Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mundo vivido/mundo da vida: Husserl e Merleau-Ponty

‘“Merleau-Ponty rejeita o naturalismo e o realismo presentes no pensamento objetivo e causal e retorna ao que o Husserl chamou de mundo vivido  ou mundo da vida: o mundo percebido por um ser vivo do ponto de vista geral da vida, antes de qualquer tematização, objetivação e representação.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 15.)

“A primazia da percepção, enquanto experiência vivida, permite redescobrir a figura do mundo percebido, não como realidade exterior ou objeto, mas como seu mundo ou meio (Umwelt) e seu horizonte de vida.”

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 16)

[…] a divisão convencional do mundo em sujeito e objeto, em mundo interior e em mundo exterior, em corpo e em alma não mais pode aplicar-se e suscita dificuldades. Para as ciências da natureza em si, mas da natureza sujeita à interrogação humana e, dessa forma, novamente o homem não reencontra aqui senão ele mesmo.

(Heisenberg - Ibid.p.29.)

O método científico, que escolhe, explica e ordena, admite os limites que lhe são impostos pelo fato de que o emprego do método tranforma seu objeto e, conseqüentemente, o método não mais pode separar-se do objeto. Isso significa que a imagem do universo, segundo as ciências da natureza, deixa de ser, propriamente falando, a imagem segundo as ciências da natureza.

(Ibid.p.34.)

O objetivismo científico […] vai reduzindo a consciência a uma realidade cada vez mais fugaz, até que se converta num mero epifenômeno de acontecimentos físico-fisiológicos observáveis e objetivos. O pensamento de sobrevôo na filosofia converte o mundo em representação do mundo. O pensamento de sobreôo na ciência converte a consciência num resultado aparente de “fenômenos na terceira pessoa, isto é, de acontecimentos que pertencem à esfera dos objetos naturais – M.Chaui”.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 46)

A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las […] e apenas, de longe em longe, ela defronta-se com o mundo atual. Ela é, ela sempre foi este pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse pressuposto de tratar todo ser “como objeto em geral”, ísto é, como se, ao mesmo tempo, ele anda fosse para nós e, entretanto, estivesse predestinado aos nossos artifícios. (Merleau-Ponty, L’Oeil et l’ Esprit, pag 9)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 47)

O maior problema filosófico acerca do pensamento objetivo inerente às filosofias da reflexão ou do Cogito reside no fato de que a reflexão é atividade derivada; de que ela não é atividade originária e fundante, pois é precedida e se alimenta da percepção; e de que a ontologia objetivista do mundo e da realidade em si, que ela pressupõe, é insustentável na medida em que converte a experiência do mundo em representação, e o conhecimento, em coinscidência ou adequação. Por conseguinte, só nos resta abandonar a alternativa da filosofia reflexiva e buscar a solução numa filosofia da percepção que assuma a percepção como atividade de um corpo que é condição do aparecer do mundo percebido, o único mundo possível e real. Para nós, trata-se de buscar uma filosofica da pecepção e sinal visível de nossa encarnação e inscrição no mundo; enfim, uma filosofia que reencontre na experiência do mundo a fonte e o solo onde se delineia o significado, e que tenha, nessa comunicação com o mundo, o primeiro fundamento da racionalidade.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 50)

A percepção não é uma ciência iniciante e um primeiro exercício da inteligência; precisamos reencontrar um comércio com o mundo e uma presença no mundo mais velho do que a inteligência. (Merleau-Ponty, Sens et non-sense, p.106)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 52)

O pensamento objetivo tem o poder de obnubilar “todos os fenômenos, que atestam a união do sujeito e do mundo, e substituí-los pela idéia clara do objeto como em si e do sujeito como pura consciência. (Merleau-Ponty, Phénoménologie de la percepcíon p.370)

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

Ontologia cartesiana substancialista […] nossa ciência e filosofia fundam-se numa ontologia realista de um mundo em si e da representação objetiva desse mundo em sua identidade substantiva e positiva.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 54)

CRÍTICA À PSICOLOGIA CARTESIANA:

Como meio de garantir clareza e objetividade, à semelhança das ciências naturais, a psicologia introduz no comportamento a exterioridade e a objetividade do “pensamento de sobrevôo” e do “observador estrangeiro”, excluindo a introspecção como método e via de acesso ao psicquismo, aos fatos mentais e ao comportamento. Com efeito, para o psicólogo behaviorista e para o físico a preocupação da objetividade exorciza os riscos da visão “de dentro” do psiquismo, fornecida pela introspecção contaminada, acreditam eles, pelo componente subjetivo ou pelo aporte corporal (Merleau-Pontu, Le Visible et l’Invisible, p.22) e que faz do psiquismo uma aparência ou projeção psicológica. Avaliando os supostos riscos da introspecção como método de conhecimento do psiquismo em psicologia, Merleau-Ponty pergunta-se se a visão do interior, pela intropecção, é realmente possível e se ela poderia ser substituída por um ponto de vista exterior que transporta o interior para fora. Ao contrário, sustenta ele:

Há – e isto é uma coisa totalmente diferente e que conserva seu valor – uma vida ao pé de si, uma abertura para si, porém, que não desemboca em outro mundo diferente do mundo comum – e que não é, necessariamente, fechamento aos outros. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.36)

[…] À semelhança do físico, “o psicológico, por sua vez, intala-se na posição do espectador […] subentendendo um sujeito absoluto diante do qual se desdobra o psiquismo em geral, o meu, ou o do outrem” (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37). Como no físico, o psicológico constroi um “sistema de referências” segundo o qual o psiquismo, do qual fala o psicólogo, é seu psiquismo também. Esse presumido ponto de vista do espectador estrageiro ou imparcial é posto em questão quando fica patenteado para a ciência que “clivagem entre ‘subjetivo’ e o ‘objetivo’ “ (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.37)., pela qual a física e a psicologia definem seus domínios próprios, são duas ordens de “realidades” com suas propriedades intrínsecas em si, supostamente construídas e conhecidas por um pensamento puro e exterior ao mundo. Todavia não é o que acontece:

[…] o ser-objeto não pode ser mais o próprio-ser: “objetivo” e “subjetivo” são reconhecidos como duas ordens construídas apressadamente no interior de uma experiência total, cujo contexto seria preciso restaurar com total clareza. (Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible, p.38).

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 49 e 50)

PARADOXO DA REFLEXÃO:

[…] Todavia, não obstante seu enraizamento no corpo e no mundo, é incontestável que a reflexão seja possível, como intencionalidade latente, isto é, ser para.., ela é capaz de enraizar-se e transcender-se a si mesma, de romper com o atual e com sua familiaridade com o mundo. Esse é o paradoxo da reflexão: ser ao mesmo tempo enraizamento e transcendência.

José de Carvalho Sombra (no livro A Subjetividade Corpórea, página 53)

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