Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

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domingo, 23 de setembro de 2018

Salvar a esperança

haiga humanidade

“Não quero recuperar a minha humanidade amanhã.
Então, danço e salvo a minha esperança.”
Yiuki Doi

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ser bruto, ser selvagem ou ser vertical: Merleau-Ponty

Texto abaixo retirado do livro A Subjetividade Corpórea, página 164, do autor José de Carvalho Sombra.

A experiência do sensível, além de diferenciação do em-si e do para-si (Merelau-Ponty, Signes, p.212) é diferenciação do visível, em oposição ao invisível; é o fundo geral no qual é feito o recorte das “coisas” como tais (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Na experiência do sensível, a referência às “coisas” e um excedente da experiência, algo como “uma interpretação segunda da experiência” ((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.214). Esse excedente, na percepção que nos dá acesso às coisas em sua positividade, possibilita “nossa abertura para o ‘alguma coisa’”((Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.216) indeterminado, que é o Ser. a experiência da visão é o olhar que realiza a concreção do visível em visibilidade, na qual o sensível deixa de ser um ser de latência para tornar-se visibilidade. A visão é mais do que projeção e visada, é poder de diferenciação entre visível e invisível.

A experiência do sensível é abertura e acesso ao ser bruto, anterior à experiência das coisas, onde se dá “nossa experiência do ser bruto, que é como o cordão umbilical de nosso saber e a fonte do sentido para nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.209). Essa enigmática abertura para o ser é a apreensão indireta e confusa de todas as coisas no seu elemento comum: ‘o invisível de sua visão, o inconsciente da consciência […]’ "”o outro lado ou o avesso (ou a outra dimensionalidade) do ser sensível”, comenta Claude Lefort¹.

A aparição ou apresentação desse Ser, plenamente e simplesmente sensível ou visível, que a poesia e a pintura buscam alcançar na experiência da visão, é o que o Merleau-Ponty chama de ser bruto, ser selvagem ou ser vertical, porque não é trabalhando pelas categorias da reflexão nem sofreu qualquer idealização. È um ser de visibilidade, que permeia o mundo em volta de mim e dentro de mim. Ele está diante de mim e é preciso apenas ver: é visibilidade intrínseca, como modo específico do Ser, não exige nem um ato subjetivo nem precisa ser aplicada ou representada, pois é anterior a qualquer reflexão ou posição do sujeito. É um ser que não é objeto de pensamento, já que eu percebo por contato: sinto, percebo, vejo, e faço parte dele. Em virtude dessa universalidade do sensível, a visibilidade deixa de ser conseqûencia ou efeito de um ato subjetivo:

“Característica do percebido: já estar aí, não ser pelo ato de percepção, mas ser a razão desse ato, e não o inverso. (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.272).

O Ser bruto é a região do sensível, pré-reflexiba e selvagem, anterior às separações e representações do pensamento, da qual brotam as categorias reflexivas e que está na origem das relações corpo/mundo e mundo sensível/mundo inteligível. Ele é o substrato das coisas e de toda experiência; é o solo originário, de onde brotam toda experiência e toda relação entre consciência e mundo. O ser bruto é a nova forma de ser no mundo natural, que aparece como presença pré-reflexiva e pré-humana e que constitui o Ser no seu estado selvagem. A descrição do visível e do ato de ver obriga-nos a rever nossa ontologia e a buscar um significado novo no Ser: a visibilidade instrínseca do ser, que se faz aparição ou visibilidade, que exclui as categorias subjetivas da percepção e da reflexão, visto que se manifesta no corpo e nas coisas e é “mistura do mundo e nós” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.138). “é ‘empiètement’ [invasão] de tudo sobre tudo, ser de promiscuidade” (Merleau-Ponty, Le Visible et l´Invisible. p.287).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 164)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Entre a Poesia das Imagens e o Imaginário da Criação: A Ronda Noturna de Bachelard

Por: Edinaldo Bezerra de Freitas(1)

Texto original retirado da Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário. O artigo abaixo é interessante para filosofos e artistas criadores. Yiuki Doi

É encontrar uma espécie de elo perdido. A obra de Bachelard parece nos conduzir até aquele espaço onde acontecem encontros: ciência e poesia, razão e sentimento, matéria e espírito. É desconcertante, ao mesmo tempo tão obvio, complexo e tão elementar. Não restam dúvidas, estamos diante de um dos maiores e mais seminais pensadores do ocidente. Produtor e produto da demanda de conhecimentos de um nosso mundo contemporâneo, um mundo tão cheio de soluções e contradições, tão longe e tão perto da vontade potencial de achar a fórmula da alquimia elementar, e ao mesmo tempo tão fora de possibilidades, senão, de um mundo de exclusão e inclusão de consumos vazios. A paradoxal filosofia de Bachelard parece mesmo com a vida, essa imensa e tão simples força de querer ser que se institui e se extingue a cada momento se revelando tão apenas criação...
E quando se fala de fim de ideologias, fim das utopias, até fim da história, mister se faz conduzir o olhar para a imaginação, porque carecemos de criar novas direções, dar novos sentidos, repensar pensamentos, sobretudo sonhar. Que o eco de Bachelard nos dê alento para elegermos a profundidade das imagens como método para conhecer. Sobretudo, conhecer Bachelard. Ave Bachelard !

A Complexidade Essencial
Ou, O Novo Espírito Científico


Demandando o que chama “A Complexidade Essencial”, Bachelard nos apresenta a sua filosofia do Novo Espírito Científico. Para constituir a complexidade, lembra de início, existem duas metafísicas básicas na cultura científica moderna: o Racionalismo e o Realismo. Tais categorias, lembra o autor, além de naturais e convincentes, implícitas e obstinadas, são também contraditórias. É nessa conjuntura que aparecem, a questão maniqueísta do chamado conhecimento objetivo e sua contraparte de conhecimento chamado subjetivo. O primeiro dilema estaria em opor estas duas faces do conhecimento enquanto categorias de tendência universalista ou total. Bachelard nos conduz a dialetizar.
Polarizando estas duas faces da ciência, temos quase sempre o engendramento de cada uma em ter que lançar mão de sua contrária. O primeiro deslize seria a própria substituição das metafísicas intuitivas e imediatas em tão somente metafísica “discursiva”. Nessa direção, parece ser no mínimo ambíguo, o duplo sentido da prova científica, que se afirma na experiência e no raciocínio, como realidade e como razão. A ciência contemporânea resumidamente, teria como principal alvo, atingir “a síntese das contradições metafísicas”. Lembrando a trajetória racional prevalecente no pensamento científico desde a antiguidade até o início do mundo moderno (de Aristóteles até Bacon), Bachelard nos convida a refletir sobre o vetor racionalista, apondo a questão, o porque da ausência do percurso contrário, ou seja, do porque um pensamento que migra do real para o racional e nunca, no sentido inverso, do racional para o real. Desta forma, ao mesmo tempo que questiona, a filosofia bachelardiana mora justamente no racionalismo, na realização racional, reafirma - com sua própria feição de contradição e limites - o próprio sentido de apreender o ensinamento da realidade.

Bachelard
Apresenta assim o tempo contemporâneo como o período do realismo técnico, quando “cada hipótese é síntese”, e onde a questão da razão é transferida do “porquê” para o “porque não”, a parologia ao lado da analogia. Usando um sutra nietzscheano, lembra o autor que na história “tudo o que é decisivo só nasce apesar de”.
Nessas circunstâncias, o projeto de Bachelard é a de compor e opor uma epistemologia não-cartesiana, indo assim na direção desse novo espírito científico contemporâneo. Dialogando com as grandes descobertas cientificas do seu tempo, lembra o filósofo, ele próprio não trás necessariamente as novidades das descobertas, mas a novidade de um método. É portanto nesse campo metodológico que o texto procura se conduzir. Um método posto exatamente na encruzilhada dos conhecimentos, um método onde o realismo e o racionalismo trocam entre si infinitos conselhos e onde demande atingir uma meta: a renovação em si dos seus objetos.
Nesse endereço, lembra o autor, está a única psicologia possível para o cientista, simplificando o real e complicando a razão, explicando a realidade e aplicando pensamentos. Nem entregues a nós próprios (o mundo como nossa representação), nem apenas sociedade (o mundo como convenção nossa), mas o mundo como verificação nossa, acima do sujeito, acima do objeto imediato. Um conhecimento “projeto”. Como dedução: O real não se mostra - o real demonstra-se. Ou ainda mais sintético, diante de dinâmicas contraditórias e indefinições. Perceber o paradoxo de ser o pensamento científico, aquele que melhor permite estudar o problema psicológico da subjetivação...
O caráter inovador do espírito científico teria pois que aferir um lugar para o conhecimento onde a ontologia do complemento se realize de maneira “menos asperamente dialética que a metafísica do contraditório”.
A partir destas aceptivas Bachelard vai de encontro ao conjunto dos conhecimentos científicos modernos, analisando a geometria, a mecânica,a física e a matemática como espaços de construção da dicotomia do conhecimento dialético. Daí, vai finalmente deparar-se com a dicotomia do conhecimento determinista e o indeterminismo. Da astrologia até a astronomia newtoniana, passando até às categorias kantianas, onde o “a priori” reflexivo está posto como contra face de certezas. Determinismo como simplicidade, como restrição experimental.
Nesse sentido, voltando ao dilema real e racional, aparece assim a permanente crise do realismo, a revolução frutuosa da reclassificação do real e o profundo movimento de transformação advindo do reino do abstrato.
O desafio portanto é metodológico, o caminho da superação permanente dos métodos do passado e o perpétuo progresso na procura de novos métodos. Nessa condução, lembra o autor, as relações de incertezas devem ser interpretadas como obstáculos à análise absoluta, “numa condenação da doutrina da natureza simples e absoluta”, ao contrário do exercício enriquecedor do paradoxo. Por fim, lembra Bachelard, o espírito científico é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento do quadro do conhecimento, onde pela didática da super- ação a ciência aceita o desafio de instituir novos percursos.

As Aparências dialéticas do Conhecimento
Ou, A Psicanálise do Fogo.


Ao propor uma Psicanálise do Fogo o filósofo Bachelard procura empreender o desvendamento das aparências do saber. Romper com o objeto imediato, a primeira observação. Como num processo de recusa sistemática, propõe-nos a tudo criticar: a sensação, o senso comum, a prática constante e a etimologia, até porque, lembra, o verbo raramente coincide com o pensamento. Para tal caminho, longe do maravilhamento, aponta o lugar da ironia.
Apondo Ciência e Poesia, a trilha sugerida é da complementaridade, numa performance de união equilibrada. Para refletir sobre tais dilemas, o autor aponta para o problema psicológico de nossas convicções sobre o fogo. Pois que a pergunta se revela: O Que é o fogo?
Posto num universo de objetivação impuro, o fogo parece ser esse lugar bom para pensar. Nele estão inclusas a intuição pessoal e as experiências científicas, a subjetivação e a objetivação. Aporta aqui o Devaneio. Segundo Bachelard esse sentimento complexo não cessa de retomar os temas mais primitivos e se infiltra sem embargo no próprio espaço do pensamento e de chofre, também nas experiências científicas. Na História, tal fato registra-se permanentemente, daí, uma espécie de fuga, diz o autor, para curar o espírito da felicidade. A meta pois, é realizar uma psicanálise das convicções subjetivas.
O fogo, essencialmente duplo, realiza pois a síntese da conexão objetivo/subjetivo e em contrapartida comporta a marca do falso peso dos valores não discutidos. Como pois ir de encontro à barreira da intuição primeira? O zombar de si mesmo?
O fogo e o calor respeitam inicialmente às essencialidades. O bem e o mal aí se localizam. Contraditório, facilmente se presta a princípios de explicação universal. Aqui se insere o mito de Prometeu. No entanto, pouco se percebe ser o fogo muito mais um ser social do que natural. Desta forma, ensina o mito, as interdições sociais são primeiras à própria experiência natural. Em Prometeu sabemos, estamos diante da questão da desobediência engenhosa. Afinal é preciso dominar o fogo, mesmo com o rico da queimadura, como os deuses, como o pai, como o patrão....
Assim, Prometeu é um outro Édipo. O complexo de Prometeu é o da vida intelectual. Do ter que escolher entre saber e fabricar, sem ser necessário correlacionar tais aspectos com a vontade de poder. Portanto, Vontade de Intelectualidade, além de pragmatismos e intuições.
É necessário, lembra Bachelard, substituir o estudo dos sonhos pelo mais instrutivo estudo do devaneio (fogo), substituindo valores, trabalho e repouso, alimento e gastronomia, penúria e alegria. A conquista do supérfluo produzindo excitação espiritual além da conquista do necessário. O HOMEM COMO CRIAÇÃO DO DESEJO, NÃO CRIAÇÃO DA NECESSIDADE.
O sonho sugere o desejo da mudança, da transformação, mutação, do pequeno em grande, a lareira e o vulcão, a fogueira como renovação. Deste ápice de contrários, entre vida e morte, aparece o Complexo de Empédocles.O homem, o conhecimento, a abismo.
Propõe-se assim Bachelard realizar a psicanálise indireta e segunda, buscando o subconsciente sob o consciente, o valor subjetivo com a evidência objetiva, o devaneio sob a aparência. Estudando o sonho, escondido na experiência que lhe apagou. Além da explicação racionalista, imediata e prática, do fogo pela fricção, da sexualidade aí contida, dos componentes da libido localizados em todas atividades primitivas. Afinal, lembra o autor, o ensinamento de Jung: não só na arte, mas em todo trabalho humano está a sublimação da libido. O Homo Faber como uma mão e uma linguagem. Porém, alerta nosso autor, o gesto útil não deve ocultar o gesto agradável. Além da utilidade, o sonho mais íntimo, o sonho da fecundidade sob a forma mais sexual. Assim numa empreitada, unindo Frazer e seu Ramo de Ouro em paralelo a Libido de Jung.
O fogo associado à brincadeira, a festa, ao roubo. Os vários fogos: suave, sorrateiro, rebelde, violento. Um caminhar entre desejos e paixões. O fogo primitivo, medieval - alquímico e moderno e romântico. Tudo como num devaneio entre o estar junto à lareira e a inscrição do amor humano no coração das coisas. O fogo como primeiro fenômeno no qual o espírito humano é refletido. Poesia e ciência tendo início na meditação do fogo.
Fenômeno, por que o conhecer a aparência se dá com a constatação da mudança da própria aparência e primitivamente, diz o filósofo, apenas as mudanças pelo fogo são profundas. Achega-se aqui a um apelo à sublimação. Uma sublimação dialética diferente da sublimação contínua da psicanálise clássica. O fogo portanto como um problema de estrutura psicológica, pondo-se entre o sujeito e o objeto, criando intermediários entre contemplações com pretextos objetivos sobre a vida do espírito. Dialética da pureza e da impureza do fogo. Na busca do contato entre a metáfora com sua realidade, ou da raiz objetiva da imagem poética e moral.
Indo da matéria ao espírito moral, buscando certa desodorização, virtude substancial, até a idealização do fogo na luz. Física ou química do devaneio, crítica literária objetiva, metáfora mais que idealização. Dialética como estrondo que despertam ressonâncias adormecidas. Psicanalizando imagens familiares, certo de que a imaginação é a força mesma da produção psíquica. O fogo onde todo animismo vira calorismo. Na consciência do arder e esfriar e ser sem sabê-lo. Na dialética triste do homem ativo. Complexos de dor, neuróticos e poéticos, reversíveis entre chamas e cinzas.
O Complexo arcaico profundo de Jung, onde se endereçam destruir as dolorosas ambigüidades por dialéticas alertas, dando ao devaneio sua verdadeira liberdade e sua função de psiquismo criador.

A Totalidade: Forma, Dinâmica e Matéria
Ou, A Água e Os Sonhos.

Bachelard nos convida a compreender as categorias contrastantes das forças imaginantes da nossa mente - o impulso da novidade e o impulso ao primitivo e eterno. Duas imaginações: a imaginação formal e a imaginação material. Nesse entrelace diz ele, está o estudo filosófico completo da criação poética. Apostando em uma iconoclastia, propõe-se assim à tarefa de tentar encontrar por trás das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam. As raízes das forças imaginantes. Em um projeto de pensamento dialético lança luzes nessa dialogia: uma meditação da matéria educando uma imaginação aberta ; a substância e a forma ; o estudo das relações da causalidade material com a causalidade formal. Em um mundo de estéticas, do poeta e do escultor aponta para o valor essencial da matéria.
Toda forma procura sua matéria. Assim, como em um jogo de filosofia com os elementos fundamentais, re-visitando a própria filosofia primitiva e restituindo aos pensamentos sua avenida de sonhos. Cria Bachelard um sistema de fidelidade poética, apondo os sentimentos primitivos e o onírico fundamental. Apresenta-nos então o elemento Água. Feminino e mais uniforme que o fogo, elemento constante que simboliza as forças humanas mais escondidas, simples, simplificantes. Lembrando desta sorte, um certo descaso inconsciente para com o elemento, lembra o filósofo, a água aparece como elemento transitório, como uma metamorfose ontológica e essencial entre o fogo e a terra, participando de uma espécie de destino de queda, de morte cotidiana,de sofrimento infinito. As imagens da água vividas como em uma adesão irracional.
Diz Bachelard que pretende sobretudo, realizar um ensaio de estética literária, já que seu caminho é o da determinação das imagens poéticas e das adequações das formas às matérias fundamentais. A água como linguagem fluida. Apela para a materialização nata do devaneio da criança, lembrando aliás que os sonhos infantis são os sonhos das substâncias propriamente orgânicas. E que o homem que conhecemos e amamos é o homem do que se pode escrever. Fazendo um percurso de constituição da arte, afere: A arte é natureza enxertada.
Inicialmente apresenta-nos a água como espelho - Narciso, apelando para a naturalização da nossa imagem. Uma lenda do humano, do cosmo e das flores (o pancalismo) revela-nos o mundo como representações e como vontade - vontade de contemplar. A água como olho do mundo, água que vê e sonha.
A partir deste ponto, e se apoiando em vasta leitura de psicologia e filosofia, percorrendo poesias, mitologia, literaturas e sobretudo de imagens, suas e de tantos, o autor nos destina a compreender o universo imaginário das águas. Do límpido, da pureza (a moral da água) e do frescor, desde o imediato, ao complexo e profundo, da calma e do silêncio e da imaginação dinâmica da violência (complexo de Xerxes). Ora uma Água elementar da metapoética de Edgar Poe, como um movimento singular e estranho da vida das águas mortas e do sangue. Complexos - de Caronte, de Ofélia. Outra hora uma água das misturas e das combinações, sobretudo da água com a terra, em um esquema fundamental da materialidade: as massas e as ligas.A combinação dos poderes, o homo faber e a mão geométrica do homo fabricante. Nascimentos, casamentos, maternidades, mortes. Um ser total: tem corpo, alma, voz, a água como realidade poética completa. Numa demanda, como alerta o autor, de uma faculdade que ultrapasse a realidade em busca da sobre-humanidade.
Propondo uma classificação correta dos valores sensuais e os sensíveis, onde os sensuais aparecem como correspondências e os sensíveis apenas como traduções, afirma Bachelard que as formas se complementam, mas a matéria nunca. A matéria é o esquema dos sonhos indefinidos.O dilema é a verticalização, a consciência, o saber. Indo além do complexo de cultura (complexo de Nausícaa) o desafio é a imaginação da matéria, pois a verdadeira poesia é uma função de despertar.

AR: Sonho, Movimento, Vontade e Potência
Ou, O Ar e os Sonhos.

Neste ensaio Bachelard convida ao estudo do Ar como condutor da forma e da matéria: a Imaginação do Movimento. Dá início a sua viagem, apontando para a necessária superação do estado de estigmatização dos símbolos, em um apelo para a valorização da imaginação e mesmo do ato de produção das próprias e adequadas imagens. Para constituirmos interpretações múltiplas: interpretações passionais, estetizantes, racionais e objetivas.
O primeiro objeto em estudo é o Sonho de Vôo. Lembra o autor que é necessário uma forma menos estática para uma psicologia da imaginação - neste caso que contenha também ao princípio dinâmico da deformação. Para o elemento aéreo propõe-se a uma condução menos “atômica” e mais vetorial. Para o sonho de voar, lembra, trabalhamos com a dialética entre leveza e peso. Mais que isso, o sonho de voar não implicaria em fim a alcançar, mais de uma viagem em si, constituindo uma realização profunda da psique humana.Um lugar para ver como a razão trabalha o sonho, ou de como sonha a razão...
Um projeto filosófico proposto: ligar o sonho íntimo à experiência objetiva. O sonho libertando a imaginação formal, um repouso ótico e verbal. Constatação: no sonho do vôo a asa já é uma racionalização - criadora da imagem de Ícaro. O vôo onírico seria o sonho da vida instintiva - o instinto profundo da leveza, e do devaneio que une o desejo de crescer ao desejo de voar.
Entre metáforas de ascensão e de queda, diz então Bachelard, prevalece em um realismo psicológico inegável, o maior número de imagens de queda. Daí a necessidade de uma psicologia da verticalidade. Para analisar ao mesmo tempo, o impulso para o alto e a queda para o baixo. O alto prima sobre o baixo, o irreal comanda o realismo. A queda portanto em paradoxo pertence à ordem da substância e não do acidente. A imaginação da queda como uma espécie de doença da imaginação da subida (como o inferno que se reergue...).
O poder da imaginação impõe visões, a imagem antes do pensamento e da narrativa, antes da emoção. Só a imaginação material e a dinâmica podem criar verdadeiros poemas. Compreender assim o tema da queda para o alto. Luz e peso comandando a vida psíquica, a imaginação unindo pólos.

Bachelard
comenta o trabalho propedêutico de Robert Desoille. Procura assim a dinâmica da imaginação e da vontade: sabe querer quem sabe imaginar. É desse patamar que insere a filosofia de Nietzsche para o psiquismo ascensional. Dos valores morais, o poeta vertical, o poeta das alturas. Desta forma, apresenta-nos o filósofo alemão pelas negativas do seu envolvimento com os elementos: da terra por que esta não possui os devaneios da intimidade, e pela sua opção de filosofar, não pela porta da matéria, mas da ação, e mais ainda pela imaginação dinâmica que material; da água por que esta não determina devaneios materiais; e nem mesmo então do fogo, já que tal elemento nele aparece apenas como fator de transmutação, mais com características dinâmicas, que riqueza substancial. Para Nietzsche, o ar seria a substancia mesma da nossa liberdade. A alegria aérea é liberdade. O Ar como dinâmica ofensiva e triunfante: o frio, o vazio, o silêncio, a altura...
A filosofia e a poesia de Nietzsche como um estudo da aurora ativa, do despertar tonificado, da vida vertical apreendida por uma longa aprendizagem.Assim, com o filósofo alemão, Bachelard diz ser possível separar em dois tipos a imaginação da vontade: a vontade-substância (shopenhaueriana) e a vontade-potência nietzschiana. A imaginação dinâmica dando imagens adequadas do querer, em um trabalho de mundo ascensional. A imaginação de forma mais que a razão, como unidade da alma humana do ser e da moral solidários. Para um despertar universal - O Zaratustra.

A Introversão da Matéria
Ou, A Terra e os Devaneios do Repouso


Todo conhecimento da intimidade das coisas, diz Bachelard, é imediatamente um poema. Como a contradição é fundante, depois de ter analisado no elemento terra os devaneios da vontade, com suas solicitações dinâmicas, onde a imaginação ativista que pela vontade sonha e dá futuro à sua ação, o filosofo pensa o repouso Após apontar para o homo faber ajustador, modelador, fundidor, ferreiro, que procura a matéria que sustenta a duração da forma e que portanto se manifesta na conjunção do signo contra, nesta obra o filósofo propões analisar a preposição dentro. A terra como o interior, a terra como o conteúdo básico, a terra subjetiva.
Dialeticamente, Bachelard, busca uma síntese ambivalente que unifique o contra e o dentro. Processos de extroversão e introversão. O método, lembra o autor, é o da imaginação como o percurso do sujeito transportando às coisas. Assim toda matéria meditada torna-se imediatamente a imagem de uma intimidade, de uma substância transformada em valor. Como uma afetividade enraizada no inconsciente e substanciada de interesses. Temos uma obra sobre as imagens do repouso, do refúgio, do enraizamento: Onde estão os lugares fundantes da casa, do ventre a caverna, os endereços correspondentes das potências noturnas e subterrâneas.
Na busca pelo oculto, lembra o filósofo, aparecem os diversos tipos de perspectivas de ocultamentos: a projeção anulada, ou do objetivo do não-receber, a perspectiva dialética ou invertida em projeções do pequeno, a perspectiva maravilhada e aquela da intensidade substancial infinita.
Diz Bachelard que as imagens como forças psíquicas primárias são mais fortes que as idéias, mais fortes que as experiências reais. As perspectivas dialéticas do interno e do externo seriam por vezes como aquelas de por e tirar uma máscara. A perspectiva do maravilhoso é o descobrir o interior esculpido, a prodigalidade da intimidade do interior revelando as faces exteriores da natureza e da cultura. As perspectivas de intensidade infinitas nas imagens, apontam para a diferença entre cor e tintura, sendo a cor uma sedução das superfícies, a tintura uma verdade das profundezas.
Mas há também a intimidade em conflito. A agitação como multiplicidade no combate das substâncias e as imagens da discórdia íntima. Nessa direção, atingimos a imaginação da qualidade: Ritmanálise e tonalização. Os degraus do movimento. Lembra assim o filósofo que a maior luta não é travada contra forças reais, é travada contra as forças imaginadas. O homem como um drama de símbolos.
Interior e repouso são pensados no “Complexo de Jonas”. Propondo recolocar as imagens na dupla perspectiva dos sonhos e dos pensamentos. Realidade e sonho na busca de saber o que cada um tem no ventre. Jonas como lugar para pensar a profundidade da imagem, ativando imagens superpostas e apontando para o alimento, o ventre, a morte.
Aproximando as palavras e as coisas, Bachelard apela para a profundidade, já que diz ele, os seres escondidos e fugidios esquecem da fuga quando o poeta os chama pelo verdadeiro nome. A obra deste filósofo é o de reviver as formas sonhadoras no interior das coisas, abrindo o “último broto do porvir” (Eluard.)

A Carne dos Símbolos.
Ou, A Terra e os Devaneios da Vontade.

Diz Bachelard que a imaginação concreta da matéria terrestre possui dificuldades e paradoxos sem fim. Lembrando as palavras de Baudelaire, aparece aí mais um paradoxo: “quanto mais a matéria é, em aparência, positiva e sólida, mas sutil e laborioso é o trabalho da imaginação”. O dilema é o bem ver, mais ainda, o bem sonhar. A pista é o de localizar o caráter primitivo da psique fundamental, a imaginação criadora, e o ir além da imaginação reprodutora. O encontrar da imagem imaginada.
Novamente aqui Bachelard aponta para o caminho da imaginação literária. Lugar de reanimação de uma linguagem, lugar de criação de novas imagens. Tempo das imagens, no século das imagens, o filósofo lembra a dependência crescente a que estamos submetidos à ação de todas as imagens. A terra como devaneio da vontade é a eleição da extroversão, do ativo, do convite a agir sobre a matéria. É hora de dicotomizar o trabalho contra o repouso. A dialética do duro e do mole, e o papel fundamental da resistência. Mas, lembra o autor, o sim e o não se dizem mole e duro. Sobretudo a consciência do trabalho, da matéria modificada pela mão: matérias duras, imagens da massa e as matérias da moleza. Os minerais, as substâncias cristalinas, as imagens da pérola. A temporalidade do contra recebendo as inscrições da consciência deste trabalho. Uma síntese possível: a matéria forjada. O devaneio da vontade de poder: o complexo de Medusa.
A vontade incisiva leva a compressão do caráter agressivo das ferramentas. Complemento da destruição, coeficiente de agressão contra a matéria. A cultura material e a arqueologia dão parâmetros classificatórios para os sólidos: os sólidos estáveis, os semiplásticos, os plásticos e os sólidos maleáveis (Leroi-Gourhan). Reinos da forma administrada. Aparece assim a metáfora da dureza, reino de poucas experiências efetivas e no entanto, fonte de um número incalculável de mil imagens.
No jogo dinâmico entre o céu e a terra, sugere Bachelard, precisamos desenvolver uma psicologia da gravidade - dessa queda contínua, das imagens do esmagamento, o complexo de Atlas, fomentando o apego às forças espetaculares, forças enormes, forças inofensivas, forças que não podem se não ajudar o próximo. Imagens da gravidade e imagens da altura até o imaginário da resistência. Uma seqüência e um círculo infinito e fundamental: as imagens místicas infernais, as imagens mitológicas infernais, as imagens do inconsciente pessoal, as imagens mitológicas superiores, as imagens místicas celestes.

A Alma: Indo além da Metáfora, A Imaginação da Matéria.
Ou, A Poética do Espaço

Nesta obra, Bachelard enfrenta o desafio infinito de compreender a própria imaginação poética. Para isso propõe pontilhar o tecido do êxtase:a novidade da imagem. A imagem no tempo presente da própria imagem, em sua própria ontologia. Para tanto, lança mão de um método: se distanciar da causalidade para procurar a repercussão. Uma fenomenologia da Imaginação. A imagem vista como produto direto do coração, da alma, da atualidade do homem.
Fenomenologia. Conhecimento que parte de uma consciência individual, encarna o sentido da trans-subjetividade e alcança o efeito variacional. Como meta, propõe o filósofo, é mister acumular documentos sobre a consciência sonhadora.
Instituindo matizes seminais da compreensão, o filósofo afere para a diferença entre os sentidos contidos em palavras como alma e espírito, procurando editar um sentido mais pleno para a palavra alma, alçada assim enquanto identidade total, como Logus. A alma como o lugar da sublimação pura. Estudar o espaço torna-se então sobretudo uma topofilia.
Assim, Bachelard nos remete a investigar as imagens da casa, das partes da casa como compreensões de mundos e de sentidos, e da casa em si como universo. E vai entrando nos interiores das gavetas, cofres, armários. Entre portas e chaves. O ninho para os vertebrados e a concha para os invertebrados. Os cantos, a miniatura, a imensidão íntima e a dialética entre interior e exterior, até chegar até uma proposta ontológica - a fenomenologia do redondo.
Sobretudo, o autor nos conduz a superar o imediato da metáfora. Em um diálogo e em contradição com a filosofia de Bérgson, procura ir além, propondo o conduto da imagem como obra da imaginação absoluta. Para Bachelard é necessário extrair todo o ser da imaginação. Alimenta assim um conceito de metáfora como construção de corpos concretos, da dificuldade de expressão, daí a metáfora estar assim colocada em relação a um ser diferente dela.
Ao contrario da metáfora, propõe Bachelard, a uma imagem podemos dar o nosso ser de leitor, sendo portanto ela mesma doadora de ser. A imagem como obra pura da imaginação absoluta torna-se um fenômeno do ser, nesse caso específico do ser falante. Imaginação, matéria e poesis, a relação da alma do mundo.

Anima
O Devaneio como Caminho da Consciência.
Ou, A Poética do Devaneio.

O Método fenomenológico, segundo Bachelard tem a capacidade de iluminar a consciência do sujeito maravilhado pelas imagens poéticas. Mas imagens poéticas se fundamentam sobremaneira em devaneios, em origens absolutas. O próprio ser assim percebido sendo um porvir da linguagem.
O devaneio, como fenômeno comum é concebido apenas como distensão psíquica. Como elemento da consciência no entanto é reforço da coerência. Elege-se assim o devaneio poético, transmissível, escrito com a emoção, com gosto.
O autor nos convidar a debater as complexas e móveis relações entre uma psicologia do devaneio, onde se observa o sonhador, e uma fenomenologia das imagens criadas da linguagem poética: a Fenomenologia do Imaginário. A proposta se transpõe através do devaneio, numa confiança no universo, onde “o homem pode tornar-se tudo” e onde se mesclam vidas diurnas e noturnas.
O devaneio acentuando o nosso repouso, contribui com a felicidade, porquanto esta construída na relação do amor sobretudo das quimeras. Para o filósofo, tal caminho está circunscrito na própria coerência do sonho, na loucura das palavras, no sonho das palavras. Distingue-se assim o devaneio do sonho noturno. Enquanto este tradicionalmente mais masculino, aquele assim tomado como característico da essência feminina-ãnima.
Correlacionando as distinções entre memória e imaginação, diz Bachelard que a memória sonha e o devaneio lembra. O poético cria um complexo de memória e imaginação densa. É esse o lugar da criança que sempre somos. O devaneio voltado para essa criança institui o tempo elegíaco.
Revendo Descartes, o autor procura questionar “o cogito do sonhador”, duvidando de seu enunciado clássico e contrapondo a ele o cogito do devaneio, o eu poetizador.
O devaneio assim ajuda-nos a habitar o mundo, a habitar a felicidade do mundo. Imagens cósmicas são filosoficamente obtidas como pensamentos. Para o imaginário, são distensões de devaneio, comunhões de devaneios, cosmo-análise. Devaneio sem responsabilidade, sem carência de provas. Afinal, lembra o filósofo francês, imaginar um cosmos é o destino natural do devaneio.
Enfim, diz Bachelard, toda nossa vida é leitura e estão nos livros os nossos documentos. Apelando para a fome nossa de cada dia, demandando o paraíso da imensa biblioteca. E a poesia - ápice da alegria estética, nos ajuda a respirar livremente, mostrando a factícia de toda angústia.
Pensando assim, Bachelard lança luzes no reconhecimento do mundo, o dia iluminando a noite e a noite dando sentido ao dia. Como se o perceber das diferenças nos conduzisse para constituir unidades e como se cada realidade se mostrasse complexa em suas contradições. Sobretudo, na alusão de uma dimensão onde imagens e sentidos dialogam. Uma nova alquimia, uma nova dialética, uma poesis. Ler Bachelard parece nos por em contato com nosso próprio ser e nesse ínterim e íntimo, nos sussurra a vontade de consciência: a olhar nosso próprio olhar, ou melhor ainda para o poder conscientemente construir esse olhar.


NOTAS
1) Doutor em História pela USP e integrante do Centro de Estudos do Imaginário. . Volta

sábado, 31 de dezembro de 2011

Desconexão… Olafur Eliasson

“MUITAS PESSOAS VÊEM O ESPAÇO URBANO COMO UMA IMAGEM EXTERNA COM A QUAL ELES NÃO TEM MENOR CONEXÃO, NEM MESMO FÍSICA.” (Olafur Eliasson)


O artista dinamarquês Olafur Eliasson colocou cachoeiras no centro de Nova York e tingiu de verde um rio de Estocolmo. Seu objetivo: fazer com que o cenário urbano volte a ser percebido pelos moradores dos grandes centros (texto retirado da revista Bravo: Ensaio sobre cegueira)


INHOTIM – Minas Gerais: Olafur Eliasson, By Means of a Sudden Intuitive Realization, 1996, Iglu de fibra de vidro, água, iluminação estroboscópica, bomba d’água e plástico, 300 x 510 cm, foto Eduardo Eckenfels

Copenhague, Dinamarca, 1967; vive em Berlim

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Integração ;) by Merleau-Ponty

“Eu percebo de uma maneira indivisa com meu ser total, eu apreendo uma estrutura única da coisas, uma maneira única de existir que fale ao mesmo tempo a todos os meus sentidos.” (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.101)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Vocação - Hélio Leites

“Fazer o que a gente não gosta é o pior desemprego do mundo... é um desserviço para o espírito”. Hélio Leites, artesão paranaense.

Outra frase dele: Tristeza é falta de alegria, mas tristeza num certo sentido até que ela é boa. Ela faz você ver outas coisas que a alegria não deixa ver.

domingo, 20 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

O que é arte? Nietzsche

“O que é arte? capacidade de criar o mundo da vontade sem vontade? Não. É reproduzir o mundo da vontade sem que o produto final tenha a sua vontade. Portanto, pode-se dizer que é a produção da falta de vontade pela vontade e instintivamente. Quando se tem consciência, chama-se isso de trabalho manual. Em contrapartida, é evidente o parentesco com a procriação, só que, nesse caso, surge novamente a abundância de vontade.

Nietzsche

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A obra faz o seu chamado no processo de criação

Trecho da entrevista do Bandeila de Mello na exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba:

 

“Quando você começa, você tem um tema na cabeça. Tem os materiais na cabeça, o suporte na cabeça, a técnica que vai usar. Tá tudo na cabeça, organizado. Tá pré-organizado isso. Mas no momento em diante que você começa o trabalho, você perde o comando, é o trabalho que começa a comandar”… “É o próprio trabalho que vai fazendo um chamado daquilo que tem que ser feito. E acaba sendo um diálogo entre o que você queria fazer e o trabalho quer que você faça. Agora, o mais importante nisso tudo, é que o que vai transformar aquilo em obra de arte é precisamente o que você não programou, é aquilo que saiu e ficou impressão no trabalho, independente da sua vontade. A temática do meu trabalho é sempre ligada a questão da sobrevivência do indivíduo enquanto indivíduo e enquanto membro da espécie. Quer dizer, essa questão de que a vida é uma luta permanente para não morrer, certo? Então, mesmo quando você entra nas questões da comida, do alimento, do amor, etc... É sempre a questão da sobrevivência da espécie. Do indivíduo como indivíduo e da espécie como um todo. Mas não contada de uma forma anedótica, mas contada de uma forma plástica.”

Bandeira de Mello, anotação do vídeo da exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba no dia 17 de Junho de 2011 feita por mim.

ARTE CONTEMPORÂNEA NA PINTURA: “…idéia de permanência não tem. O artista permanece, mas o ofício de pintor acabou.” por Bandeira de Mello

“Uma coisa que a gente nota é o descaso pela permanência do trabalho. Tem uma denúncia nesse sentido num dos livros do André Lotte. "Se perguntarmos a um restaurador quais são as obras que precisam de restauração, mais de restauração, certamente são as obras modernas. È uma coisa que eu sempre falo com meus alunos. É preciso que você faça alguma coisa que seja boa e que ela tenha uma certa permanência. Na própria obra de Van Gogh já tem trabalhos que são difíceis de se manter aparência deles porque ele já não se preocupava tanto com isso. Eu acho que quanto mais você sabe, mais livre você é. Mesmo porque você entra numa fase em que você sabe o que fazer e o que não fazer. O que não fazer sabendo fazer aquilo. Você deixa de fazer por uma necessidade expressiva. Eu ainda vou mais longe: Acho que se você não sabe desenhar você não pensa na forma. Nós tínhamos 900 horas aula de modelo vivo. O curso. E essas 900 horas não eram garantia de que você ia sair um bom desenhista. Eles foram cortando, cortando, cortando, cortando... E hoje são 90 horas obrigatórias. Quer dizer 10%. As pessoas que sabem desenhar, normalmente elas desenham apesar do ensino oficial, vão procurar fora, vão estudar fora, vão procurar um mestre fora para poder aprender, porque lá é meio difícil, meio complicado de aprender. Você vê obras hoje feitas com o intuito de desaparecer mesmo. O sujeito faz uma exposição com uma escultura de gelo e ela derrete durante a exposição. Faz uma cera para derreter se fizer calor, etc. Faz um livro de carne, para apodrecer, etc. Quer dizer, essa idéia de permanência não tem. O artista permanece, mas o ofício de pintor acabou. Eles pintam com qualquer coisa, em cima de qualquer coisa, com qualquer tinta, de qualquer jeito. Mistura com qualquer coisa, umas com as outras, sem saber o resultado final daquilo. Então, ele diz o seguinte: - Isso se deve à morte do ofício do pintor. Permanece o artista, mas não tem mais o técnico, o pintor.”

Bandeira de Mello, anotação do vídeo da exposição “EU EXISTO ASSIM” no Espaço Cultural da Caixa em Curitiba no dia 17 de Junho de 2011 feita por mim.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dançar

Dançar é como uma folha que cai num bailar com o vento. A folha somente segue a sua natureza em busca do chão. Dançar é isso, ouvir a voz interna e seguir adiante.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cuidado profissional: formação, produção, difusão e memória.

  1. Formação*: Transmissão da magia já existente na sociedade.
    • Aluno
    • Professor
  2. Produção: A partir da formação criamos novos conhecimentos, produtos, artes, espetáculos, etc.
  3. Divulgação: Não basta produzir ou formar, precisamos divulgar e expandir.
  4. Memória: Arquivar fisicamente os conhecimentos para que futuramente alguém possa se beneficiar.

* Formação muitas vezes precisa de manutenção.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Arte na luta do bem

Precisamos ser a flecha do Apolo na luta do bem. Essa flecha que é a Arte. Usá-la para contruir um mundo melhor. É preciso para isso muito amor, devoção, serviço e investigação. Muita responsabilidade e respeito à Arte. Esse foi o ensinamento mais marcante que tive com o Walter no 7° Encontro Nacional do Tristán.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Habitar o corpo

Cada personagem possui sua batida de coração e esta impulsiona a musicalidade dos seus gestos, falas e ações. Os atores precisam escutar essa música e habitar o seu corpo.

Anotação feita por mim da oficina de Teatro Gestual do Dos à Deux no dia 20 de dez de 2009 no Espaço Cultural da Caixa.

P.S. Outra coisa linda que anotei na oficina: Escutar a musicalidade muda dos gestos é difícil.

sábado, 28 de junho de 2008

CARTAS A UM JOVEM POETA (1ª Carta) - Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke

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