que esta não possui os devaneios da intimidade, e pela sua opção de filosofar, não pela porta da matéria, mas da ação, e mais ainda pela imaginação dinâmica que material; da água por que esta não determina devaneios materiais; e nem mesmo então do fogo, já que tal elemento nele aparece apenas como fator de transmutação, mais com características dinâmicas, que riqueza substancial. Para Nietzsche, o ar seria a substancia mesma da nossa liberdade. A alegria aérea é liberdade. O Ar como dinâmica ofensiva e triunfante: o frio, o vazio, o silêncio, a altura...
A filosofia e a poesia de Nietzsche como um estudo da aurora ativa, do despertar tonificado, da vida vertical apreendida por uma longa aprendizagem.Assim, com o filósofo alemão, Bachelard diz ser possível separar em dois tipos a imaginação da vontade: a vontade-substância (shopenhaueriana) e a vontade-potência nietzschiana. A imaginação dinâmica dando imagens adequadas do querer, em um trabalho de mundo ascensional. A imaginação de forma mais que a razão, como unidade da alma humana do ser e da moral solidários. Para um despertar universal - O Zaratustra.

A Introversão da Matéria
Ou, A Terra e os Devaneios do Repouso


Todo conhecimento da intimidade das coisas, diz Bachelard, é imediatamente um poema. Como a contradição é fundante, depois de ter analisado no elemento terra os devaneios da vontade, com suas solicitações dinâmicas, onde a imaginação ativista que pela vontade sonha e dá futuro à sua ação, o filosofo pensa o repouso Após apontar para o homo faber ajustador, modelador, fundidor, ferreiro, que procura a matéria que sustenta a duração da forma e que portanto se manifesta na conjunção do signo contra, nesta obra o filósofo propões analisar a preposição dentro. A terra como o interior, a terra como o conteúdo básico, a terra subjetiva.
Dialeticamente, Bachelard, busca uma síntese ambivalente que unifique o contra e o dentro. Processos de extroversão e introversão. O método, lembra o autor, é o da imaginação como o percurso do sujeito transportando às coisas. Assim toda matéria meditada torna-se imediatamente a imagem de uma intimidade, de uma substância transformada em valor. Como uma afetividade enraizada no inconsciente e substanciada de interesses. Temos uma obra sobre as imagens do repouso, do refúgio, do enraizamento: Onde estão os lugares fundantes da casa, do ventre a caverna, os endereços correspondentes das potências noturnas e subterrâneas.
Na busca pelo oculto, lembra o filósofo, aparecem os diversos tipos de perspectivas de ocultamentos: a projeção anulada, ou do objetivo do não-receber, a perspectiva dialética ou invertida em projeções do pequeno, a perspectiva maravilhada e aquela da intensidade substancial infinita.
Diz Bachelard que as imagens como forças psíquicas primárias são mais fortes que as idéias, mais fortes que as experiências reais. As perspectivas dialéticas do interno e do externo seriam por vezes como aquelas de por e tirar uma máscara. A perspectiva do maravilhoso é o descobrir o interior esculpido, a prodigalidade da intimidade do interior revelando as faces exteriores da natureza e da cultura. As perspectivas de intensidade infinitas nas imagens, apontam para a diferença entre cor e tintura, sendo a cor uma sedução das superfícies, a tintura uma verdade das profundezas.
Mas há também a intimidade em conflito. A agitação como multiplicidade no combate das substâncias e as imagens da discórdia íntima. Nessa direção, atingimos a imaginação da qualidade: Ritmanálise e tonalização. Os degraus do movimento. Lembra assim o filósofo que a maior luta não é travada contra forças reais, é travada contra as forças imaginadas. O homem como um drama de símbolos.
Interior e repouso são pensados no “Complexo de Jonas”. Propondo recolocar as imagens na dupla perspectiva dos sonhos e dos pensamentos. Realidade e sonho na busca de saber o que cada um tem no ventre. Jonas como lugar para pensar a profundidade da imagem, ativando imagens superpostas e apontando para o alimento, o ventre, a morte.
Aproximando as palavras e as coisas, Bachelard apela para a profundidade, já que diz ele, os seres escondidos e fugidios esquecem da fuga quando o poeta os chama pelo verdadeiro nome. A obra deste filósofo é o de reviver as formas sonhadoras no interior das coisas, abrindo o “último broto do porvir” (Eluard.)

A Carne dos Símbolos.
Ou, A Terra e os Devaneios da Vontade.

Diz Bachelard que a imaginação concreta da matéria terrestre possui dificuldades e paradoxos sem fim. Lembrando as palavras de Baudelaire, aparece aí mais um paradoxo: “quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mas sutil e laborioso é o trabalho da imaginação”. O dilema é o bem ver, mais ainda, o bem sonhar. A pista é o de localizar o caráter primitivo da psique fundamental, a imaginação criadora, e o ir além da imaginação reprodutora. O encontrar da imagem imaginada.
Novamente aqui Bachelard aponta para o caminho da imaginação literária. Lugar de reanimação de uma linguagem, lugar de criação de novas imagens. Tempo das imagens, no século das imagens, o filósofo lembra a dependência crescente a que estamos submetidos à ação de todas as imagens. A terra como devaneio da vontade é a eleição da extroversão, do ativo, do convite a agir sobre a matéria. É hora de dicotomizar o trabalho contra o repouso. A dialética do duro e do mole, e o papel fundamental da resistência. Mas, lembra o autor, o sim e o não se dizem mole e duro. Sobretudo a consciência do trabalho, da matéria modificada pela mão: matérias duras, imagens da massa e as matérias da moleza. Os minerais, as substâncias cristalinas, as imagens da pérola. A temporalidade do contra recebendo as inscrições da consciência deste trabalho. Uma síntese possível: a matéria forjada. O devaneio da vontade de poder: o complexo de Medusa.
A vontade incisiva leva a compressão do caráter agressivo das ferramentas. Complemento da destruição, coeficiente de agressão contra a matéria. A cultura material e a arqueologia dão parâmetros classificatórios para os sólidos: os sólidos estáveis, os semiplásticos, os plásticos e os sólidos maleáveis (Leroi-Gourhan). Reinos da forma administrada. Aparece assim a metáfora da dureza, reino de poucas experiências efetivas e no entanto, fonte de um número incalculável de mil imagens.
No jogo dinâmico entre o céu e a terra, sugere Bachelard, precisamos desenvolver uma psicologia da gravidade - dessa queda contínua, das imagens do esmagamento, o complexo de Atlas, fomentando o apego às forças espetaculares, forças enormes, forças inofensivas, forças que não podem se não ajudar o próximo. Imagens da gravidade e imagens da altura até o imaginário da resistência. Uma seqüência e um círculo infinito e fundamental: as imagens místicas infernais, as imagens mitológicas infernais, as imagens do inconsciente pessoal, as imagens mitológicas superiores, as imagens místicas celestes.

A Alma: Indo além da Metáfora, A Imaginação da Matéria.
Ou, A Poética do Espaço

Nesta obra, Bachelard enfrenta o desafio infinito de compreender a própria imaginação poética. Para isso propõe pontilhar o tecido do êxtase:a novidade da imagem. A imagem no tempo presente da própria imagem, em sua própria ontologia. Para tanto, lança mão de um método: se distanciar da causalidade para procurar a repercussão. Uma fenomenologia da Imaginação. A imagem vista como produto direto do coração, da alma, da atualidade do homem.
Fenomenologia. Conhecimento que parte de uma consciência individual, encarna o sentido da trans-subjetividade e alcança o efeito variacional. Como meta, propõe o filósofo, é mister acumular documentos sobre a consciência sonhadora.
Instituindo matizes seminais da compreensão, o filósofo afere para a diferença entre os sentidos contidos em palavras como alma e espírito, procurando editar um sentido mais pleno para a palavra alma, alçada assim enquanto identidade total, como Logus. A alma como o lugar da sublimação pura. Estudar o espaço torna-se então sobretudo uma topofilia.
Assim, Bachelard nos remete a investigar as imagens da casa, das partes da casa como compreensões de mundos e de sentidos, e da casa em si como universo. E vai entrando nos interiores das gavetas, cofres, armários. Entre portas e chaves. O ninho para os vertebrados e a concha para os invertebrados. Os cantos, a miniatura, a imensidão íntima e a dialética entre interior e exterior, até chegar até uma proposta ontológica - a fenomenologia do redondo.
Sobretudo, o autor nos conduz a superar o imediato da metáfora. Em um diálogo e em contradição com a filosofia de Bérgson, procura ir além, propondo o conduto da imagem como obra da imaginação absoluta. Para Bachelard é necessário extrair todo o ser da imaginação. Alimenta assim um conceito de metáfora como construção de corpos concretos, da dificuldade de expressão, daí a metáfora estar assim colocada em relação a um ser diferente dela.
Ao contrario da metáfora, propõe Bachelard, a uma imagem podemos dar o nosso ser de leitor, sendo portanto ela mesma doadora de ser. A imagem como obra pura da imaginação absoluta torna-se um fenômeno do ser, nesse caso específico do ser falante. Imaginação, matéria e poesis, a relação da alma do mundo.

Anima
O Devaneio como Caminho da Consciência.
Ou, A Poética do Devaneio.

O Método fenomenológico, segundo Bachelard tem a capacidade de iluminar a consciência do sujeito maravilhado pelas imagens poéticas. Mas imagens poéticas se fundamentam sobremaneira em devaneios, em origens absolutas. O próprio ser assim percebido sendo um porvir da linguagem.
O devaneio, como fenômeno comum é concebido apenas como distensão psíquica. Como elemento da consciência no entanto é reforço da coerência. Elege-se assim o devaneio poético, transmissível, escrito com a emoção, com gosto.
O autor nos convidar a debater as complexas e móveis relações entre uma psicologia do devaneio, onde se observa o sonhador, e uma fenomenologia das imagens criadas da linguagem poética: a Fenomenologia do Imaginário. A proposta se transpõe através do devaneio, numa confiança no universo, onde “o homem pode tornar-se tudo” e onde se mesclam vidas diurnas e noturnas.
O devaneio acentuando o nosso repouso, contribui com a felicidade, porquanto esta construída na relação do amor sobretudo das quimeras. Para o filósofo, tal caminho está circunscrito na própria coerência do sonho, na loucura das palavras, no sonho das palavras. Distingue-se assim o devaneio do sonho noturno. Enquanto este tradicionalmente mais masculino, aquele assim tomado como característico da essência feminina-ãnima.
Correlacionando as distinções entre memória e imaginação, diz Bachelard que a memória sonha e o devaneio lembra. O poético cria um complexo de memória e imaginação densa. É esse o lugar da criança que sempre somos. O devaneio voltado para essa criança institui o tempo elegíaco.
Revendo Descartes, o autor procura questionar “o cogito do sonhador”, duvidando de seu enunciado clássico e contrapondo a ele o cogito do devaneio, o eu poetizador.
O devaneio assim ajuda-nos a habitar o mundo, a habitar a felicidade do mundo. Imagens cósmicas são filosoficamente obtidas como pensamentos. Para o imaginário, são distensões de devaneio, comunhões de devaneios, cosmo-análise. Devaneio sem responsabilidade, sem carência de provas. Afinal, lembra o filósofo francês, imaginar um cosmos é o destino natural do devaneio.
Enfim, diz Bachelard, toda nossa vida é leitura e estão nos livros os nossos documentos. Apelando para a fome nossa de cada dia, demandando o paraíso da imensa biblioteca. E a poesia - ápice da alegria estética, nos ajuda a respirar livremente, mostrando a factícia de toda angústia.
Pensando assim, Bachelard lança luzes no reconhecimento do mundo, o dia iluminando a noite e a noite dando sentido ao dia. Como se o perceber das diferenças nos conduzisse para constituir unidades e como se cada realidade se mostrasse complexa em suas contradições. Sobretudo, na alusão de uma dimensão onde imagens e sentidos dialogam. Uma nova alquimia, uma nova dialética, uma poesis. Ler Bachelard parece nos por em contato com nosso próprio ser e nesse ínterim e íntimo, nos sussurra a vontade de consciência: a olhar nosso próprio olhar, ou melhor ainda para o poder conscientemente construir esse olhar.


NOTAS
1) Doutor em História pela USP e integrante do Centro de Estudos do Imaginário. . Volta

sábado, 31 de dezembro de 2011

Desconexão… Olafur Eliasson

“MUITAS PESSOAS VÊEM O ESPAÇO URBANO COMO UMA IMAGEM EXTERNA COM A QUAL ELES NÃO TEM MENOR CONEXÃO, NEM MESMO FÍSICA.” (Olafur Eliasson)


O artista dinamarquês Olafur Eliasson colocou cachoeiras no centro de Nova York e tingiu de verde um rio de Estocolmo. Seu objetivo: fazer com que o cenário urbano volte a ser percebido pelos moradores dos grandes centros (texto retirado da revista Bravo: Ensaio sobre cegueira)


INHOTIM – Minas Gerais: Olafur Eliasson, By Means of a Sudden Intuitive Realization, 1996, Iglu de fibra de vidro, água, iluminação estroboscópica, bomba d’água e plástico, 300 x 510 cm, foto Eduardo Eckenfels

Copenhague, Dinamarca, 1967; vive em Berlim

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Integração ;) by Merleau-Ponty

“Eu percebo de uma maneira indivisa com meu ser total, eu apreendo uma estrutura única da coisas, uma maneira única de existir que fale ao mesmo tempo a todos os meus sentidos.” (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.101)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Epoché – Husserl

Retirado do site: http://www.filosofante.com.br/?p=784

Para falar de Husserl necessitamos de definir o conceito de “Epoché”, porque sem isso a maioria não o compreenderia. “Epoché” deriva do grego antigo e significa “paragem”, “interrupção” ou “suspensão de juízo”.

Segundo Husserl, “Epoché” significa a suspensão do mundo, como que parado no tempo, embora com todas as suas características presentes e, por isso, passíveis de serem analisadas “de fora”, por um observador exterior. O “Epoché” de Husserl que suspende o mundo no tempo e no espaço, permite a quem medita conhecer-se a si próprio e tomar consciência da sua própria essência, e a autoconsciência adquirida desta forma é o “eu puro” de Husserl (ou o “eu transcendental”).
Existe na essência do “Epoché” de Husserl uma ideia de desprendimento espiritual em relação às coisas mundanas, porque através do Epoché, “nos tornamos observadores desinteressados do mundo”. Existe algo de mediúnico (no sentido espiritualista) na filosofia de Husserl, quando ele dá a primazia à intuição da essência em detrimento dos fatos mundanos; trata-se de uma “ciência” teórica (contemplativa), intuitiva e não-objetiva.

Caracterizando a qualidade metodológica da Epoché, Husserl nomeou duas etapas principais de redução (“suspensão”), no caminho de uma filosofia fenomenológica:

a) Redução Psicológica: é a recusa, como filósofo, em aceitar a evidência empírica, de uma atitude natural, como sendo suficiente para a fundação de um verdadeiro conhecimento. Resumidamente: a primeira etapa da Epoché estará realizada quando tudo que nos é exterior, mesmo as outras pessoas, estiver colocado “entre parênteses”.

b) Redução Fenomenológica ou Transcendental: para Husserl, a característica da “atitude natural” não se limita à forma pela qual nos relacionamos com o mundo exterior; também os atos da consciência e o “eu” podem ser tratados como o mundo externo. Husserl propõe então que coloquemos também “entre parênteses”, a própria consciência, o “eu” e os seus atos. É preciso refletir sobre o refletido. É preciso pensar o pensado (reflexão transcendental). Passamos, assim, do ego cogito cartesiano para o ego cogito cogitatum da fenomenologia husserliana (HUSSERL, E. [1972 (1913)] Ideas I- General Introduction to pure Phenomenology, New York: Collins Books, p. 155 a p. 165).

 


ANOTAÇÃO DO YIUKI: Outros termos do Epoché:

  • Observador estrangeiro (Merleau-Ponty)
  • Pensamento de sobrevôo (Merleau-Ponty)
  • Zoom Out
  • Ilusão de extraterritorialidade (Prigogine já adepto ao entendimento de que o ser humano é carnificado no mundo, usa já o termo ilusão para definir o Epoché)

NATURALIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE

“Vinculo e parentesco entre a mente e o corpo é realizado por um processo de “naturalização” da consciência e da subjetividade a partir do corpo, em que a vida biológica, psíquica e mental, sensível e inteligível encontram-se reunidas em uma unidade indivisível. É o que denominamos “naturalização” da subjetividade. Enraizar a consciência e a subjetividade no corpo e trazê-las para a esfera do “mundo da vida” e do “sensível” significa considerá-las como fenômeno e experiência “naturais”.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 14)

A despeito da concepção clássica da consciência ou da subjetividade entendidas como realidade mental ou espiritual, a idéia de “naturalização” introduz na subjetividade uma “historicidade” biológica e cultural. A “naturalização” mostra  támbém, ao contrário do que pretendem o realismo e o positivismo, que a objetividade epistemológica não é um atributo ou propriedade ontológica da coisa ou da realidade em si, mas é relativa e dependente da experiência perceptiva. A objetividade, portanto, não se funda na coisa ou objeto em si, mas no objeto enquanto percebido e fenômeno. Porém, a contribuição mais significativa consiste em mostrar, com Merleau-Ponty, que a corporalidade e o significado estão no âmago da subjetividade.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 21)

“… Merleau-Ponty naturaliza a consciência, isto é, introduz e insere a consciêcia no “mundo da vida”, por meio do comportamento de um organismo agindo como  uma “estrutura”, (unidade, totalidade, interioridade) com relãção ao meio exterior, o que lhe confere um significado ou forma ainda não refletida nem inteligível.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 24)
Nota do Yiuki: Merleau-Ponty criticava da ciência fisiológica e da pscicologia experimental que explicava o comportamento humano por modelo ontologico cartesiano de diplopia baseado na causa e efeito através de uma ação reflexiva mecânica e/ou de propriedade física-quimica do corpo humano.

domingo, 20 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

O que é arte? Nietzsche

“O que é arte? capacidade de criar o mundo da vontade sem vontade? Não. É reproduzir o mundo da vontade sem que o produto final tenha a sua vontade. Portanto, pode-se dizer que é a produção da falta de vontade pela vontade e instintivamente. Quando se tem consciência, chama-se isso de trabalho manual. Em contrapartida, é evidente o parentesco com a procriação, só que, nesse caso, surge novamente a abundância de vontade.

Nietzsche

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

FIGURINO

O bom figurino de teatro: ele deve ser material o bastante para significar e transparente o bastante para não constituir seus signos em parasitas. O vestuário tem como função seduzir os olhos, não convencê-los'. Roland Barthes (2009, p.85)

domingo, 26 de junho de 2011

CORPO CÊNICO, ESTADO CÊNICO - por Eleonora Fabião

ATENÇÃO: texto abaixo retirado do site: http://www6.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/2256 A cópia aqui é somente para que eu possa revisitar o texto nos momentos de pesquisa.

Costumo escrever notas antes do treino, pensamentos para trabalhar na sala de ensaio.
Então, suo essas ideias e novas anotações surgem. Acontece também de maturar experiências de espetáculo escrevendo. Outras vezes, a escrita deriva das leituras como outra etapa da pesquisa.
Gosto igualmente de conversar com meus pares, de entrevistá-los, de perguntar-lhes o que me pergunto, de saber o que eles se perguntam. E, em alguns momentos, simplesmente preciso da palavra escrita, preciso esculpir massa verbal para seguir investigando. Selecionei e elaborei algumas notas – aqui proponho uma reflexão sobre corpo cênico e estado cênico.

*

Imagino a praia às nove da manhã. Maresia, azul e luz. Lembro da sensação da correnteza repuxando as pernas e os passos, do impacto firme da primeira onda e chuá.

Mergulho: água fria no couro cabeludo quente.

Submersa: que passem por mim ondas de ondas, fluxos e refl uxos do tempo.

Olho em volta: a firmeza da paisagem apesar do mar, do vento e do pássaro: a vertigem do fixo-móvel.

Já fora d’água: o corpo distendido no espaço.

A praia se foi com uma onda e eu fi quei na sala – salgada.

Imaginar transforma a matéria.

Rememorar transforma a matéria.

O corpo cênico experimenta espaço e tempo potencializados e, também, o corpo cênico potencializa tempo e espaço.O corpo da cena investiga temporalidade e espacialidade, inventa minutagens e métricas, ocupa dimensões simultâneas do real. O nexo do corpo cênico é o fluxo. O passageiro, o instantâneo, o imediato – rajada, revoada, jato. Nascendo e morrendo; nascendomorrendo. O corpo fluido e fluidificante é a matriz espaço-temporal da cena.

Em Beyond boredom and anxiety – estudo sociológico sobre a experiência do fluir que reúne depoimentos de alpinistas, dançarinos, compositores, jogadores de basquete, enxadristas, cirurgiões e professores – Mihaly Csikszentmihalyi diz: “Em estado de fluxo, ações sucedem-se de acordo com uma lógica interna que parece dispensar intervenções conscientes do agente. O agente experimenta a ação como um fluxo contínuo de momentos em que exerce controle absoluto da situação e no qual há apenas uma pequena distinção entre self e meio, entre estímulo e resposta, entre passado, presente e futuro.” (2) De acordo com o autor, o estado de fluidez é um estado alterado de consciência, ou seja, um comportamento fora dos padrões cotidianos de conduta, provocado pela realização de uma ação que envolve o agente de forma total. Aqui, “controlar a situação” é lançar-se com precisão. O autor contrapõe a ações automatizadas, dispersas e desatentas ao mundo, relações des-automatizadas, íntegras e engajadas de perceber, gerir e gerar o real.

O fluxo abre uma dimensão temporal: o presente do presente. A capacidade de conhecer e habitar este presente dobrado determina a presença do ator. Perder-se nos arredores do instante – na ansiedade do futuro do presente ou na dispersão do passado do presente – faz com que o agente se ausente de sua presença. A qualidade de presença do ator está associada à sua capacidade de encarnar o presente do presente, tempo da atenção. O passado será evocado ou o futuro vislumbrado como formas do presente.

O corpo cênico está cuidadosamente atento a si, ao outro, ao meio; é o corpo da sensorialidade aberta e conectiva. A atenção permite que o macro e o mínimo, grandezas que geralmente escapam na lida quotidiana, possam ser adentradas e exploradas. Essa operação psicofísica, ética e poética desconstrói hábitos. Atentar para a pressão e o peso das roupas que se veste, para o outro lado, para as sombras e os reflexos, para o gosto da língua e o cheiro do ar, para o jeito como ele move as mãos, atentar para um pensamento que ocorre quando rodando a chave ao sair de casa, para o espírito das cores. A atenção é uma forma de conexão sensorial e perceptiva, uma via de expansão psicofísica sem dispersão, uma  forma de conhecimento. A atenção torna-se assim uma pré-condição da ação cênica; uma espécie de estado de alerta distensionado ou tensão relaxada que se experimenta quando os pés estão firmes no chão, enraizados de tal modo que o corpo pode expandir-se ao extremo sem se esvair.

No palco não há imunidade. O olhar é palpação, o movimento ação, e ser, relação. Ação ecoa, voz preenche; o corpo sempre interage com algo, mesmo que seja o vazio. Ou, ainda, no palco, vazio não há, pois que se tira tudo e resta latência. Vazio cênico é latência – no palco o nada aparece, silêncio se escuta. E você imerso nesse campo de forças, nesse sistema nervoso, nessa massa de rastros passados e futuros, presenças passadas e futuras. E você experimentando a textura desse vazio-pleno, incorporando e esculpindo essa latência. E rememorar e imaginar e evocar e inventar e atentar para corpos que contigo se comunicam, que através de ti se comunicam. O teu corpo, esse palco. O corpo, esse palco fluido.

A conexão atenta consigo mesmo, com o outro e com o meio, transforma o que seria uma sucessão linear de eventos em ações-reações imediatas. A temporalidade do fluxo desconstrói as etapas do processo expressivo, digo, dilui o minúsculo espaço de tempo entre pensar e agir, entre estímulo e resposta, entre sentir e emitir. Quando em fluxo, o ator não expressa um estado, ele vibra em estado. Aqui, o corpo não é um sólido perspectivado, mas uma membrana vibrátil – à profundidade contrapõe-se densidade planar, à solidez contrapõe-se vibratilidade, à dicotomia dentro/fora contrapõe-se o entrelaçamento dentro-fora. Ou, como sugere Suely Rolnik ao pensar os objetos sensoriais e relacionais de Lygia Clark, “o corpo vibrátil é aquilo que em nós é ao mesmo tempo dentro e fora, o dentro sendo nada mais do que uma combinação fugaz do fora.”(3)

O corpo é sólido, pastoso, gelatinoso, fibroso, gasoso, elétrico, líquido. O corpo acontece em densidades cambiantes. Estamos permanentemente vibrando, uma vibração mínima. O adjetivo “vibrátil” nomeia não apenas essa condição de combinarmos e cambiarmos densidades permanentemente, mas também um tremular contínuo, a oscilação entre ser e não ser, entre vida e morte, entre arbítrio e determinismo que encarnamos. A cena exacerba a condição vibrátil do corpo. Porque hiper-atento, o corpo cênico torna-se radicalmente permeável. Contra a ideia de corpos autônomos, rígidos e acabados, o corpo cênico se (in)define como campo e cambiante. Contra a noção de identidades definidas e definitivas, o corpo-campo é performativo, dialógico, provisório. Contra a certeza das formas inteiras e fechadas, o corpo cênico dá a ver “corpo” como sistema relacional em estado de geração permanente. O estado cênico acentua a condição metamórfica que define a participação do corpo no mundo. A cena mostra, amplifica e acelera metamorfose, pois intensifica a fricção entre corpos, entre corpo e mundo, entre mundos.

O corpo vibrátil é o corpo do “entrelaçamento.”(4) O corpo cênico conhece e se dá a conhecer por entrelaçamento. O espectador não é vidente e eu visível; somos ambos videntes e visíveis, tateadores e táteis, atores e espectadores. Vista do palco, a plateia é um espetáculo de estranha beleza. O entrelaçamento é a condição que todo participante do evento teatral tem de, simultaneamente, ver e ser visto – ver-se vendo, ver-se sendo visto, ser visto vendo, ser visto vendo-se.

Daqui, vejo o palco como o mundo percebido e criado por Merleau-Ponty, esse espaço do estar em permanente vir-a-ser por ser-no-mundo, esse mundo de afinidades com a “carne.” No palco, assim como na filosofia de Merleau-Ponty, o sujeito não possui um corpo, mas é corpo; o mundo não é ocupado pelo corpo, é uma de suas dimensões. O filósofo pergunta: “Onde estamos, onde nos posicionamos, para estabelecer um limite entre o corpo e o mundo já que o mundo é carne?”(5) E entrelaça: “Em vez de rivalizar com a espessura do mundo, a espessura do meu corpo é, ao contrário, o único meio que possuo para chegar ao âmago das coisas, fazendo-me mundo e fazendo-as carne.”(6) Reciprocidade, essa é a energética fenomenológica. “A carne não é matéria, não é espírito, não é substância. […] A carne é um elemento do Ser.”(7) Conectividade, essa é a potência da “carne.” O corpo não é receptáculo ou recipiente, anuncia Merleau-Ponty, mas “tecido conectivo;” o mundo não é receptáculo ou recipiente, mas tecido conectivo. O palco, matriz de conectividade, é corpo, é mundo, é mundo-corpo e corpo-mundo.

PALCO, MAR, ESCRITA, CORPO, SAL E MUNDO: MODOS E MOMENTOS DA CARNE

Neste contexto conectivo, “ação cênica” não nomeia exclusivamente a ação que ocorre em cena. Ou, ainda, a cena conectiva não se restringe ao que acontece no palco, mas inclui o drama da sala. A atividade do ator não é autônoma, mas relativa; o ator é relativo ao espectador por reciprocidade e complementaridade. Em termos dramatúrgicos, a relação entre aquele que atua e aquele que assiste é tão significativa quanto a relação entre Hamlet e Ofélia, ou entre ator e atriz. Se a cena for, de fato, o espaço conectivo entre aqueles que veem e se sabem vistos, um sistema de convergências, a ação cênica acontece fora do palco, entre palco e plateia, fora dos corpos, no atrito das presenças. A cena, portanto, não se dá “em”, mas “entre,” ela funda um entre-lugar. Ação cênica é co-labor-ação. Neste sentido, a famigerada “presença do ator,” longe de ser uma forma de aparição impactante e condensada, corresponde à capacidade do atuante de criar sistemas relacionais fluidos, corresponde a sua habilidade de gerar e habitar os entrelugares da presença.

Um “corpo” pode ser visível ou invisível, animado ou inanimado, cadeira ou gente, luz, ideia, texto ou voz. Um corpo é sempre uma multidão de relações e, como tal, está permanentemente deflagrando relações. Corpo em relação com corpo forma corpo. O entre-lugar da presença é no nosso corpo o que não está em nós.

Para ativar circuitos relacionais, o ator deve trabalhar tanto no sentido de aguçar sua criatividade como sua receptividade. Geralmente a criatividade é privilegiada em detrimento da receptividade, a força criativa em detrimento do poder receptivo. Estamos mais habituados a agir do que a distensionar, a ponto de sermos agidos; somos treinados para criar e executar movimento, não para ressoar impulso; geralmente sabemos ordenar e dar ordens ao corpo mais e melhor do que sabemos nos abrir e escutar. A busca por um corpo conectivo, atento e presente é justamente a busca por um corpo receptivo. A receptividade é essencial para que o ator possa incorporar factualmente e não apenas intelectualmente a presença do outro.

Outro entrelaçamento que o corpo cênico investiga é a trama memória-imaginação-atualidade – o fato de que circulamos e entrelaçamos ininterruptamente referências mnemônicas, imaginárias e perceptivas. O que o corpo cênico explora, para além da dicotomia ingênua que contrapõe ficção e realidade, é a indissociabilidade entre essas três forças. Como o corpo cênico experimenta, imaginar implica memória, rememorar implica imaginação e ambos os movimentos se realizam na atualidade fenomenológica do fato cênico. Além disso, ator é criatura capaz de realizar insólitas operações psicofísicas como, por exemplo, transformar memória em atualidade, imaginação em atualidade, memória em imaginação, imaginação em memória, atualidade em imaginação, atualidade em memória. É sua alta vibratilidade e sua fluidez que permitem essas operações psicofísicas. É sua inteligência psicofísica que abre dimensões para além da dicotomia ficção x realidade.

Ainda sobre as capacidades, as propriedades, as especificidades e as dramaturgias do corpo: é preciso investigar a psicofisicalidade que constitui e funda toda e qualquer ação; dissecar a “ação física,” escová-la a contrapô-la, desconstruí-la. Seguir o que Yoshi Oida propõe, quando afirma “que atuar não é apenas emoção, ou movimento, ou ações que comumente reconhecemos como ‘atuação’. Atuar envolve também um nível fundamental: o das sensações básicas do corpo.”(8) Pois ando parada neste “nível fundamental,” investigando sensibilidade e sensação, investigando o que passei a chamar de nervura da ação. Nervura da ação: a corporeidade da ação, pois percebo três elementos que inervam minhas ações, sejam elas quais forem: postura, sensorialidade e conectividade. Esteja eu consciente ou não, fato é que minhas ações envolvem experiências posturais, sensoriais e conectivas. Proponho-me então a investigar separadamente cada uma das três nervuras, uma de cada vez; proponho-me a fingir que é possível desembaraçá-las e, assim, graças a um acréscimo de consciência sensível, potencializar minha conduta em cena.

Proposta 1: investigar as sensações posturais conforme sugerido pelo mestre Yoshi Oida – através do desenvolvimento da escuta do corpo; através da sensação de macro a micro alongamentos, torções, pressões, relaxamentos e transferências de peso; através de variações em eixos básicos: céu e terra (cima-baixo), oriente e ocidente (esquerda-direita) e passado e futuro (frente-trás); experimentar sensações posturais através de um diálogo atento com a força da gravidade.

Proposta 2: ativar e ampliar sensorialidade – investir nas relações mais elementares de percepção e interação consigo mesmo, com o meio e com o outro através dos cinco sentidos: tato, audição, olfato, paladar e visão. Tratar de aguçar e expandir capacidades sensoriais culturalmente domesticadas e atrofiadas pelo uso banal.

Proposta 3: acelerar conectividade – acirrar os entrelaçamentos corpo-espaço, corpotempo, corpo-história, corpo-matéria, corpo-ideia, corpo-palavra, corpo-objeto, corpo-conceito, partes-do-corpo, corpos-uns-com-os-outros-e-uns-nos-outros... através de experimentações psicofísicas múltiplas. Tratar das intercorporeidades e dos entre-lugares da presença. Através de acréscimo de sensibilidade sensorial e postural, circular interioridades e exterioridades com mais argúcia e consistência.

Três tarefas cotidianas para a potencialização do corpo cênico. Um corpo cênico porque desautomatiza mecânicas perceptivas, cognitivas e comportamentais; um corpo cênico porque investiga as dramaturgias do corpo e a nervura da ação; um corpo cênico porque em estado de experiência e experimentação.

 

SOBRE A “NERVURA”

Na biologia, “nervura” se refere aos filamentos compostos por feixes de fibras que transportam os impulsos dos órgãos sensoriais ao sistema nervoso central e vice-versa, possibilitando movimento e sensibilidade. Na botânica, a palavra “nervura” quer dizer filamento ou veio de folhas e pétalas por onde é transportada a seiva. Na zoologia, “nervura” se refere ao tubo córneo que, ramificado, sustenta a membrana das asas dos insetos. Na tipografia, “nervura” se refere à saliência transversal das lombadas dos livros encadernados. E, na arquitetura, “nervura” é o termo que designa a linha ou a moldura saliente que separa as arestas de uma abóbada, os lados das ranhuras ou os ângulos das pedras. A “nervura da ação” é, portanto, por definição gramatical, uma questão vegetal,
animal, mineral, arquitetônica, gráfica, que envolve voo, suporte, transparência, curvatura, ângulo, moldura, ranhura, saliência, lombada, movimento, seiva, pétalas, veias, asas, órgãos, filamentos, córneas, membranas, sensibilidade, flores, fibras e livros. Ou, ainda, a “nervura da ação” é uma questão de misturas, de combinações minerais, vegetais e animais através de ações humanas em busca de compreensões corporais outras, de invenções psicofísicas muitas. A nervura diz respeito ao que há de seiva nas saliências transversais dos livros de arquitetura encadernados com pétalas de flores; a nervura diz respeito ao ângulo da pedra em que pousa um livro e suas asas vegetais; diz respeito à natureza córnea, transparente e aquosa das molduras cerebrais; ao feixe de fibras
que transporta os impulsos das saliências através do nosso órgão tubular central; diz respeito às ranhuras das abóbadas sensoriais onde moram anjos e insetos; diz respeito aos movimentos sensíveis das folhas em dias de sol; a nervura diz respeito aos movimentos sensíveis das gentes diante de folhas flutuando, asas caindo e páginas amarelecendo e diz respeito, finalmente, às dobraduras e aos desdobramentos das palavras.

Fico de pé e imóvel – apenas esforço e tensão necessários para manter-me de pé e imóvel. Já sorrio; não há imobilidade possível. Parada, me movo em direção à imobilidade. De pé, dançada pela dança mínima, pela nervura desta ação. A sala respirando, o mundo latejando a minha quietude relativa. Atenção nos pés. O contato dos pés com o chão, a zona de contato, superfície de interseção, ali, onde é pé e chão, onde o pé é chão e o chão, pé. Cézanne pintou a continuidade do objeto no espaço e as propriedades do espaço no objeto. Ser fiel àquilo de que somos feitos. E de que somos feitos? O horizonte: uma linha de céu e de terra. O corpo: um horizonte vertical. Corpos: horizontes tocáveis. Céu e terra: partes do corpo.

Quanto mais atenta estou, mais inapreensível se torna o instante. Imersa num momento infinito. Percepção é participação. Sou parte; logo, existo. Ou ainda: participar; logo, existir.

Conversei recentemente com cinco extraordinários artistas sobre estado cênico e corpo cênico.(9) Denise Stoklos é atriz, diretora, escritora e criadora do Teatro Essencial. Honora Fergusson e Fred Newman são atores do Mabou Mines Theater Company, grupo de teatro experimental americano fundado em  1969 e sediado na cidade de Nova Iorque. Alina Troiana é performer cubano-americana da cena underground nova iorquina que escreve, dirige e performa seus próprios textos, alguns deles relatos autobiográficos. Marina Salomon é dançarina e trabalha na Cia. Regina Miranda e Atores Bailarinos no Rio de Janeiro. Perguntei: Como você se sente quando está atuando? Sua percepção sensorial se altera? Como é a sua relação com objetos, espaço, tempo, movimento? O que é “estado
cênico”, de acordo com a sua experiência? E eles responderam:

“Durante os ensaios de alguns trabalhos específicos eu costumava ter a sensação de que iria sair de mim, como se eu fosse perder a consciência.” (Marina Salomon)

“Sempre penso que no palco você está em um nível diferente de consciência. Aliás ‘consciência’ nem é uma boa palavra.” (Denise Stoklos)

“Você fica muito exposto e vulnerável diante da audiência, e, na verdade, você não atua bem a não ser que esteja vulnerável. Se você perder a vulnerabilidade não será um bom ator.” (Honora Fergusson)

“Você tem que sair da sua caixa, dos seus preconceitos, sair fora da sua idéia imediata de civilização e cultura. Cada uma dessas coisas é uma espécie de caixa. […] Nós temos antenas; elas têm de estar expostas. Você tem que fazer com que essas antenas estejam vivas e vibrantes, estendidas no espaço.” (Fred Newman)

“A relação com o espaço – a maneira como o meu corpo se conecta com o espaço, como o espaço entra no meu corpo – me traz a sensação de uma prática espiritual.” (Marina Salomon)

“Eu digo que quando estou no palco estou fazendo as pessoas gozarem enquanto estou gozando.  Para mim acontece nesse nível de sexualidade. […] No palco você está absorvendo uma química louca que o seu corpo produz. É uma bomba! […] Quando eu digo ‘elevada’ quero dizer que eu sinto como se eu não tivesse corpo, quase isso. É uma experiência espiritual. […] Eu fico rápida e atenta. Posso ver e escutar muitas coisas ao mesmo tempo. Se eu tenho uma gripe, se estou menstruada, seja lá o que for, entro no palco e tudo isso desaparece! […] Sinto muito medo antes de entrar em cena.” (Alina Troiana)

“Energia é o que realmente comunica, o que vai para o público e volta: energia.” (Denise Stoklos)

“Gostaria de trazer pra minha vida diária a mesma qualidade de energia que atinjo no palco.” (Marina Salomon)

“Quando você está se arriscando, como supostamente acontece no teatro, você sente que está enfrentando riscos como mergulhadores enfrentam riscos. Há risco de vida espiritual, vida mental ou vida física.” (Fred Newman)

“Comunicação é sempre amor, não tem outro meio. E amor é sempre acompanhado por confi ança, confi ança de que o outro é capaz; porque o outro sou eu. Se o outro é capaz, eu também me torno capaz. Isto é o oposto de paternalismo, patriarcado, capitalismo. É a liberdade. Quando eu posso receber o outro, então estou comunicando; quando eu escuto o outro e sei que posso falar também. Estes momentos não acontecem todos os dias porque estamos inseridos em fortes estruturas de poder e opressão – estão ao nosso redor, por dentro, por toda parte. Vivemos num mundo que não quer que sejamos tocados porque se formos, nos tornaremos poderosos e capazes de mudar as coisas. Teatro político é portanto qualquer teatro voltado para esta noção básica de respeito aos seres humanos como iguais. E estar sempre em movimento porque nada está de fato completo e fi nalizado.” (Denise Stoklos)

O ator finge que finge

E este texto foi escrito para ser jogado no mar.

Eleonora Fabião


ELEONORA FABIÃO
Doutora em Estudos da Performance pela New York University.
Docente do Curso de Direção Teatral da UFRJ.
Escola de Comunicação
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Endereço
Av. Pasteur, 250
Praia Vermelha – Rio de Janeiro – RJ 
CEP: 22.290-240.

E-mail: ef383@nyu.edu

Artigo recebido em 08/07/2010 / Aprovado em 10/09/2010


Notas

(1) Uma primeira versão deste texto foi publicada na Revista Folhetim do Teatro do Pequeno Gesto (Funarte:

Rio de Janeiro, 2003). Para esta edição, o artigo foi revisado e ampliado.

(2) CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Beyond boredom and anxiety (San Francisco: Jossey-Bass, 1975), p. 36. Tradução da autora.

(3) ROLNIK, Suely. “Molding a contemporary soul: the empty-full of Lygia Clark” In: The experimental exercise of freedom (Los Angeles: Museum of Contemporary Art, 1999), p. 104. Tradução da autora.

(4) Maurice Merleau-Ponty desenvolve o conceito de “entrelaçamento” em “O entrelaçamento – o quiasma”

In: O visível e o invisível.

(5) MERLEAU-PONTY, Maurice. The visible and the invisible (Evanston: Northwestern University Press, 1992), p. 138. Tradução da autora.

(6) Ibid. p. 135.

(7) Ibid. p. 139.

(8) OIDA, Yoshi. O ator invisível (São Paulo: Beca Produções Culturais, 2001), p. 57.

(9) As entrevistas foram concedidas individualmente nos anos de 2001 e 2002. No caso de Denise Stoklos, a entrevista foi realizada durante o Terceiro Encontro do Hemispheric Institute of Performance and Politics em Lima, Peru (julho, 2002).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A obra faz o seu chamado no processo de criação

Trecho da entrevista do Bandeila de Mello na exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba:

 

“Quando você começa, você tem um tema na cabeça. Tem os materiais na cabeça, o suporte na cabeça, a técnica que vai usar. Tá tudo na cabeça, organizado. Tá pré-organizado isso. Mas no momento em diante que você começa o trabalho, você perde o comando, é o trabalho que começa a comandar”… “É o próprio trabalho que vai fazendo um chamado daquilo que tem que ser feito. E acaba sendo um diálogo entre o que você queria fazer e o trabalho quer que você faça. Agora, o mais importante nisso tudo, é que o que vai transformar aquilo em obra de arte é precisamente o que você não programou, é aquilo que saiu e ficou impressão no trabalho, independente da sua vontade. A temática do meu trabalho é sempre ligada a questão da sobrevivência do indivíduo enquanto indivíduo e enquanto membro da espécie. Quer dizer, essa questão de que a vida é uma luta permanente para não morrer, certo? Então, mesmo quando você entra nas questões da comida, do alimento, do amor, etc... É sempre a questão da sobrevivência da espécie. Do indivíduo como indivíduo e da espécie como um todo. Mas não contada de uma forma anedótica, mas contada de uma forma plástica.”

Bandeira de Mello, anotação do vídeo da exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba no dia 17 de Junho de 2011 feita por mim.

ARTE CONTEMPORÂNEA NA PINTURA: “…idéia de permanência não tem. O artista permanece, mas o ofício de pintor acabou.” por Bandeira de Mello

“Uma coisa que a gente nota é o descaso pela permanência do trabalho. Tem uma denúncia nesse sentido num dos livros do André Lotte. "Se perguntarmos a um restaurador quais são as obras que precisam de restauração, mais de restauração, certamente são as obras modernas. È uma coisa que eu sempre falo com meus alunos. É preciso que você faça alguma coisa que seja boa e que ela tenha uma certa permanência. Na própria obra de Van Gogh já tem trabalhos que são difíceis de se manter aparência deles porque ele já não se preocupava tanto com isso. Eu acho que quanto mais você sabe, mais livre você é. Mesmo porque você entra numa fase em que você sabe o que fazer e o que não fazer. O que não fazer sabendo fazer aquilo. Você deixa de fazer por uma necessidade expressiva. Eu ainda vou mais longe: Acho que se você não sabe desenhar você não pensa na forma. Nós tínhamos 900 horas aula de modelo vivo. O curso. E essas 900 horas não eram garantia de que você ia sair um bom desenhista. Eles foram cortando, cortando, cortando, cortando... E hoje são 90 horas obrigatórias. Quer dizer 10%. As pessoas que sabem desenhar, normalmente elas desenham apesar do ensino oficial, vão procurar fora, vão estudar fora, vão procurar um mestre fora para poder aprender, porque lá é meio difícil, meio complicado de aprender. Você vê obras hoje feitas com o intuito de desaparecer mesmo. O sujeito faz uma exposição com uma escultura de gelo e ela derrete durante a exposição. Faz uma cera para derreter se fizer calor, etc. Faz um livro de carne, para apodrecer, etc. Quer dizer, essa idéia de permanência não tem. O artista permanece, mas o ofício de pintor acabou. Eles pintam com qualquer coisa, em cima de qualquer coisa, com qualquer tinta, de qualquer jeito. Mistura com qualquer coisa, umas com as outras, sem saber o resultado final daquilo. Então, ele diz o seguinte: - Isso se deve à morte do ofício do pintor. Permanece o artista, mas não tem mais o técnico, o pintor.”

Bandeira de Mello, anotação do vídeo da exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba no dia 17 de Junho de 2011 feita por mim.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Virtuosismo cênico na arte

O virtuosismo toca o espírito do espectador no sentido de recordar o potencial humano: ao mesmo tempo que vejo aquilo que não consigo fazer é uma constatação de ver um ser humano fazendo isso, e nesse ponto incende em nós o calor e o entusiasmo de que somos incríveis, uma forma de recordar que somos filhos de Deus e como tal somos perfeitos.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Receita para arrancar poemas presos – Viviane Mosé

Poema citado no Café Filosófico, onde o vídeo se contra disponível no link aqui. Bom, não digitei o texto abaixo, isso uma outra pessoa fez e encontrei nesse site que parece interessante. Yiuki

A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras
calcificadas,
Poemas sem vazão.

Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.

Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima

Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema

Você pode arrancar poemas com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais.
Com as pontas dos dedos, com as unhas.

Você pode arrancar poemas com banhos
De imersão, com o pente, com uma agulha.
Com pomada basilicão.
Alicate de cutículas.
Com massagens e hidratação.

Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los,
Das dobras dos dedos dos pés, das vértebras.
Dos punhos, das axilas, do quadril.

São os poema cóccix, os poemas virilha.
Os poema olho, os poema peito.
Os poema sexo, os poema cílio.

Atualmente ando gostando de pensamento chão.
Pensamento chão é poema que nasce do pé.
É poema de pé no chão.

Poema de pé no chão é poema de gente normal,
Gente simples,
Gente de espírito santo.

Eu venho do espírito santo
Eu sou do espírito santo
Trago a Vitória do espírito santo

Santo é um espírito capaz de operar milagres
Sobre si mesmo.

Viviane Mosé

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