Espaço para desvanecer a cada instante. Aqui se encontram textos, imagens e gráficos de vários autores. Sempre precisei colecionar o que eu chamo de figurinhas mágicas. São cartas que abrem novos horizontes e paisagens. Então, boa viagem ;)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

CONHECIMENTO x FENOMENOLOGIA - HEGEL, G.W.F.

"Segundo uma representação natural, a filosofia, antes de abordar a coisa mesma, ou seja, o conhecimento efetivo do que em verdade é, necessita pôr-se de acordo sobre o conhecer, o qual se considera ou um instrumento com que se denomina o absoluto, ou um meio através do qual se o contempla.

Parece correto esse cuidado, pois há, possivelmente, diversos tipos de conhecimento. Alguns poderiam ser mais aptos do que outros para a obtenção do fim último, e por isso seria possível uma falsa escolha entre eles. Há também outro motivo: sendo o conhecer uma faculdade de espécie e de âmbito determinados, sem uma determinação mais exata de sua natureza e de seus limites, há o risco de alcançar as nuvens do erro em lugar do céu da verdade. Ora, esse cuidado chega até a transformar-se na convicção de que constitui um contra-senso em seu conceito todo empreendimento que, mediante o conhecer, almeje conquistar para a consciência o que é em si, de que entre o conhecer e o absoluto passa uma nítida linha divisória. Pois, se o conhecer é o instrumento para apoderar-se da essência absoluta, logo se suspeita que a aplicação do instrumento não deixe a coisa tal como é para si, mas com ele traga transformação e alteração. Ou então, o conhecimento não é instrumento de nossa atividade, mas de certa maneira um meio passivo através do qual a luz da verdade chega até nós. Nesse caso, também não recebemos a verdade como é em si, mas como é nesse meio e através dele.

Nos dois casos, usamos um meio que produz imediatamente o contrário de seu fim; ou melhor, o contra-senso está antes em recorrermos em geral a um meio. Sem dúvida, parece possível remediar esse inconveniente pelo conhecimento do modo de atuação do instrumento, o que permitiria descontar no resultado a contribuição do instrumento para a representação do absoluto que por meio dele fazemos, obtendo-se assim o verdadeiro em sua pureza. Só que essa correção nos levaria, de fato, aonde antes estávamos. Ao retirar novamente, de uma coisa elaborada, o que o instrumento operou nela, então essa coisa – no caso o absoluto – fica para nós exatamente como era antes desse esforço, que, portanto, fora inútil. Se, através do instrumento, o absoluto tivesse apenas de achegar-se a nós, como o passarinho na visgueira, sem que nada nele mudasse, ele zombaria desse artifício, se já não estivesse e não quisesse estar perto de nós em si e para si. Pois, nesse caso, o conhecimento seria um artifício: com seu múltiplo esforço, daria a impressão de produzir algo totalmente diverso do que só a relação imediata, a qual, sendo imediata, não exige por isso empenho. Ou então, se o exame do conhecer, aqui representado como um meio, nos faz conhecer a lei da refração de seus raios, de nada ainda nos serviria descontar a refração no resultado. Com efeito, o conhecer não é o desvio do raio: é o próprio raio, através do qual a verdade nos toca. Ao subtraí-lo, só nos restaria a pura direção ou o lugar vazio.

Desse modo, o temor de errar introduz uma desconfiança na ciência, que, sem tais escrúpulos, se entrega espontaneamente à sua tarefa, e conhece efetivamente. Entretanto, deveria ser levada em conta a posição inversa: por que não cuidar de introduzir uma desconfiança nessa desconfiança, e não temer que esse temor de errar já seja o próprio erro? De fato, esse temor de errar pressupõe com a verdade alguma coisa (ou melhor, muitas coisas) na base de suas precauções e conseqüências, verdade que deveria antes ser examinada. Pressupõe, por exemplo, representações sobre o conhecer como instrumento e meio e também uma diferença entre nós mesmos e esse conhecer; mas, sobretudo, que o absoluto esteja de um lado e o conhecer de outro lado – para si e separado do absoluto, e mesmo assim seja algo real. Pressupõe com isso que o conhecimento, que, enquanto fora do absoluto, está também fora da verdade, seja verdadeiro, suposição pela qual se mostra que o assim chamado temor do erro é, antes, temor da verdade.

Essa conseqüência resulta de que só o absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é absoluto. E possível rejeita-la mediante a distinção entre um conhecimento que não conhece o absoluto, com quer a ciência, e ainda assim é verdadeiro e o conhecimento em geral, que, embora incapaz de apreender o absoluto, seja capaz de outra verdade. Mas vemos, afinal, que esse falatório acaba em uma distinção obscura entre um verdadeiro absoluto e um verdadeiro ordinário, e que o absoluto, o conhecer, etc., são palavras que pressupõem uma significação que é preciso primeiro adquirir." [HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espirito].

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